quinta-feira, 12 de julho de 2012

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 4) 1970: LIVIA TIAGO E RODOLFO

1970 - Lívia As ruidosas pancadas na porta do apartamento, despertaram Lívia de seu sono inquieto. Dormia só. Havia algum tempo que não compartilhava seu leito com homem nenhum.Atravessava uma fase de sua vida onde o sexo era irrelevante. Aliás, nunca fora muito feliz com seus parceiros. Sempre ficava uma sensação de prazer não realizado. Talvez culpa por ter se entregado sempre sem muita convicção. Como se simplesmente estivesse cumprindo uma agenda, sem planejamento estratégico, até sem emoção. Quase sem sobressaltos, vivera uma infância desprovida de dificuldades, criada por pais de bom nível social. O pai, empresário de sucesso no interior de São Paulo, do tipo sabe-tudo-sobre–todos-os temas, era o genro preferido de todos os pais. Após alguns anos, durante os quais espoliou sua empresa, deu um golpe na praça e abandonou à míngua mulher e três filhas, sem qualquer motivo aparente. Mudou-se para Los Angeles, onde por anos viveu misteriosamente. Com notícias as mais desencontradas, tais como viver com um amigo aidético, e, deste modo, dizendo não poder mandar recursos para a família, nem receber qualquer visita. E assim, anos a fio a família abandonada sobreviveu iludida, sempre com esperança. E o pai era apenas uma sombra distante. Cada vez mais apagada. Após treze anos chamou uma das filhas para auxilia-lo a abrir um restaurante. A filha do meio aceitou o convite. Exatamente a que menos se imaginava. Contudo, surpreendeu a todos, principalmente o pai. Que, de repente, de pai passou a avô. A gravidez, consumada na Brasil, somente foi revelada após quatro semanas de convívio com o pai. Este, inicialmente atônito, fez-se de avô, sorriso amarelo, como se nada houvesse. Inclusive encaminhou-a para ser atendida na mesma clínica que executara um aborto em uma de suas cozinheiras. O comportamento complacente da mãe e das irmãs irritaram profundamente Lívia, que praticamente passou a ignorá-las, afastando-se por completo. O cenário de sua vida estava mudando. Radicalmente. Para ela o pai já não existia há muito. Mesmo porque na situação deprimente que o pais atravessava, face à mão de ferro da ditadura, as questões familiares acabavam ficando menos importantes. A duras penas acabou terminando o curso de Direito. E graças ao relacionamento com Glória, sua prima, freqüentava o grupo da Medicina, mantendo com Tiago um relacionamento alegre e quase estável. Até a festa de fim-de-ano de 1968. Passara boa parte, dela conhecendo um pessoal que chegara à festa para transformá-la em palco de reivindicações sociais, e confrontos com os intelectuais presentes. Depois de alguns baseados, apagara completamente. Voltou à normalidade apenas na manhã seguinte após o banho de mar. Curiosamente, sem saber como, ocorrera um certo desmembramento daquele alegre grupo. Leo logo após a formatura acabara desaparecendo sem deixar notícias. Alguém recentemente comentara que tinha se dirigido para o interior do planalto central, após especializar-se em oftalmologia. Glória continuara no Rio durante algum tempo, e após alguns meses viajara para Paris. Sérgio desaparecera. Dizia-se que estava envolvido com o movimento clandestino armado. Tiago ainda permanecia no Rio. Assumira um cargo de docente na Universidade. E ainda se mantinha ligado aos ideais universitários de democracia social, liberdade, justiça e dignidade. Também continuava caído por ela. Mas já havia quase um ano que não se encontravam. As batidas na porta finalmente fizeram com que Lívia, ainda em roupas de dormir, lentamente atravessasse seu pequeno apartamento, cuja duvidosa organização fazia supor o descaso da moradora. Ainda sob o torpor de um sono não reparador, surpresa, defrontou-se com a assustada e pálida face de Lia. Irmã de Tiago, sua antiga colega de classe na faculdade de Direito. Após o espanto inicial, notou as olheiras e a expressão aflita da amiga. Descompassadamente,e já em prantos, contou a Lívia que Tiago, após uma série de conferências na Universidade havia sido preso pelos agentes do Departamento de Ordem Política e Social. Para um interrogatório de rotina, dizia-se. Só que estava desaparecido havia já uma semana. Sem saber o que fazer, procurara aquela que sempre esteve presente nos sonhos do irmão, Lívia. * O interrogatório. Um luz focada permanentemente no rosto. Quatro ou cinco interrogadores martelando o homem constantemente. Ele fica lá sentado. Já não sabia há quanto tempo estava lá.Horas ou dias. A rotina se repetia incansavelmente. Quando um interrogador cansava, logo era substituído por outro. No início tinha procurado responder às perguntas com tranquilidade. Mas logo no início uma série de bofetadas fê-lo sentir toda a arbitrariedade da situação. Também toda a sua impotência. Já o sangue tinha se coagulado em seu rosto. O supercílio cortado, a face inchada, com hematomas. Os interrogadores procuravam retirar dele, brutalmente, informações que não tinha. Não era um militante ativista. Havia se filiado clandestinamente ao PC do B. Mas não tinha nada a ver com as atividades armadas do partido. Apenas procurava transmitir aos alunos os conceitos de dignidade social, a serem aplicados mesmo às classes menos favorecidas. Estava agora nu. O corpo machucado, queimado por pontas de cigarro. Mantinha-se enfraquecido, sentado na cadeira tosca apenas porque se encontrava amarrado a ela, as mãos presas às costas. Lembrava-se vagamente de ter sido submetido ao pau-de arara, e recebido choques elétricos que quase acabaram com sua sanidade. Aos poucos as imagens se embaralharam e tudo se esvaiu em direção a um profundo vazio. Depois a cela úmida, o piso irregular e fétido. Fezes e urina de ratos. Misturados ao odor de seus próprios dejetos. O jato de água gelada na madrugada sempre o despertava abruptamente. Em seguida, a dor e a incerteza dos próximos momentos. DE longe em longe, vinham-lhe as lembranças da pequena Jarapatinga, onde nascera. Um lugarejo entre a orla da praia de águas escandalosamente verdes e o coqueiral. Um conjunto de casas térreas, quase sempre geminadas, na arquitetura porta-duas janelas, paredes claras, dando para a pracinha da matriz. Todas as manhãs o aroma penetrante do café forte, no coador de pano sobre o fogão-à-lenha, a manteiga cremosa e a presença sempre suave da mãe. Era o mais novo dos três irmãos. Há muitos anos não sabia mais deles. Desde que sua vida de adolescente desmoronou. O pai sempre distante, origem humilde, filho de lenheiro, soube, entretanto como se fazer na vida. Trabalhando como faz-tudo para os usineiros da região, com os anos conseguiu amealhar um patrimônio considerável para os padrões da cidade. Tornou-se agricultor. Extremamente machista,tinha a mulher para uso e os filhos como uma pedra nos sapatos. À medida em que a sorte mais o beneficiava, isolava-se cada vez mais, procurando curtir a vida em toda a sua plenitude, como se não tivesse família. Nessa sucessão de prazeres fáceis e sempe disponíveis, acabou se engajando em um extravagante caso de amor, tema predileto de todos os mexericos de Jarapatinga. Um dia a esposa foi descoberta morta, atirada ao poço de sua própria casa. As diligências nunca chegaram a descobrir o autor do crime. Contudo, era voz corrente que o assassino ou o mandante tinha sido o próprio marido. A familia da morta, indignada embora sem nada poder fazer, recolheu os filhos, tomando a si a responsabilidade de criá-los. Passou-se muito tempo antes que Tiago retornasse à pequena Jarapatinga. Quando o fez, já adulto, ainda se encantou com o verde do mar e a tranquilidade do lugarejo, agora já maior e mais próspero. A casa onde nascera dera lugar à agência local do Banco do Brasil. O pai se casara novamente já há vários anos, e tivera outros filhos. Chegou até a conhecê-los. Afinal eram inocentes. Decidiu refazer sua vida. E de novo o Rio de Janeiro acolheu mais um passado a ser sepultado. Uma nova vida. Com valores mais dignos e menos egoístas. De novo a porta se abre e ele é arrastado para outra cela. Sem qualquer mobilário. Atirado ao chão, percebe de novo a luz forte. Agora iluminando intensamente todo o cubículo. Uma gravação com voz de falsete entoa continuadamente uma ladainha de perguntas que se repetem indefinidamente. Mal consegue continuar a entender os sons. Palavras esparsas como Xambioá, Ângelo Arroyo, Bacabas, Caximbeiro se repetiam sem que para ele tivessem qualquer sentido. Horas ou dias, que para ele pareceram meses, a tortura pela falta de sono. A luz queimando-lhe os olhos. Por fim a inconsciência. Acordou. Parecia noite. Não tinha certeza. Sentia apenas solavancos do carro em uma estrada irregular, preso no porta-malas. O carro fez muitas curvas até parar. Foi puxado para fora e lançado ao chão. A cabeça estourando contra o piso de pedra.O cano frio de uma arma, torturando-lhe o ouvido. As palavras frias - Chegou sua hora! – O estalido do gatilho. E uma gargalhada. Percebeu após algum tempo, que lhe pareceu uma eternidade, que tudo não passava de uma cruel simulação.Tiago permaneceu estirado no chão. Trêmulo, as calças molhadas de urina. Sentindo-se menos que um verme. Mas apesar de todas as humilhações sentia-se vivo. Ouvia o barulho do motor do carro desaparecendo na noite. Fora sua primeira prisão. Jurara a si mesmo que nunca mais seria preso. Como nunca mais seria o mesmo outra vez. Perdera a ingenuidade da inocência. Perdera a confiança na justiça. Sua dignidade. A vontade de retornar à antiga rotina. Nunca mais as aulas para as jovens mentes. Amarradas pela censura e congeladas pelo comportamento estereotipado,determinado pelos limites impostos pela nova ordem social militarizada. Na realidade seus inquisidores sacrificaram o professor no altar da intolerância e truculência, para fazer despertar um novo homem, disposto a defender os princípios de justiça social, com o que ainda lhe restava de dignidade humana. Apenas uma imagem lhe transmitia um pouco de esperança – Lívia. Tudo o mais – apenas um futuro incerto. 1970 - RODOLFO Sua vida sempre fora normal. Sem grandes lances de emoção. Que não as da própria sobrevivência. Procedente do interior do estado de São Paulo, oriundo de família de médias posses, entretanto nunca lhe faltou nada. Família sólida, pais unidos até a morte, vivendo felizes a seu modo. Irmãs solidárias, fizeram de seus primeiros anos um cenário ideal para a construção de um caráter firme. Entretanto por vezes assediado pela ambição, medida, mas sempre presente. Desde que se entendeu como gente assumiu a vocação de médico. Não soube nunca desde quando ou porque. Simplesmente queria. E sempre lutou para isso. Sua infância e adolescência resumiram-se na rotina de se preparar para um futuro melhor. Eventualmente com dificuldades, mas sempre com obstinação. Sua maior arma. O destino lhe foi complacente e chegou a formar-se médico em uma das melhores escolas do país. Em uma época conturbada, onde o país desfalecia, sob o jugo da ditadura militar. Nunca se envolvera muito com a política. Mais tarde até se arrependeria muito disso. Ao contrário, procurou até se alienar de tudo o que ocorria, apenas no propósito de se tornar um bom médico. Mas mesmo assim deu sua colaboração ao movimento, tímida, mas concreta, participando de passeatas reivindicatórias de melhores condições de vida e liberdade democrática, quase sempre dissolvidas pela violência da polícia militar. Manteve-se, porém, sempre consciente da insegurança política e social, própria de sua época. Um de seus colegas de turma, exatamente um dos mais inflamados, na realidade mais tarde revelou-se um olheiro das autoridades legalistas. Conheceu Glória em uma das viagens que fez ao Rio de Janeiro, durante um curso de aperfeiçoamento, apresentada pelo primo Sérgio. E ficou fortemente impressionado pela personalidade forte e extrovertida da jovem. Sedutoramente confiante em si mesma. Saíam juntos com frequência, e logo conheceu os demais membros do grupo, afinando-se muito com Lívia e Tiago. Foram meses de alegre convívio, e grandes momentos. Até o final do ano. Invadiram como penetras a maior festa de final de ano do Rio de Janeiro. Muita política, arte e futilidades, temperadas a bebida, drogas e sexo. Ninguém saiu imune dessa experiência. Nem mesmo ele e seus amigos. O rescaldo de uma noite de fortes e incontidas emoções deixou marcas indeléveis em todos. E, na época, o afastou de Glória. Por sua ficha sem antecedentes no Departamento de Ordem Política e Social, o onipresente DOPS, Rodolfo atravessara incólume os ventos da ditadura militar. Ao contrário, seu prestígio como médico competente e acima de qualquer suspeita trazia-lhe livre passagem por entre os meandros da ordem instituída. Assim sendo, podia auxiliar os amigos, injustamente indiciados e, agindo taticamente, abrir-lhes as portas da prisão. Foi a ele que Lívia se dirigiu logo soube do desaparecimento de Tiago. Em meio à madrugada, Rodolfo ouviu consternado o ocorrido, imaginando a gravidade das acusações sobre Tiago. Nunca houve evidências de qualquer vínculo com a resistência armada. Entretanto as aulas e palestras tinham ficado cada vez mais críticas em relação ao regime militar e à autoridade constituída. Progressivamente Tiago tinha dado asas ao perigoso dom da eloquência, em uma fase onde este era uma arma importante, principalmente se alimentando mentes jovens e explosivas. Não foi fácil descobrir o paradeiro do amigo. Teve que peregrinar dias, acionando contactos, principalmente na Marinha. Estes acionaram o Ministério do Exército, e finalmente abriram os arquivos do DOPS. Tiago estava catalogado na categoria de suspeitos ativistas intelectuais, perigosos, mas ainda não definitivamente incluídos na lista dos caçados, acima de qualquer intervenção. Os ativistas mais perigosos eram sumariamente caçados, e desapareciam simplesmente. Uma pesquisa sistematica nos núcleos de investigação e interrogatório do DOPS, ao cabo de algumas semanas, trouxe a informação desejada. Com tato e até suborno, trazendo sob sua responsabilidade o comportamento futuro do amigo, Rodolfo, a duras penas, conseguiu a liberação de Tiago. Esta intervenção, porém, custou-lhe caro. Passou a ser estreitamente vigiado pelos agentes da ditadura. Até mesmo no exercício da Medicina. Eventualmente até entre pacientes havia agentes infiltrados, sempre ávidos por flagrar qualquer tipo de irregularidade. Acabou por aceitar o convite de uma universidade em Lyon, para um curso de pós-graduação de dois anos. Até quase nào havia necessidade disto, entretanto, os ares do Brasil estavam quase irrespiráveis. Foi assim que partiu para um exílio forçado. Também para um inesperado reencontro.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 3) A RESISTÊNCIA ARMADA

O golpe militar de 1964 tinha reveladas as suas raízes e desdobramentos. Os interesses do empresariado brasileiro, amparado pelo capital externo, acostumado à fraqueza do mercado interno e ao paternalismo do Estado, procuraram a opção de um governo que garantisse investimentos externos e afastasse a desordem social, no caso a ameaça socialista, representada pelo Presidente Jango Goulart. A intervenção militar radical já era esperada. Pior que isso, segmentos da sociedade, inicialmente atônitos passaram a aplaudir a instalação do regime totalitário. As tradições democráticas foram banidas em nome da legitimidade num flagrante desrespeito. O golpe usava a violência da repressão com a desculpa de garantir a soberania da nação brasileira. Mas, na realidade, prestigiava apenas a elite política, beneficiada pela interferência externa. Claramente manifesta pelo apoio estratégico-militar dos EEUU na aplicação e desenvolvimento de um regime de força autoritária. A resistência não se fez esperar. Sempre presente durante os anos que se seguiram. Mas sempre contida pela arbitrariedade e pela violência do comando militar. A sociedade atemorizada pela atuação totalitária cada vez mais evidente e a repressão violenta aos focos de resistência fizeram surgir os núcleos de resistência armada e fomentar uma política alternativa de guerrilha urbana. Em represália, mais violência. Os desaparecidos e os desaparecimentos inexplicáveis. Muitos sem causa. O jogo político da sucessão presidencial ao longo de vinte anos, manteve a supremacia dos generais. A participação estudantil se renovara, e em 1968, permeada por pequenas agremiações partidárias de esquerda, que iam da linha trotskista à maoísta, passou a atuar na clandestinidade. A brutalidade da repressão policial fortalecia o conceito da resistência armada. Parte do Brasil se opunha ao Brasil anestesiado e militarizado. O Ato Institucional 05 finalizara por suspender indefinidamente a cidadania, ampliando indefinidamente os poderes de intervenção do poder executivo. Do regime militar. Surgia a obrigatoriedade nas escolas de uma nova disciplina, Educação Moral e Cívica, destinada a reconstruir a História do Brasil, entretanto sem muito compromisso com a verdade. Uma feição totalmente alienada e irreal. Logo a seguir o Ato Institucional 08 acabava com qualquer eleição ou direito eleitoral no país. Toda a forma de pensamento livre era considerado subversivo. E logo erradicado. Violentamente. Curiosamente a ajuda externa começou a rarear. Feitiço voltando contra o feiticeiro. A repressão absoluta à democracia no Brasil, incomodando os idéias democráticos americanos. Decretado pelos próprios militares o Ato Institucional 12 transferia todos os segmentos do poder constituído aos militares. O Ato Institucional 13 definindo a Lei de segurança nacional enquadrava os atentados contra a segurança intensificando a política do exílio compulsório. A seguir o Ato Institucional 14 legalizava a pena de morte para os culpados de guerra externa, psicológica ou revolucionária. O Ato Institucional 17 definiu a seguir a punição radical de qualquer indisciplina nos quadros militares. Os interrogatórios e sessões de tortura passaram a ser uma rotina tão absurda quanto natural para o regime de força - Os Anos de Chumbo. Os primeiros anos da década de 60 sediaram o início da resistência armada. A guerrilha do Araguaia se constituiu no mais organizado foco de combate ao governo desde o movimento messiânico de Antonio Conselheiro em Canudos. Dezenas de jovens intelectuais, comunistas e simpatizantes juntaram-se aos camponeses da região. Formaram grupos de trabalho que tentaram melhorar a estrutura social e de saúde daqueles que viviam miseravelmente.Em busca de um país mais justo. Mais digno. Essa dedicação explica o apoio da população local aos guerrilheiros durante o confronto armado com os militares. A Guerrilha do Araguaia foi organizada pelo Partido Comuista do Brasil (PCB), na ilegalidade, entre 1966 e 1974.Por meio de uma resistência popular armada prolongada os integrantes do PCB pretendiam implantar o comunismo no Brasil, iniciando o movimento pelo campo, à semelhança do que já ocorrera na China em 1949 e em Cuba dez anos depois. O palco de operações se deu onde os estados de Goiás, Pará e Maranhão faziam fronteira. O nome foi dado à operação por se localizar às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo e Marabá no Pará, e de Xambioá, no norte de Goiás. Esta região, ao norte do Estado de Tocantins, passou a ser chamada também de Bico do Papagaio. Aderiram ao movimento cerca de setenta a oitenta guerrilheiros, a maior parte por volta de 1970. Para combatê-los a ditadura militar mobilizou inicialmente cinco mil soldados brasileiros, além do auxílio de centenas de militares norte-americanos . Estes atuariam na elaboração de planos estratégicos de dominação e consolidação de território. A maioria dos soldados brasileiros que participaram das operações desconhecia a natureza de sua missão. Nos governos de Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel as operações militares foram executadas de maneira sigilosa. Era proibida a divulgação da existência de um movimento guerrilheiro no interior do país.Devido à censura rigorosa, nunca foi autorizada a publicação de detalhes sobre a guerrilha. A população brasileira sempre ficou alheia ao conhecimento dessa rebelião. A única menção feita por Geisel a respeito da existência de um movimento guerrilheiro no interior do Brasil se deu em 1975. Os guerrilheiros não usavam sua verdadeira identidade. Nomes e dados eram forjados. Muitos eram estudantes e profissionais liberais que haviam participado de manifestações e passeatas contra o regime na década de 1960. Os relatos dos sobreviventes documentam sempre a tortura como instrumento de coação. Os considerados mais perigosos eram sumariamente executados após a tortura. Em torno de 70% eram oriundos da classe média e tinham profissões liberais como médicos, dentistas, advogados e engenheiros. Ou ainda bancários e comerciários. Cerca de 10% eram operários. Menos de 20% eram camponeses. Recrutados na região do Araguaia. A idade predominante era em torno de trinta anos. Iam chegando aos lugarejos da região, adquirindo a confiança dos moradores, agindo como integrantes das comunidades e exercendo ocupações comuns no interior: agricultores, farmacêuticos, curandeiros, pequenos comerciantes, donos de bares ou pequenas vendas de beira de estrada. Não se comunicavam entre si , a não ser secretamente. E nunca moravam próximos uns dos outros.Participavam de todos os eventos da comunidade, sendo bem recebidos e integrados a elas. Não atuavam e não influiam na política local, nem se envolviam em discussãoes políticas para evitarsuspeitas. Praticavam o ensino do trabalho comunitário, voluntariado e assistencialismo. Práticas assistenciais médicas e odontológicas faziam parte do trabalho voluntário desenvolvido nas escolas e centros comunitários. Davam aulas e organizavam mutirões assistenciais. Com isso aos poucos ganharam o respeito e a admiração da população local. Após um ano de atuação, os grupos revolucionários do Araguaia já possuíam condições de articulação da população em curto período, com mobilização de estratégias de defesa, baseadas nas táticas utilizadas por vietnamitas sob a liderança de Ho Chi Min, ou nas atividades comunitárias desenvolvidas pelo governo de Fidel Castro em Cuba. Curiosamente as autoridades federais somente tomaram conhecimento do movimento, quando uma das guerrilheiras caiu enferma. Por falta de condições assistenciais na região, retornou à casa dos pais para tratamento. A família tinha estreitas relações com o exército e acabou por denunciar a existência do movimento, seus projetos e até alguns líderes. Somente após isso a ditadura militar se mobilizou. O chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI ) na época, o futuro presidente da república, general João Batista Figueiredo, cercou toda a região e articulou os primeiros movimentos militares. Presumia uma rápida campanha de erradicação, uma lição da truculenta eficiência do exército federal. Encontrou, porém, menos de uma centena de guerrilheiros, homens e mulheres, bem equipados e bem treinados taticamente. Foram necessárias três campanhas mobilizadas pelas fôrças armadas para que a fase atuante da guerrilha do Araguaia se desbaratasse. Durante mais de 14 meses os guerrilheiros barraram as manobras das tropas governamentais, esperando que sua resistência encontrasse eco nas demais regiões do país. Procuravam incentivar uma reação escalonada de oposição mais radical que nunca aconteceu. A imprensa nacional sobrevivia sob rígida censura. A internacional, ainda muito conservadora , mostrava-se reticente ao apoio de movimentos populares, considerando-os núcleos de ativistas políticos e de terroristas. Por falta de informação adequada o tão esperado apoio pupular, principalmente das classes operárias, nunca aconteceu. Os revoltosos ficaram entregues aos seus próprios esforços. As baixas do exército brasileiro nos combates da guerrilha do Araguaia foram muito pequenas, mais de ordem moral. A orientação da guerrilha seguia moldes trotkistas, ou seja - não matar o soldado que nos combate hoje, pois, amanhã esse será o aliado contra o opressor. Em 1973, o governo federal, contando com experiente consultoria européia, formou o primeiro batalhão de infantaria de selva, utilizando-se dos métodos disciplinares da Legião Estrangeira. “Marcha ou morre”. Isto é, um rígido código disciplinar associado a um preparo físico excepcional. Acima dos próprios limites. Em 1974, com ataques combinados, forca aérea, infantaria e pára-quedistas iniciaram a maior ofensiva governamental. A única bem sucedida. A manobra valeu-se de aproximadamente 18.000 soldados, da aeronáutica, exercito e policias militares estaduais. Era o fim da Guerrilha do Araguaia. Mas não o fim da resistência armada, nem do anseio de liberdade democrática, vento que fustigava incessantemente a face da ditadura no Brasil. Depois disto os guerrilheiros aprisionados passaram a ser sumariamente exterminados. A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Não deveria haver testemunhas daquele movimento. Até os corpos deveriam desaparecer E assim foi feito. A população também foi martirizada. Os camponeses eram forçados a servir de mateiros para o Exército. Vilarejos inteiros foram esvaziados. A maior parte da população de São Domingos do Araguaia foi presa. Estabeleceu-se o toque de recolher e todos os suspeitos de manter contatos com os guerrilheiros foram presos e submetidos a interrogatórios que envolviam torturas físicas e mentais. Não escaparam nem mesmo padres e freiras, participantes ou não da luta. Nesses tempos no Araguaia, qualquer sinal de simpatia por eles era visto como um perigoso ato de contestação ao regime, tão criminoso quanto pegar em armas. As forças de repressão que atuaram no Araguaia, que maltrataram a população civil, torturaram e executaram pessoas desarmadas e indefesas - muitas delas doentes e sem nenhuma capacidade de resistência. No final da década de 1970, e durante toda a década de 80 o sul do Pará tornou-se palco de uma sangrenta luta entre os posseiros pobres e os latifundiários. E até o direito a uma sepultura cristã, em local conhecido, foi negado aos que tombaram em prol de um país melhor. Em 1968 Sérgio fora recrutado pelo movimento clandestino. Idealista ou ingênuo, procurou pontuar um rumo para sua vida, cheia de incertezas e na época marcada por uma profunda decepção amorosa. O resgate da liberdade de expressão e a procura por melhores condições de vida, em um país regido pelos excessos da ditadura militar, passaram a ser seus objetivos mais próximos.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 2)

A viagem de Leo Leopoldo Augusto dos Anjos nascera em Formoso, ao pé da Serra da Bocaina, em um estreito vale, cujas pedregosas escarpas mal permitiam a criação de mirradas vacas leiteiras. Muitos de seus amigos ali nasceram, e nunca tiveram outros horizontes, que não os limites daquele punhado de terra. A vida transcorria lenta e quase sem sobressaltos. A lida na roça, monótona e estafante, e a falta de opções na pequena cidade do interior formavam jovens desprovidos de maiores ambições, que não fossem às relacionadas ao seu restrito universo. Nada além da serra. As quatro ruas que formavam o quadrilátero da cidade, com casas na maioria geminadas, abrigavam quase sempre almas acomodadas, porém, quase felizes. A bebida tornava os fins de semana mais animados, e os dois bares na praça central da matriz sempre estavam ruidosamente cheios,para aflição do pároco local. Batina surrada e boina na cabeça, o padre Lara diariamente percorria as ruas, visitando as casas e procurando alcançar e manter o seu rebanho unido e longe das tentações. Longe também da velha Josefa, poderosa benzedeira, cujas mezinhas eram rotineiramente procuradas. Principalmente pelos que não conseguiam comprar os remédios vendidos na farmácia do Oscar. Dizia-se também que seus benzimentos afastavam o mau-olhado e protegiam contra os malfeitos. Resolviam até problemas de amor. Havia gente graúda na cidade, que, antes de realizar qualquer negócio, ia pedir orientação para ela. E apesar de tudo continuava vivendo quase na penúria. Cultivava o hábito de diariamente visitar bem cedinho o velho cemitério dos escravos. Toscamente mantido num pequeno terreno, no fim de um beco-sem-saída, cercado por grades baixas e enferrujadas, carcomidas pelo tempo. Já nas primeiras horas da manhã, quase ao nascer do sol, podia ser vista, caminhando lentamente por entre as poucas e rústicas sepulturas, arrancando tiriricas e murmurando runas indecifráveis. Chuva ou sol, sempre lá estava ela todas as manhãs. Nunca se soube de qualquer família, ou de qualquer acontecimento em toda a sua longa vida. Simplesmente ela estava lá. E há muito tempo. Leo passou sua infância e adolecência nesse cenário de horizontes restritos, e ainda carregando predestinadamente a aura cinzenta de seu homônimo – Augusto dos Anjos – poeta funéreo, morto em plena juventude pela tuberculose. Seus Versos Íntimos já prenunciavam o peso de toda uma vida : Ves! ninguém assistiu ao formidável enterro de sua última quimera. Somente a ingratidão, esta pantera, foi tua companheira inseparável. Acostuma-te a lama que espera o homem, que nesta terra miserável vive entre feras, e sente a inevitável vontade de também ser fera. Toma um fósforo. acenda teu cigarro; o beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se alguém ainda causa pena a tua chaga, apredeja esta mão vil que te afaga, escarra nesta boca que te beija. Na realidade estes versos acompanharam Leo durante toda a sua vida, como que vaticinando uma existência solitária e quase tão amarga quanto foi a do poeta. Teve dois irmãos. Ambos extrovertidos. Até demais. Analucia, sua irmã mais velha passou a revelar um comportamento misógeno, e mais tarde assumindo-se lésbica. O futuro também lhe trouxe outras marcas. Como se toda a família carregasse uma predisposição genética comportamental. O irmão mais velho morto alguns anos depois com imunodeficiência adquirida. O outro homossexual discretamente assumido. Contudo, fadado a responder amargamente por suas opções. Certa noite, ao sair de um motel, distraído, colidiu frontalmente com uma moto. Politraumatizado foi conduzido inconsciente ao hospital. Após algumas semanas despertou do coma. Apenas para se defrontar com toda a extensão da tragédia. Morte dos dois irmãos que trafegavam na moto. O jovem amante, ferido no acidente, teve uma perna amputada. E pelo resto da vida amargou o estigma social e a incapacidade física. No lugarejo tudo se espalhou como um estopim, arrasando as famílias envolvidas. O pai dos rapazes, em desespero, invadiu o hospital, armado, buscando vingança. Por muito pouco não conseguiu o seu intento. A esposa e os filhos repudiaram o infeliz transgressor, mas não tiveram outra saída, que não transportá-lo para casa, enquanto lentamente se recuperava. Fisicamente, porque da alma e na sociedade nunca mais se recuperou. Leo se impôs a absoluta convicção de se afastar de todo esse cenário. Dedicou-se cegamente a esse intento, como se nada mais na vida tivesse qualquer importância. No íntimo, temia pelo seu futuro, mais pela sanidade de seu espírito. As derrotas e vicissitudes familiares o perseguiam, massacrando qualquer manifestação de prazer ou alegria. Um universo sem cor, sem esperança. Após anos de muita luta, e mais insucessos que vitórias, conseguiu ingressar na Faculdade de Medicina, no Rio de Janeiro. Onde conheceu Glória. Passou a fazer parte de seu grupo de amigos alegres e descompromissados. No início, era o acorde dissonante do grupo. Pouco a pouco, foi assimilado, encontrando-se a si mesmo, e nesse clima experimentar até momentos de calma felicidade. O menino de infância recolhida, crescido no estreito vale, no lugarejo sem horizontes, com uma família de trágicos antecedentes, sobreviveu na cidade grande. Rio de Janeiro, a sedutora meca de todas as fantasias e realidades imprevisíveis, acolheu Leo. Em um curso de exigências extremas, sua formação profissional se desenvolveu afastando os temores e deixando de lado as desventuras de seu passado. Bem apessoado, era assediado pelas mulheres. Contudo, nunca chegou a estabelecer qualquer relacionamento estável. Mantinha-se ocupado e aparentemente feliz. Sensibilidade à flor da pele geralmente deixava-se envolver pelos problemas de seus pacientes, dedicando-se a eles além de seus limites. Apenas a convivência com Glória e seus amigos mantinha Leo dentro de um clima de sociabilidade aceitável. Era com eles que se refugiava quando a rotina se tornava massacrante. E era sobretudo Glória quem conseguia despertar as emoções contidas. E tudo corria até sem contratempos. Até aquele final de ano. Fora de Glória a idéia de invadir a festa de arromba, anunciada para a mansão do Jardim Botânico em 1968. Chegaram logo depois das 23 horas. Celebridades, socialites, políticos, empresários, artistas e até ilustres desconhecidos compunham uma fauna de freqüentadores, que, embalados por muito álcool e drogas, compunham um cenário de liberação irrefreada. Uma festa que traduzia todo o clima de revolução sexual então vigente. Os jovens amigos prontamente aderiram ao clima da festa, com todo o entusiasmo de seus jovens anos. Em uma fase histórica de repressão política oprimindo todo o país, a festa e a possibilidade de conviver com expoentes literários e das artes, participando inclusive de sua intimidade, era um momento único. Em determinado momento, após muitas rodadas de uísque, Leo surpreendeu-se em um dos cômodos da casa a beijar voluptuosamente Glória, envolvido por um carrossel de emoções incontidas.Atracaram-se freneticamente, carícias cada vez mais ousadas, pele sobre pele. Corpos entrelaçados no suor, línguas dardejantes, apenas a expressão total e irrestrita dos sentidos. No frenesi da paixão, de repente a ansiedade e a consciência do ato que não seria finalizado. Glória retorcia-se convulsivamente na tentativa de despertar o macho adormecido. Angustiado e ainda sem controle da situação, Leo afastou-se humilhado. No exato momento em que a porta se abria com estrépito, para dar entrada a um Sérgio, completamente embriagado, arrastando consigo uma Lívia inconsciente. A atmosfera lúbrica e carregada de sexualidade reprimida contagiou o invasor, que, incontinenti , atirou-se sobre Glória, penetrando-a violentamente. Em meio às névoas do álcool, arrasado, Leo atônito via toda a sua integridade se desmoronar, como num pesadelo impossível. Arrasado. Humilhado, presenciava o corpo convulsionado de Glória, embriagada, corresponder ardorosamente às investidas de Sérgio, os olhos revirando, narinas e lábios dilatados, emitindo sons guturais, carregados de prazer.

POR TRÁS DE GLÓRIA ( PARTE 1 )

“ Por trás de Glória há todo um cenário de encontros e desencontros, encantos e desencantos, ascensão e queda, que se não justificam, pelo menos conduzem o comportamento humano...” PARTE I 2002 - VOLTANDO PARA CASA Naquele sábado ensolarado, à tarde, ensolarado o vai-e-vem dos turistas e frequentadores dos mercados ao ar livre da Rue Mouffetard coloria alegremente o cenário de estreitos prédios de quatro andares, com telhados do tipo mansardas. A fachada do número 125, toda restaurada no estilo Luis XVIII, recebeu familiarmente a entrada de Glória. A escada em espiral conduziu-a ao pequeno apartamento, que durante os últimos quatro anos abrigara seus dias de busca de si mesma. Na plenitude de seus quase cincoenta anos, Glória, ainda era uma bela mulher. Ao contrário dos homens, e como a maioria das mulheres, podia viver sozinha após uma relação duradoura de mais de dez anos. Personalidade forte e dominadora, não dera muitas oportunidades ao marido de conviver com sua maturidade equilibrada e conscientemente provocativa. Depois vieram os problemas com a filha adotada, Amelie. Estes puseram um ponto final no casamento já fragilizado. Abrindo as cortinas, como num ritual, deixou-se iluminar pelo sol que desmaiava no horizonte recortado por edifícios baixos. Partiu o queijo Rigotte, comprado no mercadinho da Place Maubert, misturando seu sabor forte com o de uma taça de Clos de L´Écho, um bom vinho tinto da região de Chinon. Pensava que uma das boas lembranças do ex-marido era o seu delicado paladar para vinhos, e a paciente introdução dela na arte de degustá-los. Assim a solidão era mais atenuada. Solidão que ela mesma buscara ao constatar a frustração de um relacionamento que perdera todo o encanto. Fora-se a paixão. Ficara apenas uma amizade vazia. E durante o jantar, embora frente a frente, longos e insuportáveis silêncios, quebrados apenas em geral por repetidos e inconsistentes comentários. Um casamento sem filhos. Embora Glória houvesse se especializado em psiquiatria infantil e do adolescente no Hospital Pitié-Salpêtrière. Depois adotaram Amélie. Fora um longo caminho percorrido desde sua cidade natal, a pequena Água Doce do Norte, no Espírito Santo, passando pelo Rio de Janeiro onde se formou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal, a UFRJ, na Praia Vermelha. Após alguns meses conseguiu realizar o velho sonho de continuar sua formação profissional em Paris. Foram anos magníficos e nunca solitários. Inicialmente no Hospital Cochin, onde conhecera o marido. E posteriormente no Pitié-Salpêtriere, onde iniciaram os primeiros desencantos, passos para sua separação. Conhecera Armand na Salle de Garde do Hospital Cochin, o pavilhão e refeitório dos residentes e plantonistas. Irreverente até em sua suntuosa decoração, onde afrescos do século passado decoravam as paredes com cenas mitológicas de temas libidinosos e caricaturadamente eróticos. Nesse ambiente quase tudo era permitido. Como para compensar o rigor e a estafante rotina dos plantões. A assistência aos pacientes praticamente sugava a energia de todos os médicos, principalmente a dos residentes. Naquele início de tarde o salão fervilhava, como sempre, e logo após o almoço, como brincadeira marota, a atração principal da semana era o concurso da mais bela bunda masculina do hospital. Os candidatos percorriam o salão e subiam ao palco, onde, de costas, para a arrelienta platéia, baixavam as calças e mostravam ostensivamente suas intimidades. Os aplausos e assobios zoavam. Repentinamente para alegria geral, uma figura magra, mas atlética, desfilou majestosamente pelo salão. Inteiramente nu, subiu ao palco e com trejeitos debochados mostrou arrogantemente a bunda à platéia, agora sem controle. Não deu outra. Armand foi o vencedor. E recebeu a disputada coroa de louros da semana. Quatro meses depois uma gravidez tubária, indesejada e mal sucedida, levou Glória ao centro cirúrgico, onde foi operada pelo residente chefe, Armand. O destino que os uniu tão inusitadamente, levou-os a um casamento apaixonado. Ao menos durante os primeiros anos. Estes se passaram rapidamente. A rotina rígida do aperfeiçoamento em Psiquiatria descortinava todo um universo de difícil abordagem, principalmente dentro da realidade infanto-juvenil de seus jovens pacientes. Uma experiência, que a seguiria pelo resto de seus dias, surgira com Gerard, um pálido adolescente de Anecy. Nascido em uma família de classe média, crescera com duas irmãs e um primo tres anos mais velho, George. Aos oito anos Gérard foi violentado pelo primo, passando a ser este um envolvimento sexual constante, com forte envolvimento emocional, chegando mesmo à dependência total. Era como se os demais componentes da família não mais existissem. E o seu universo fechou-se em torno de seu relacionamento emocional com George. Este, por sua vez, demonstrava um apetite sexual cada vez maior, e um estranho distanciamento da realidade. Na escola isolava-se, repreendido com frequência pelos professores e quase sem nenhum progresso nos estudos. Não se interessava por nada. Nem esportes, nem atividades de lazer próprias da idade. A não ser pelo primo, sempre dócil e submisso. De nada adiantaram os esforços dos orientadores especializados que o colégio lhe oferecia. Vivia incidentalmente em seu próprio e limitado mundo. Arrastando consigo o pequeno Gérard. Este o tinha como sua maior referência afetiva. Os meses passavam e a constelação familiar não se alterava. George cada vez mais enclausurado dentro de si mesmo. E então, sem qualquer aviso, a tragédia. Uma manhã Gérard ao levantar-se, preparando-se para a saída ao colégio, encontrou a porta do banheiro trancada. Hábito pouco comum naquela casa. Após muita espera, chamou o pai,que ainda dormia. Arrombada a porta, o cadáver lívido do primo, os pulsos cortados, tingindo de escarlate a água da banheira descascada. Nos meses que se seguiram, com a queda de seu jovem e iniciante mundo, Gérard desenvolveu uma doença inflamatória crônica intestinal grave, retocolite ulcerativa, que o consumiu até condições extremas. Foi apenas quando Glória iniciou seu tratamento psiquiátrico é que Gerard esboçou uma reação lenta, mas progressiva. Por anos carregou sua doença com fases de recidiva das crises intestinais. Também nunca mais manteve uma adequada definição de sua sexualidade. E foi durante todos esses anos que Glória o acompanhou dedicadamente, procurando entender aquele universo espiritual tão sofrido e terrivelmente solitário. Agindo como médica, por vezes mãe extremosa, confidente, ora cúmplice, pouco a pouco foi invadindo e interpretando os valores contidos de Gérard. Seu conturbado interior, suas necessidades mais íntimas. Procurava persistentemente um caminho que lhe permitisse iluminar aquele sombrio e carente mundo. Competência, devoção e amor foram as estratégias utilizadas por Glória, durante muito tempo. Inicialmente com resultados irrelevantes. Mas à medida que o tempo se arrastava, Gérard aos poucos passou a retribuir, como que reconhecendo todo o carinho que lhe era gratuitamente oferecido. A contínua doação física e espiritual de Glória acabou por colorir e aquecer o universo de Gérard, o que se refletiu de modo muito positivo nos resultados do tratamento clí nico da doença intestinal. A intensidade desse relacionamento com Gerard despertou-a para o reconhecimento das alegrias da maternidade. Ver crescer e desenvolver uma criança cujo perfil ainda incompleto pudesse ser alimentado pelo amor e pela convivência de cada dia. Um sentimento muito sutil de ansiedade e carência crescia dentro de Glória. O instinto da maternidade florescia e reclamava o objeto de seu desejo. Infelizmente era um sentimento não compartilhado. Solitärio. Filhos não estavam nos planos do marido. Sem outra opção, querendo preservar sua individualidade, mas também o casamento, acabou optando pela adoção. O dia em que fora a Marselha e conhecera Amelie, pequena órfã, recém-nascida, não descansou enquanto não a trouxe consigo, inaugurando uma nova etapa de sua atribulada vida. Foi um primeiro ano inesquecível. Cheio de pequenas conquistas, que só uma mãe extremosa pode avaliar. Paralelamente ao seu desenvolvimento profissional, conseguia se dedicar intensamente àquela jovem vida. E tudo parecia correr dentro da mais completa felicidade. Entretanto, tem-se a felicidade que se pode ter, não a que se quer ter. Aos poucos foi reconhecendo pequenas limitações que se avolumaram, acabando por definir na pequena Amélie uma doença cerebral degenerativa, de evolução lenta, mas inexorável. E assim iniciou-se um calvário de dedicação e amor, onde este era o maior recurso terapêutico. E Glória mergulhou de corpo e alma no empenho de propiciar uma vida normal para Amelie. Houve uma época que ela chegou a se licenciar do Hospital Universitário para montar uma clínica exclusiva para a filha, aplicando processos pedagógicos específicos para preservar e desenvolver as condições sensitivas e intelectuais da filha. E durante alguns anos foi bem sucedida. Mas ao preço de perder seu casamento. O marido não fora suficientemente forte e companheiro. No início uma tentativa de dividir responsabilidades e compromissos. Depois, deixou-a sozinha na tarefa de cuidar de Amelie. Radicalmente só. Mesmo assim, Glória cumpriu sua meta. Construiu uma vida quase feliz. Enquanto foi possível. A maturidade chegou para Glória após anos de dedicação a uma causa sem futuro. Embora com absoluta consciência do que lhes reservariam os dias, semanas e anos que se seguiriam, manteve com persistência um estado de ânimo vigoroso, propiciando a que Amelie sempre usufruisse de uma vida normal, com proteção e amor, mas sempre dentro de regras e limites atribuíveis a qualquer criança ou adolescente de sua idade. Quando as limitações se acentuaram, e os dia piores chegaram, a misericórdia divina se fez presente. Quem recebia atenção, conforto e estímulos de esperança era Glória. Amelie passou de objeto de atenção e amor, para fonte de carinho, companheirismo e inspiração para a luta de todos os dias. Depois a solidão. Absoluta. Agora, ao cair da tarde, no apartamento da Rue Moufettard, o vinho descendo encorpado, embalada por todas essas lembranças, Glória refletia que era chegada a hora de voltar para casa. Iniciar uma nova etapa de sua vida. Construir um novo caminho. Havia muito por fazer. Também a resgatar. E agora Rodolfo estava a esperá-la no Brasil. 1968 - A festa de final de ano O presidente Costa e Silva, pertencia à elite intelectual do exército, e através da ditadura militar, instituída quatro anos atrás, e sem perspectivas de retorno à democracia, dirigia um Brasil socialmente enfraquecido e amedrontado. Mas não inteiramente adormecido. Seu governo enfrentava atabalhoadamente duas tendências: uma fechando cada vez mais as portas da democracia. Outra pregando os caminhos da liberação. Nesta fase os jovens despontavam como contraponto do regime militar e reinvidicavam reformas políticas e a emancipação social. Era o despertar do poder jovem. A geração de 1968 foi uma geração de forte embasamento literário, cuja formação intelectual se fundamentou muito mais na leitura que na simples observação dos fatos. Os jovens tinham um poder de avaliação da realidade nacional, através de sua visão política própria e de uma capacidade de argumentação forjada individualmente. Dotados do perigoso dom da eloqüência, iniciaram uma revolução verbal. Que, de repente, descobriu no palavrão e na liberação sexual as formas mais completas de protesto. E com um sabor de inimaginável liberdade. O cinema e a música popular tornavam-se mais que formas de expressão. Ambos na época, norteando os rumos da liberação – o rock e o cinema novo – constituiram-se em eficientes experiências lingüísticas e de atuação política. A maioria dos jovens universitários fundamentavam seu raciocínio nas obras dos pensadores políticos de esquerda. E assim surgiram a esquerda reformista e a esquerda revolucionária. Mais tarde atenuadas pela cultura tropical e pela inocente irresponsabilidade do país, compondo a esquerda festiva. A mulher também procurava um novo caminho, revolucionando o universo feminino, expondo sua sensibilidade para experiências de vida mais fortes, mais ligadas à realidade. O uso cada vez mais frequente da pílula anticoncepcional abria os caminhos para a liberação do corpo e das emoções secularmente contidas. Nesse clima iniciou-se o ano de 1968, perigosamente inovador. E com uma festa monumental, assunto de muitos meses subseqüentes, que chegou a interferir ativamente nos rumos da intelectualidade carioca. Uma festa que marcou época, da qual muito se falou. Despertando a imaginação dos que nela não compareceram. Um grupo de intelectuais, artistas e políticos de ponta promoveram uma suntuosa e liberal festa de final de ano na mansão do casal Heloisa-Luiz Buarque de Holanda, no alto do Jardim Botânico. Mitos e fantasias envolveram durante por muito anos essa festa. Talvez muito mais fantasia que realidade. Regada por legítimo uísque escocês, e animada por efervescente troca troca de idéias e de casais, tornou estonteante a primeira festa do ano, inesquecível para as quase mil pessoas que lá compareceram. Glória foi uma delas. Acompanhada por sua prima Lívia e pelos quatro inseparáveis amigos – Tiago, Leo, Sérgio e Rodolfo. Excitados pela presença de celebridades que compunham seu universo juvenil, na música, nas artes e nas colunas sociais, deixaram-se levar pela atmosfera inebriante de álcool e sexo liberado. E deixaram os hormônios fervilhantes da juventude reger alucinadamente os prazeres do corpo e da paixão. Sem nexo, sem dono, sem identidade. O banho de mar às oito da manhã batizou a ressaca física e moral dos jovens amigos. Nunca mais na história do Rio de Janeiro houve festa igual. Nunca mais os jovens amigos participaram de uma experiência semelhante. Também nunca mais voltaram a ser os mesmos. Seu relacionamento mudaria radicalmente. Antevendo asssim os diferentes rumos que suas vidas tomariam. Era o fim da entusiasmada fase de displicente convívio universitário. E nunca mais voltaram a passar um final de ano juntos.

LEDERMAN - AMIGO INESQUECÍVEL!

Conheci Rubem Lederman nos primeiros anos da década de 70. Era eu recém- formado, fazendo um curso de especialização no Serviço de Reumatologia do Hospital Escola São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro, serviço do professor Israel Bonomo. Rubem Lederman trabalhava então em um dos principais serviços de Reumatologia do Rio de Janeiro, o do Hospital dos Servidores do Estado, chefiado pelo professor Luiz Verztman. Ambos os serviços disputavam na época a primazia de se constituírem no melhor núcleo de formação de reumatologistas do Brasil. Inicio este depoimento assim, porque entre ambos os serviços havia uma bizarra e arraigada beligerância política. E mesmo assim, Rubem Lederman, então presidente da Sociedade de Reumatologia do Rio de Janeiro, em 1974, acolheu-me generosa e carinhosamente, apesar não ser eu carioca, e estar sendo treinado na época pelo serviço religiosamente rival. A partir daí iniciou-se uma amizade que perdurou por quase 40 anos. De todo esse período trago as melhores e mais benfazejas lembranças do meu amigo Rubem. Pernambucano de origem, nascido no dia dos namorados, talvez até por isso tenha desenvolvido uma personalidade afável e sempre com muito humor. Graduou-se em Medicina em Pernambuco e fez sua residência em Reumatologia no próprio Hospital dos Servidores do Estado. Progressivamente participou com dedicação na estruturação do serviço, auxiliando a formar uma plêiade de especialistas em Reumatologia, sempre procurando somar competência, desenvolvimento cultural e o humanismo que todo médico deve trazer em sua essência. Assumiu durante toda a sua atuação no hospital um verdadeiro espírito universitário, transmitindo a cada um de seus residentes o que possuía de melhor: um acurado espírito de análise clínica, associado a um sedutor e convincente método de abordagem de cada paciente, tornando-se quase de imediato o médico acolhedor e atencioso, o que lhe valeu alentado sucesso como médico, sempre admirado por todos os seus pacientes. Naturalmente evoluiu na escalada societária e quase naturalmente, por todos os méritos chegou à presidência da Sociedade Brasileira de Reumatologia de 1982 a 1984, notabilizando-se por sua dedicação aos projetos de desenvolvimento das sociedades regionais, através da execução sistematizada de encontros e jornadas que tiveram o mérito de desenvolver a especialidade, levando-a a um estado maior de reconhecimento no meio médico, fazendo com que a Reumatologia se destacasse como sociedade dinâmica e progressista. Não parou aí. Projetou-se na esfera internacional, tornando-se por sua sociabilidade o reumatologista brasileiro mais reconhecido, primeiro na América Latina, e posteriormente ganhando a simpatia e amizade dos principais reumatologistas europeus. Ao assumir a presidência do Comitê Íberoamericano de Reumatologia, transformou- o, enquanto sob sua responsabilidade, no período de 1990 a 1998, em importante órgão intercontinental de divulgação da Reumatologia nos dois continentes. Seus esforços e seu comportamento sempre amistoso conseguiram aproxima em muito a reumatologia de Portugal da brasileira. Graças a esse seu poder de persuasão e magnetismo pessoal, também em muito auxiliou o Brasil a realizar o XVII Congresso da Liga Internacional de Reumatologia a ILAR, no Rio de Janeiro, em 1989, até então o maior evento de Reumatologia realizado na América Latina. Sem dúvida uma tarefa hercúlea, realizada em harmoniosa integração com Hilton Seda e Wiliam Chahade. Posteriormente foi eleito Presidente da Academia Brasileira de Reumatologia na qual durante o biênio 1982 a 1984 assumiu denodadamente a tarefa de renovar a Academia, tornando-a sede de um pensamento reumatológico ecumênico e progressista. Dotado de clarividente espírito inovador, percebeu que havia um território cultural muito importante e praticamente inexplorado, o universo das doenças osteometabólicas, principalmente a osteoporose. A partir de então lançou-se de corpo e alma a integrar o Brasil nos principais movimentos internacionais de divulgação da osteoporose, que iniciava a constituir-se nos países emancipados um grande problema de saúde pública. Dedicou-se a pontuar o Brasil na International Osteoporosis Foundation, e esses esforços resultaram na fundação da Sociedade Brasileira de Osteoporose, a SOBRAO,pioneira na tarefa de democratizar e integrar essa enfermidade em todas as outras especialidades médicas, tornando-a efetivamente multidisciplinar. Mais uma vez repartiu com o grande amigo Hilton Seda a tarefa de presidir as duas primeiras gestões(1999). Sua ligação com a empresa farmacêutica credenciou-o a assumir também o papel de assessor e conselheiro competente e sempre sincero de inúmeros programas de validação de agentes terapêuticos ou seu lançamento no mercado brasileiro. Em 2007, mais uma realização de vulto a fundação da FENAPCO, Federação Nacional das Associações de Pacientes Com Osteoporose, com o objetivo de melhor assistir ao paciente osteoporótico, criando melhores condições principalmente para a prevenção da enfermidade. No recesso da família Lederman, marido e pai amantíssimo, sempre teve na companheira Paulina o maior de seus apoios, e sempre seu grilo falante, sempre atenta e amorosa, balizando as tiradas sempre espirituosas do marido. Suas filhas e netos eram ultimamente seu assunto preferido, demonstrando todo o carinho que emanava de seu grande coração. Lederman era um excelente e espirituoso contador de histórias. Nunca conheci outro melhor. Era continuamente solicitado a contá-las, e a cada vez que as repetia sempre introduzia novos detalhes bizarros que as tornavam irresistivelmente engraçadas. Lederman nos deixou muito cedo. Discreto como sempre foi com tudo que lhe era essencialmente pessoal. A Reumatologia Brasileira já não será mais a mesma. Perdeu parte de seu humor, muito de sua história. Eu, perdi um amigo. Generoso, sempre se preocupou com meu desenvolvimento profissional, e mais ainda com a intimidade de minha vida familiar, aconselhando- me carinhosamente sempre a seu modo peculiar. Foi-se o homem. Ficou sua sombra e a memória. Ficaram seus ideais. Que deverão servir para o desbravamento de novos caminhos. Exemplos que certamente deverão também alimentar as novas gerações de reumatologistas. João Francisco Marques Neto

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A CORUJA DE MINERVA ABRE AS ASAS AO ANOITECER

A CORUJA DE MINERVA ABRE AS ASAS AO ANOITECER
(Considerações do autor sobre o estado atual da formação médica no Brasil)



Após quase quarenta anos de exercício da Medicina, em um projeto de vida acadêmica, assistindo a pacientes de todos os níveis, chego a uma fase da vida que me permite viver meu momento atual, como professor titular de uma das mais prestigiadas universidades do país, a UNICAMP, e opinar sobre os anos de ensino pelos quais passei, e também sobre o futuro sombrio que envolve a nobre arte hipocrática.

Entendo perfeitamente que os tempos mudam, e com ele os hábitos, as tendências e os costumes. Mas há algo que nunca muda – as necessidades, a ansiedade e as angústias do ser humano. E acabam sendo elas que norteiam os rumos que cada um de nós toma, em sua escalada para o destino final. O destino de cada homem, que se designa através de suas diferentes crenças.

E todas elas encerram o eterno maniqueísmo, configurando a alternância do bem e do mal, a ser considerada em cada decisão que somos obrigados a tomar. E é assim que as transformações progressiva e lentamente vão acontecendo, promovendo modificações, inicialmente imperceptíveis e desprovidas de importância. Mas pouco a pouco se estabelecendo como novas regras de compreensão e conduta. .

O comportamento do homem muda a partir da adoção dessas novas regras. Mas as necessidades e as angústias de seus semelhantes continuam as mesmas. O amor, a amizade, o direito à saúde do corpo e do espírito são aspirações inalienáveis a qualquer condição social.

As novas regras, entretanto cada vez mais privilegiam a tecnocracia, e.esta invariavelmente promove critérios consistentemente objetivos, que procuram quantificar os fatos, despindo-os radicalmente da impressão e da experiência individual, para promover a valorização das evidências formais. Evidências construídas a partir de repetições sistematizadas,

Em muitas das quais as populações de pacientes estudadas são cada vez mais rigorosamente depuradas através de critérios de inclusão extremamente rígidos. Estes critérios tornam as amostras populacionais nos diferentes estudos e ensaios clínicos, utilizados para a normatização de condutas médicas, depuradas e isentas de co-morbidades, e, portanto radicalmente diversas dos pacientes que procuram os consultórios médicos na vida real, geralmente apresentando co-morbidades, além de variantes comportamentais.

A tecnologia cada vez mais apurada e a excessiva valorização das evidências médicas formais, se por um lado promovem o desenvolvimento do conhecimento médico, por outro pode comprometer a aplicação deste na atenção primária ao paciente, geralmente um sofredor crônico.
Na evolução deste pensamento, há que se considerar como argumentos ou fatores causais: a barreira socioeconômica que afasta o paciente da melhor aplicação do conhecimento médico de ponta e também as dificuldades atualmente enfrentadas pelo relacionamento médico-paciente.

O cenário socioeconômico no Brasil revela que a minoria da população brasileira, menos do que 3 % tem acesso à medicina privada, e, consequentemente aos médicos mais experientes e melhor preparados. Há exceções, contudo a realidade brasileira é essa. Cerca de 27% da população tem sua assistência médica vinculada a convênios, seguros de saúde ou ainda os serviços universitários. E a imensa maioria da população tem como única opção de assistência médica, o serviço público, fundamentado no sistema unificado de saúde – o SUS.

Esse sistema, dependendo do estado da federação e do repasse de verbas municipais, até funciona com morosidade e desalento. Tome-se, por exemplo, o paciente que necessita ser submetido a uma prótese total de quadril e verifique-se quantos anos de espera em uma fila interminável deve ele aguardar. E mesmo assim receberá uma prótese de segunda linha, inferior às utilizadas até no próprio hospital onde próteses de qualidade superior são colocadas em pacientes particulares.

Em algumas condições como a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) o lobby da enfermidade é tamanho que neste caso a atuação governamental é alentadora. Mas um pais, onde a própria e fundamentalmente básica merenda escolar falta, por motivos escusos de desperdício, má administração e até desvios de recursos, tem ainda um longo caminho a trilhar. De saneamento básico e moral. Desde o golpe de 1964 os políticos atuantes se não são os mesmos, inacreditavelmente continuam a ditar as manobras políticas, que ao invés de melhorar as condições de governabilidade do pais, buscam apenas o poder, instituindo a corrupção como patrimônio nacional. É a República dos Direitos Roubados. O governo do povo, sem o povo e contra o povo.

Quando é que os medicamentos de primeira linha poderão ser utilizados pela imensa maioria da população brasileira? Enquanto nossos políticos vão se tratar, procurando recursos e cirurgias em hospitais de destaque e referência no exterior, os hospitais brasileiros estão sucateados e falidos. Quais as providências tomadas para sanear esta deprimente condição da saúde brasileira? E enquanto isso, dólares voam em cuecas nos aeroportos, e o judiciário considera legal o pagamento de horas extras a parlamentares em férias.

Resta ao paciente o conforto dos preceitos de Hipócrates , pelos quais a Medicina deveria atuar como Filha da Caridade e Mãe da Misericórdia. Palavras hoje fora de moda. A tecnocracia do conhecimento médico vem construindo uma arte médica fria e distante das angustias de cada paciente. Na ansiedade de obter resultados mais objetivos e eficientes o médico se afasta do que o paciente mais necessita além da eficácia – atenção, paciência e solidariedade.

A necessidade estressante da vida diária torna o jovem médico um operário da saúde, que ganha por produtividade, tendo que nos atender diferentes convênios, um paciente em cada quinze minutos. Como é possível em tão exíguo período de tempo conhecer o doente e reconhecer a doença que o aflige? Quando muito prescrever superficialmente. Que relacionamento médico-paciente pode ser assim estabelecido ?

E quando o paciente reconhecidamente padece de enfermidades como a fibromialgia, onde os sintomas não se relacionam a evidências orgânicas, mas sim a distúrbio do sono, angústia persistente ou humor depressivo, geralmente o médico recém-formado, ou até mesmo um outro mais experiente, simplesmente se recusa a ir mais a fundo na investigação médica, repassando o paciente para outro tipo de atendimento. Geralmente também inconclusiva e ineficiente.

O paciente idoso, que na terceira idade, pelas próprias perdas físicas, sociais e emocionais, torna-se mais sensível e carente, já na própria família sofre a discriminação afetiva e social. Pelas próprias condições da vida atual em nossa sociedade os mais novos não mais encontram tempo para os mais velhos. Exatamente na fase da vida em que se tornam mais sensíveis. E também mais sábios. Para viver melhor relevam a solidão e o desinteresse dos familiares.

E não raro procuram o médico. E em 30% dos pacientes com queixas crônicas, o melhor diagnóstico acaba sendo angústia, solidão e desamor. E também na grande maioria das vezes o médico, que ganha por produtividade se desinteressa por esse tipo de paciente, que novamente é deixado sem assistência adequada.


A contrapartida vem aceleradamente. O médico cada vez mais perde o seu prestígio, deixando de ser a referência maior do paciente. Este cada vez mais nem mesmo se lembra do nome do médico que o atendeu na consulta anterior. Exatamente porque falhou a relação médico-paciente. O médico nem chegou a impressionar o paciente. Não lhe tocou o corpo, e muito menos a alma!

Outra conseqüência flagrante e imediata é a progressiva escalada da medicina alternativa, chamada atualmente de medicina complementar. Nunca antes os procedimentos alternativos, tidos como medicinais, ganharam tanto espaço. E em todas as categorias sociais, embora sejam ainda os descamisados os que mais se valham deles. Exatamente pela falta de um acesso mais democrático às medicações. Mas também motivados pela freqüente falta de atenção do médico, não tão bem preparado.

E ainda assim as autoridades competentes ainda continuam abrindo novas escolas de medicina neste país. No Brasil que apresenta o maior número de escolas médicas em atividade, entretanto sem competência ou condições adequadas para o exercício do ensino médico. Cada vez mais faltam professores com capacitação profissional. Os antigos se aposentam e as condições para que os mais novos façam seus cursos de pós-graduação se afunilam progressivamente.

O que está sendo ensinado para os alunos de nossas escolas médicas? Informação ou formação médica? Não há professores em número suficiente para formar profissionais competentes e bem formados. Para os cursos de graduação estão sendo recrutados nas escolas mais recentes médicos sem formação humanística e universitária, que passam a exercer o cargo de monitores ou professores sem titulação adequada. Ensinar é uma arte. Que exige o conhecimento aprofundado, prática assistencial e de ensino. E acima de tudo bom senso para semear o essencial para o aprendizado médico humanístico.

O mesmo se estende à prática médica no campo da especialização. Apenas 35% dos graduados em Medicina conseguem uma vaga nos diferentes cursos de residência, submetendo-se para tanto a um concurso tão rigoroso como o próprio vestibular. Fato que produz um efeito dominó irônico e preocupante. Os excedentes que não conseguiram uma vaga na residência médica, passam a atender diretamente nos postos de saúde municipal e em diferentes serviços de pronto-atendimento. Tentando cuidar dos menos favorecidos, ou até mesmo de parentes nossos, e ocupando exatamente posições que deveriam ser exercidas por profissionais mais experientes.

Hegel, o filósofo, afirmando que a sabedoria da deusa romana Minerva, Palas Atenas para os gregos,se disseminava pelo vôo de sua coruja mensageira, que voava apenas ao anoitecer noite, certamente se referia à liberdade de pensamento daqueles que simplesmente passam a enunciar seus conceitos e opiniões com a certeza da maturidade.

Talvez há alguns anos atrás não tivesse a clareza e o desejo de passar à frente essas certezas.
Hoje, após todos esses anos, procuro sentar-me perante meu paciente, e antes de procurar a doença que o aflige, tento conhecer um pouco de sua vida e de suas ansiedades. O diagnóstico virá mais cedo ou mais tarde. A resolução, entretanto, dependerá de muito mais do que a simples informação médica. Isto continuo ensinando aos alunos que por mim passam. E também a cada paciente. -

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FIBROMIALGIA: VISÃO KARDECISTA

FIBROMIALGIA: VISÃO KARDECISTA
João Francisco Marques Neto
Professor Titular de Reumatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Coordenador do projeto EDUCOST ( Programa Nacional de Educação Continuada em Doenças Osteoarticulares e Osteometabólicas.

O síndrome da Fibromialgia caracteriza-se por dor muscular e tendinosa difusa crônica, indiferenciada, podendo variar desde uma simples sensação dolorosa até níveis insuportáveis, seja ao movimento, seja ainda em repouso. A dor sem ritmo, periodicidade, natureza ou forma de acometimento osteoarticular definidos, pode se manifestar por horas, até dias, meses ou permanentemente, em áreas diversas ou em pontos dolorosos de localização anatômica específica.
É enfermidade crônica que acomete homens e mulheres, de diversas idades, sem manifestações inflamatórias, não comprometendo as articulações e não causando deformidades. Manifestações não relacionadas à dor muscular são observadas na fibromialgia em mais de 50% dos casos. São as comorbidades como: síndrome de fadiga crônica, síndrome do intestino irritável, enxaqueca, síndrome das pernas inquietas, fenômeno de Raynaud, depressão, ansiedade, síndrome da apneia do sono e bexiga irritável, por exemplo.
A fibromialgia manifesta-se em qualquer idade, mas, sobretudo, entre os 40 e os 60 anos, talvez em decorrência da diminuição dos hormônios femininos na menopausa. Calcula-se que atinja 3% das mulheres e 0,5% dos homens adultos. Mas em torno de 25% dos casos referem apresentar esses sintomas desde a infância. Não há nenhuma evidência concreta de que possa ser transmitida nem se verifica maior prevalência em familiares.
O diagnóstico clínico se configura em presença de dor crônica difusa predominantemente muscular que pode ir de um leve incômodo até uma condição incapacitante, na forma de ardência, sensação de inchaço, pontada, rigidez e câimbra, por pelo menos três meses, identificada ao exame físico em pelo menos 11 pontos de 18 padronizados, principalmente em áreas de extensão.
Até o momento não existem exames complementares, sejam de laboratório, sejam de imagens, ou ainda neurofisiológicos, que confirmem o diagnóstico.
As causas e os mecanismo que provocam a fibromialgia não estão ainda suficientemente esclarecidos. Associa-se à fadiga crônica, distúrbios do sono, estados de humor depressivo, situações de sedentarismo ou inadequação social, familiar, profissional e queda na autoestima.
Destes conceitos o que mais tem contribuído para o tratamento da fibromialgia é o da necessidade de atividade física adequada. Esta, feita em ritmo moderado e com longa duração, eleva a capacidade respiratória (aeróbica), aumenta o tônus e a fôrça muscular. O exercício de baixo impacto reequilibra o sono, eleva a serotonina, produz endorfinas e somatostatina que melhoram o trofismo muscular, além de intervir positivamente na sensação de bem estar e ausência de dor.
Os pacientes fibromiálgicos parecem perder a capacidade de regular a sensibilidade dolorosa. A serotonina que modula a sensação de dor pode estar diminuída nesses pacientes.
Muitos dos impulsos que chegam e saem do cérebro podem ser erroneamente identificados como dor. E assim participar do cenário clínico da fibromialgia. Isto pode levar à especulação de que a dor da fibromialgia pode ser promovida ou estimulada por um mecanismos complexos, ainda não totalmernte esclarecidos, e por isso mesmo eventualmente sujeito a especulações sem evidências comprovadas.
A natureza ainda enigmática e ainda desprovida de evidências formais da progressão da fibromialgia pode permitir especulações que vão muito além dos conhecimentos cartesianos da medicina formal.
Isto tem permitido a discussão da conceitual fibromialgia dentro de uma visão espiritualista, na doutrina kardecista.
Nessa linha de abordagem podem se destacar :
- fibromialgia como um estado de depressão mascarada
- fibromialgia como condição patológica de uma consciência espiritual e rígida
- fibromialgia como dores da alma
- fibromialgia como dor decorrente de comprometimento espiritual nesta ou em vidas passadas
- fibromialgia como condição mórbida medianímica

Na tentativa de alinhavar todos esses aspectos, e dentro de uma visão kardecista, propõe-se as assertivas de Allan Kardec, no livro do Gênese, nas quais o espirito está para o corpo como as raízes para as plantas no solo. No ato da reencarnação o espírito se liga ao organismo físico do homem, com ele estabelecendo uma simbiose de absoluta integração. E assim compondo uma unidade funcional com relações biunívocas.
Esta concepção kardecista onde corpo humano e o espírito são entidades que se comunicam e interagem, compondo fases mutuamente atuantes, pode especulativamente justificar a ocorrência de dor de causa orgânica indeterminada.
Portanto a dor manifesta no organismo físico pode tanto ser causada por mecanismos orgânicos, físicos até perfeitamente descritos e corroborados por evidências formais do conhecimento médico, como também ser causada por mecanismos espirituais, subjetivos, ainda não formalmente justificados e reconhecidos consensualmente pela medicina formal.
Deste modo as dores da alma também podem ser interpretadas na intimidade kardecista como decorrentes de comprometimento espiritual em relação a culpas ou delitos cometidos em vidas passadas, dentro de uma compreensão de sintomas associados à expiação dessas culpas e delitos. A alma se pune através da dor.
A rigidez da alma, a não aceitação da possibilidade de erros, ou simplesmente o medo de errar novamente pode resultar em um mecanismo punitivo, determinando comprometimento orgânico e resultando em dor crônica.
E como fatos corroboradores desta teoria, destaquem-se as inúmeras situações onde as enfermidades começam a abranger além dos mecanismos físicos orgânicos cenários emocionais ou espirituais. Síndromes diversas começam a sofrer em sua evolução clínica a influência das condições espirituais. Ou estas funcionarem como agentes gatilho em algumas enfermidades crônicas, a exemplo do que frequentemente ocorre na deflagração ou fases de agravamento da artrite reumatóide, principalmente nas formas infanto juvenis.
Também na conceituação de alma e espírito ocorre uma identidade individual específica para cada ser humano, que não pode ser repetida, dado que cada indivíduo é um conjunto de condições orgânicas, funcionais e afetivas. A morte temporariamente interrompe o ciclo comportamental dessa unidade, contudo sem a extinguir, pois na natureza nada se perde, tudo se transforma. O que a própria física aceita como paradigma proposto por Lavoisier.
Esta renovação contínua, através de transformações progressivas, é que propicia à sobrevivência do espírito em suas sucessivas reencarnações.
E nessa continuidade, apesar da extinção do corpo físico específico para cada reencarnação, pretende-se que as transformações renovadoras desse corpo físico em sucessivos planos existenciais possam ser acompanhadas de diferentes tipos de comprometimento espiritual assumidos em vidas passadas.
O que permite a identificação individual nas passagens por esses diferentes planos, é o reconhecimento de que algo deve permanecer imutável, de tal modo a preservar uma a consciência coletiva, esssencial para a determinação de uma ordem do universo e a aplicação de suas leis
Esses compromissos mantidos sempre inconscientemente podem marcar o componente espiritual do indivíduo, e assim de modo ainda não inteiramente reconhecido pela ciência médica comprometer a sensibilidade para diferentes fenômenos neuropsiquiátricos.
Na esteira dessa argumentação tem sido propostos diferentes procedimentos terapêuticos fundamentados em técnicas de regressão para vidas passadas, também não consensuais, contudo de aplicação universal.
Esse procedimento investigativo do inconsciente através de sessões de psicoterapia e de experiências regressivas apontam como de fundo emocional síndromes neuropsiquiátricas, em cujo cenário passado e presente se conjugam em um contexto multidimensional.
E nesta interpretação, queixas atuais como dor crônica, ansiedade, ardência plantar, parestesias sem causa determinada podem até estar relacionadas à experiências pregressas impregnadas de sofrimento e dor. Traumas psíquicos que se ampliam ou se repetem através de diferentes vidas.

Em 1861, Allan Kardec, no Livro dos Médiuns passou a ensinar como as manifestações espirituais através da mediunidade aproximavam o mundo material do imaterial, invisível e até então inacessível.
A partir daí a sensibilidade mediúnica, em verdade capacidade de recepção consciente ou inconsciente da energia espiritual latente, permitiu o reconhecimento da possibilidade do contacto do médium com entidades espirituais que trafegam através de diferentes encarnações.
Diferentes padrões de entidades se definem dentro da universalidade que compõe o espírito humano.
Assim esta mediunidade pode estar afeita a entidades obsessoras enfermiças, mas também com os mentores espirituais, dedicados à cura do espirito e da matéria.
No início dessa compreensão passou-se a entender, até erroneamente, que a loucura, na realidade a mudança de um padrão comportamental tido como normal em uma determinada cultura, poderia estar ligada ao assédio de entidades obsediadoras.
Estas geralmente procuram obsediados inconscientes que apresentam características morais e espirituais que se afinam com as dos obsidiadores.
Essa mesma relação mediúnica pode ser estendida a outras condições como síndrome do pânico, ansiedade crônica, estados depressivos e até a fibromialgia. Todas podem estar classificadas na visão kardecista como condições medianímicas, síndromes ectoplasmáticas, cujo substrato sofre a atuação de entidades que exercem influências negativas, quando não obsessoras.
O estudo da mediunidade, portanto, além da ampliação dos conhecimentos sobre essas condições mórbidas, pode se prestar também aos esforços destinados ao autoconhecimento, da autoaceitação e em decorrência da transformação moral.

Outra possibilidade de avaliação da dor crônica de origem indeterminada, abre-se dentro da doutrina kardecista sob forma de acomodação espiritual. Quando o espírito escolhe a dor crônica como instrumento de expiação ou até autopunição de faltas cometidas em vidas pregressas pode acontecer um estado de adinamia ou acomodação espiritual.
Neste, pode acontecer que o espírito, dentro de uma rigidez de personalidade, às raias do perfeccionismo, não queira se expor a erros semelhantes aos anteriormente perpetrados em outras existências ou até na atual. E aí a preferência em manter-se em uma condição estática, onde a presença de uma dor de origem indeterminada, refratária aos tratamentos médicos convencionais, pode constituir-se em uma alternativa cômoda e segura.
Impõe-se então nestes casos um esforço holístico para as tentativas de tratamento, através as quais se pretenda promover modificações de atitude nos pacientes, que possam de algum modo tentar reverter, através de sentidos inversos a atuação do componente orgânico sobre o estado de acomodação espiritual.
Em todas as religiões entende-se que a dor e o sofrimento promovem a escalada espiritual do homem e do espírito. A dor que consome a vida e sufoca a alma pode induzir a reações que conduzem o indivíduo a procurar níveis superiores, rumo à consciência coletiva.
Mas é a natureza de cada indivíduo que condiciona a sua reação à dor. Quem não possui nenhuma crença deixa-se tragar pelo turbilhão do destino que não consegue antever. Dependendo de sua essência interior pode dedicar-se ao crime ou às paixões que apenas conduzem ao retrocesso; ou contrariamente seguir rumo à luz, mediante a prática do amor ao próximo. Este amor conduz é afeito à criação divina, à consciência coletiva superior, promotora da ordem universal.
A partir desta dualidade comportamental considera-se o livre arbítrio de cada um, conduzindo à escolhas contrapostas, e, portanto destinadas a construir padrões de justiça. Que presumivelmente passam a se constituir em pilares do destino individual. A dor ensina, deixa suas marcas geralmente alinhadas com as escolhas de cada um.
Portanto é preciso considerar que todos estamos ou estaremos vulneráveis à dor espiritual, ou às dores da alma, que quase sempre refletem o merecimento individual, atrelado ao passado, e independentemente de nossas condições humanas, físicas, intelectuais ou sociais.
Na fibromialgia a evolução de uma dor refratária aos tratamentos convencionais faz supor que esteja relacionada à diversidade comportamental e à maior ou menor sensibilidade do espírito que anima o corpo físico, embora seja neste que a dor se manifeste.
Esta dor se insinua insidiosamente, adaptando-se dentro de nós a cada uma de nossas condições espirituais, como um estado inferior sobre o qual essas condições passam a atuar. Sensibilizando-a ou quantificando-a.
Isto explica porque no paciente fibromiálgico os fatores físicos acabam não se constituindo nos agentes mais impactantes, mas sim as condições afetivas e espirituais, tão relacionadas às leis do merecimento individual.

Leituras recomendadas
1. ALLAN KARDEC: O Livro dos Espiritos
2. ALLAN KARDEC: O Livro dos Mediuns
3. BERNIE S SIEGEL: Amor, medicina e milagres. Reio de Janeiro. Best Seller. 1989.
4. BRUCE H LIPTON: A biologia da crença. São Paulo. Butter Editora. 2007fly
5. CANDACE P PERT: Conexão mente-corpo-espírito. São Paulo. ProLibera Editora.2009.
6. DARIAN LEADER & DAVID CORFIELD: Por que as pessoas adoecem? Como a mente interfere no bem estar físico. Rio de Janeiro, Best Seller. 2010
7. DEEPAK CHOPRA: Ageless body, timeless mind. New York. Harmony books. 1993.
8. FLAVIO BASTOS – Fibromialgia, a dor emocional. flaviolgb@terra.com.br
9. JOSE HENRIQUE RUBIN DE CARVALHO: Conferência no Congresso Nacional da Associação Medico-Espírita do Brasil, Porto Alegre, 2009
10. JULIO DE MELOOO FILHO: Psicossomátioca hoje. Porto Alegre. Artes Médicas.1992.
11. MARIO BEAUREGARD & DENISE O´LEARY: O cérebro espiritual. Rio de Janeiro, Best Seller. 2010
12. http://www.forumespirita.net/fe/artigos-espiritas/sindrome-do-panico-na-visao-espirita/#ixzz1hGvdHZkE
13. PIERRE RAINVILLE ET AL: Pain affect encoded in human anterior cingulate but not somatosensory córtex. Am J Psychiatry. 2000; 157:1279-84
14. PIETRO UBALDI: A Grande Sintese. 38.edição. Campo dos Goytacazes. Instituto Pietro Ubaldi.2010
15. RANDOLPH C BYRD: Positive therapeutic effects of intercessory prayer in a coronary unit. Sout.Med.J. 1989 8(17):826-9
16. ROBERTO CREMA: Introdução à visão holistica. São Paulo.Summus. 1989.