Atenuando a adversidade
Pelos caminhos da vida espreita em cada curva a adversidade. Esta nos toma de surpresa, e quase sempre sucumbimos, fragilizados pelo nosso próprio despreparo espiritual.
Inocentemente trilhamos nosso caminho, esperando encontrar nada além de flores e o reconhecimento natural de todos os nossos esforços
Todos nos esquecemos de que há um passado a resgatar. Ou nesta ou em anteriores existências. E as sementes que plantamos voluntária ou ou até inconscientemente frutificarão. E esses frutos sempre serão um dia colhidos. Ainda que ignoremos a ordem natural desse ciclo essencial.
Cabe citar agora três princípios, ensinados pela própria vida, e que podem significar muito na aceitação de nosso presente, e na atenuação das dores da alma.
I. Não se ganha sempre.
II. A Vida vale pelos seus intervalos ( a leitura dessas linhas é um intervalo de nossas vidas ).
III. Quando a realidade for insuportável - delire e seja feliz ! A busca pela felicidade é o maior compromisso do homem para com o seu espírito.
Entretanto, a aplicação dessas normas, atenuando a adversidade que pode tomar conta de nossas vidas, para resultar em uma sensação de felicidade necessita de uma quarta iniciativa.
IV. Para atingirmos a felicidade, é essencial que aprendamos a reconhecer, resgatar e a perdoar nossos próprios erros. A culpa é dor que corrói a alma e destrói qualquer esperança.
Luís Vaz de Camões (1524-1580)
O maior representante do Renascimento português, imortalizado no épico Os Lusíadas, entendeu mais que ninguém, porque as sofreu, as dores da alma. E em seus sonetos, cuja base filosófica é o neoplatonismo, traduziu os sentimentos mais arrebatadores que lhe mitigavam a alma. Alternando em sua poesia o amor e a sensualidade, fez da mullher um ente superior, imagem do Bem e da Beleza. Seguem três de seus mais importantes sonetos, todos introduzindo a importância do amor como lenitivo para as dores da alma
*
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É umj cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é mesmo Amor?
***
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.
***
Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me a esperanças,
Que mal me tirará o que não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperanças falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce e não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
***
Letícia Thompson
Escritora poetisa brasileira, natural do Espírito Santo, que nos chama a refletir e reavaliar valores, que conduzem o nosso dia-a-dia.
Se é verdade que a cada dia basta a sua carga,
porque entào teimamos em levar para o dia seguinte nossas mágoas e dores? Ou para a semana seguinte, mês ou ainda anos?
Nos apegamos ao sofrimento e ao ressentimento. Como às coisinhas que guardamos em nossas gavetas. Sabendo-as inúteis, mas sem coragem para jogá-las fora.
Vivemos com o lixo da existência, quando tudo seria mais claro e límpido com o coração renovado.
As marcas e cicatrizes ficam para nos lembrar da vida, do que fomos, do que fizemos, e do que precisamos evitar.
Não há ainda cirurgia plástica para a alma. Que poderia extirpar todas as experiências, deixando-nos novos.
Ainda bem...
Não devemos esquecer do passado, de onde viemos, do que fizemos, dos caminhos que percorremos.
Não há como esquecer as vitórias, quedas e lutas.
Menos ainda das pessoas, dos encontros, que direcionaram nossas vidas, muitas vêzes sem que soubéssemos.
Perdoar a quem nos feriu dói mais na pessoa que o ódio sentido e preservado durante toda uma vida.
O que não podemos é carregar com teimosia o ódio, o rancor, mágoas, sentimento de
derrota e o ressentimento.
As mágoas envelhecidas marcam-nos o rosto, nossos atos e moldam nossa existência.
Precisamos com muita coragem e ousadia abrir a gaveta do coração e
esvaziá-la.
E quando só ficarem as lembranças as alegrias, do bem que nos fizeram, das rosas secas, mas carregadas e amor, mais espaço haverá para novos encontros.
Assim nos tornamos mais atraentes. Mais bonitos. Mais leves e mais fáceis de carregar. Mesmo para aqueles que já nos amam.
Sua vida merece que a cada novo dia você lhe dê mais uma chance para que ela seja plena e feliz.
***
CHICO XAVIER
Nasceste no lar que precisavas, vestiste o corpo físico que merecias.
Moras onde melhor Deus te proporcionou,de acordo com teu adiantamento.
Possuis os recursos financeiros coerentes com as tuas necessidades, nem mais,
nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas.
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para a tua realização.
Teus parentes, amigos são as almas que atraíste, com tua própria afinidade.
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo
que te rodeia a existência.
Teus pensamentos e vontade são a chave de teus atos e atitudes...são as fontes de atração e repulsão na tua jornada vivência
Não reclames nem te faças de vítima. Antes de tudo, analisa e observa.
A mudança está em tuas mãos.
Reprograma tua meta,busca o bem e viverás melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo,
Qualquer Um pode Começar agora e fazer um Novo Fim.
***
CHICO XAVIER
Nasceste no lar que precisavas, vestiste o corpo físico que merecias.
Moras onde melhor Deus te proporcionou,de acordo com teu adiantamento.
Possuis os recursos financeiros coerentes com as tuas necessidades, nem mais,
nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas.
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para a tua realização.
Teus parentes, amigos são as almas que atraíste, com tua própria afinidade.
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo
que te rodeia a existência.
Teus pensamentos e vontade são a chave de teus atos e atitudes...são as fontes de atração e repulsão na tua jornada vivência
Não reclames nem te faças de vítima. Antes de tudo, analisa e observa.
A mudança está em tuas mãos.
Reprograma tua meta,busca o bem e viverás melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo,
Qualquer Um pode Começar agora e fazer um Novo Fim.
***
CHICO XAVIER
Nasceste no lar que precisavas, vestiste o corpo físico que merecias.
Moras onde melhor Deus te proporcionou,de acordo com teu adiantamento.
Possuis os recursos financeiros coerentes com as tuas necessidades, nem mais,
nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas.
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para a tua realização.
Teus parentes, amigos são as almas que atraíste, com tua própria afinidade.
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo
que te rodeia a existência.
Teus pensamentos e vontade são a chave de teus atos e atitudes...são as fontes de atração e repulsão na tua jornada vivência
Não reclames nem te faças de vítima. Antes de tudo, analisa e observa.
A mudança está em tuas mãos.
Reprograma tua meta,busca o bem e viverás melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo,
Qualquer Um pode Começar agora e fazer um Novo Fim.
***
RODGERS & HAMMERSTEIN II
Richard Charles Rodgers ( 1902 – 1979) compositor americano autor de mais de 900 júsicas e inúmeros musicais da Brodway. Em parceria com Oscar Hammerstein II. Criou sucessos inesquecíveis como este tema para o musical “Caroussel”. Premiado com o Emmy, Grammy,Oscar e Tony/EGOT além de um premio Pulitzer.
When you walk through a storm,
hold your hand up the head
and don´t be afraid of the dark.
At the end of the storm is a golden star
And sweet silver songs in the air…
Walk on trhough the storm,
Walk on through the rain,
till your dreams be touched and true.
Walk on, walk on,
With a hope in your heart
And you will never walk alone,
Believe,
You will never walk alone…
***
PAULO SANTANA
PORQUE AS ALMAS SOFREM?
(Zero Hora, 02 de novembro de 2008, p. 51, )
A vida só tem uma lógica garantida se não for única, se constituir meramente em apenas uma etapa, uma passagem, uma estação, a qual sobrevirão outras vidas, outras passagens, outras estações.
Fiquei sabendo pelo livro A Nova Ciência e a Fé, recentemente lançado, de autoria do porto-alegrense Mário Costa de Araújo Lima, que os grandes filósofos gregos Platão e Sócrates, duas das inteligências mais luminosas da humanidade, eram reencarnacionistas.
A reencarnação é a idéia segundo a qual os espíritos em seu processo evolutivo vivem muitas vidas, em diferentes corpos, assumindo, portanto distintas personalidades.
Eu só posso admitir a idéia de um Deus bom, de um Deus justo, de um Deus misericordioso e acima de tudo, de suprema lucidez e sabedoria, se concluir que não há uma vida única, que as pessoas que se tornam mártires, que vivem em extremo sofrimento, ou sobre as quais se abateram as injustiças e os tormentos, terão em outra vida recompensas que restituirão à sua vida um plano de justiça e lógica de proporcionalidade.
Como eu escrevi em outras colunas, isto não vai ficar assim.
Não pode Deus ter criado ao mesmo tempo uma besta e um filósofo, um rico e um miserável, um cruel e um bondoso, um feio e um bonito, um dotado de raras virtudes, outro pleno de todos os defeitos.
Uma só passagem pela vida, pela efemeridade em que ela consiste, pela incompletude das experiências que se desenrolam para um só indivíduo em particular, pela exiguidade do seu campo de desenvolvimento, será insuficiente para torná-lo apto a ser considerado um ser que tenha absorvido todo o húmus da existência e ter encerrado seu ciclo.
Não me resta dúvida nenhuma de que aqui na Terra estou vivendo apenas uma etapa da minha evolução e que outras missões me serão confiadas em vidas futuras, até que minha formação como espírito ocorra para que eu ganhe talvez para a eternidade e o homem escapará por seu mérito, subindo os degraus da justiça através de muitas vidas, no rumo do aperfeiçoamento.
Não há também dúvida de que estamos sendo testados, estão sendo pesadas as nossas boas obras e as nossas maldades, num lento e progressivo andar pela vida, numa sucessão de várias vidas em que o Criador nos dá oportunidade de exercitá-las em situações absolutamente distintas uma das outras, com a finalidade de nos completarmos como seres dignos da criação, agarremo-nos ou não a uma religião ou crença, o que importa é que atinjamos um grau de bondade e dignidade a ponto de que sejamos considerados – e nos consideremos – justos.
Não faz sentido que Deus – ou qualquer outra força superior e reguladora que contenha o conteúdo desse nome – nos jogue aqui na Terra e nos faça néscio ou sábio, faminto ou regalado, oprimido ou poderoso, saudável ou doente, desde o nosso nascimento, tornando-nos assim tão facilmente condenados ou premiados.
Nada disso, isso é apenas um dos inumeráveis ciclos de vida a que temos de nos submeter.
Até nossa "formação", muitas e muitas gerações e séculos vão suceder a este átimo de existência que nos cerca.
Não foi só esta vida que nos esperava.
Isto não vai ficar assim. Seria profundamente injusto...
***
PAULO ROBERTO GAEFK
As dores da alma não deixam recados, apenas marcas indeléveis. Não saem no jornal e não viram capa de revista.
As dores da alma precisam ser trabalhadas para que sirvam de aprendizado, e que nos permitam extrair delas a capacidade de sermos fortalecidos, aprendendo que o melhor de nós está em nós mesmos.
Quando nos amamos incondicionalmente descobrimos a autoestima, sem a qual o caminho da dor e da lamentação podem induzir à depressão.
Ame-se para amar e ser verdadeiramente amado.
Mantenha sempre os olhos abertos para ver as pequenas e grandes coisas.
Dedique-se para que suas falhas sejam menores.
Tenha amigos e seja um melhor amigo.
Sonhe, pois do sonho nasce a realização.
***
FERNANDO PESSOA
Navegue!
Encontre tesouros. Mas não os retire do fundo do mar.
O lugar deles é lá.
Admire a lua!
Sonhe com ela. Mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol!
Se deixe acariciar por ele, mas não esqueça que seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas!
Apenas sonhe. Elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento!
Ele precisa ir para todas as partes.
Ele tem pressa de chegar.
Não apresse a chuva.
Ela deve cair e molhar muitos rostos. Não deve molhar apenas o seu.
As lágrimas, não as sequem.
Elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces!
O sorriso?
Esse deve se segurar. Não o deixe ir embora. Agarre-o!
Quem você ama?
Guarde-o dentro de um porta-jóia. Tranque. Perca a chave.
Quem você ama é a maior jóia que você possui.
A mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda, se o século vira.
Conserve a vontade de viver.
Não se vai à parte alguma sem ela!
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também!
Persiga um sonho. Não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor. Cure suas feridas com carinho!
Descubra-se todos os dias!
Deixe-se levar pelas vontades.
Mas não enlouqueça por elas.
Procure!
Procure sempre o fim de uma história. Seja ela qual for!
Dê sorriso para quem esqueceu-se de como se faz isso!
Olhe para o lado. Alguém precisa de você!
Abasteça seu coração de fé! Não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça em seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo.
Apenas saia dessa agonia se conseguir retirá-lo também.
Procure os seus caminhos.
Mas não magoe ninguém nessa procura,
Arrependa-se. Volte atrás. Peça perdão.
Não se acostume com o que não o faz feliz!
Revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não o deixe afogar-se nelas!
Se achar que precisa voltar – volte!
Se perceber que precisa seguir - siga!
Se estiver tudo certo – continue!
Se estiver tudo errado – comece tudo novamente!
Se sentir saudade – Mate-a!
Se perder um amor não se perca!
Se achar um amor- segure-o!
Circunda-te de rosas!
Ama. Bebe. E cala!
O mais é nada!
***
MARIO QUINTANA
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já se passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olharia o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais!
***
Dylan Thomas
(Poeta surrealista inglês, precursor da geração beatnik)
Não entres com suavidade nesta noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar ao termo do dia;
revolta-te, revolta-te contra a luz que começa a morrer.
No fim, ainda que os lábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio em suas palavras, eles
não entram com suavidade nessa noite serena.
Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia o brilho de suas frágeis ações ter dançado na baía verde,
revolta-te, revolta-te contra a luz que começa a morrer.
E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol,
e aprenderam muito tarde como o feriram em seu caminho,
não entram com suavidade nessa noite serena.
Junto da morte, homens graves que vede com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegras,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E de longe, meu pai, peço-te que nesta altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com tua cruéis lágrimas.
Não entres com suavidade nesta noite serena,
revolta-te, revolta-te contra a luz que começa a morrer.
***
DORES DA ALMA E O FADO
Não há dor que não possa servir para tema de um fado. A música portuguesa certamente, embora até possa cantar outros sentimentos, não seria construída se não houvesse o fado, lamento do destino, para cantar as dores do amor e as dores da alma.
A dolência e a melancolia, tão comuns no fado, teriam sido herdadas dos cânticos dos Mouros, que permaneceram no bairro da Mouraria, na cidade de Lisboa após a reconquista Cristã. Contudo, não existem registos do fado até ao início do século XIX, nem era conhecido no Algarve, último reduto dos árabes em Portugal, nem na Andaluzia onde os árabes permaneceram até aos finais do século XV.
Os fadistas, cantores de fado, classicamente trajam-se de negro. E é no silêncio da noite, com o mistério que a envolve, que se deve ouvir, com uma "alma que sabe escutar", esta canção, que nos fala de sentimentos profundos da alma. O fado então faz chorar as guitarras que o acompanham.
O fado canta o sofrimento, a saudade de tempos passados, a saudade de um amor perdido, a tragédia, a desgraça, a sina e o destino, a dor, amor e ciúme, a noite, as sombras, os amores, a cidade, as misérias da vida ou ainda críticas à sociedade.
Primeira vez ( Frederico de Brito )
Primeiro foi um sorriso
Depois, quase sem aviso,
É que o beijo aconteceu.
Nesse infinito segundo,
Fora de mim e do mundo
Minha voz emudeceu.
Ficaram gestos suspensos
E os desejos, imensos,
Como poemas calados,
Teceram a melodia
Enquanto a lua vestia
Nossos corpos desnudados.
Duas estrelas no meu peito
No teu, meu anjo perfeito,
A voz de búzios escondidos.
Os lençóis, ondas de mar
Onde fomos naufragar
Como dois barcos perdidos!
Os lençóis, ondas de mar
Onde fomos naufragar
Todos os nossos sentidos!
***
Até ao fim do dia (ToZé Brito)
Então está tudo dito, meu amor
Por favor, não penses mais em mim.
O q1ue é eterno acabou conosco
E este é o princípio do fim.
Mas sempre que te vir
Eu vou sofrer,
E sempre que te ouvir
eu vou calar,
Cada vez que chegares
Eu vou fugir,
Mas mesmo assim amor
Eu vou te amar.
Até ao fim do fim
Eu vou te amar.
Então está dito, meu amor,
Acaba aqui o que não tinha fim,
Para ser eterno tudo o que pensamos,
Precisava que pensasses mais em mim.
Para ti pensar a dois é uma prisão,
Para mim é a única forma de voar.
Precisas de agradar a muita gente,
Eu por mim só a ti queria agradar.
Aguarda-te ao chegar (Cristina Viana e Carlos Viana )
Calas-me a voz, voz do olhar,
Sinto que o tempo tarda em chegar.
Distante, ausente sinto apertar
O peito ardente por te encontrar,
Na minha alma que anseio urgente
Pelo momento de ter-te presente,
Pelo infinito estendo meus olhos
Um mar de mil desejos, aguarda-te ao chegar.
Encho minha taça vazia
Com perfumes de poesia,
Bebo a saudade amarga e fria
E então adormeço ao luar.
Calas-me a voz, p’ra lá do tempo,
Estrelas que caem por um lamento
Espuma na areia, solta no vento
O meu silêncio, meu sentimento.
Em minha alma que chora vazia
Por um momento se acende a magia,
P’lo infinito estendo o meu sorriso
Num mar azul de sonhos
Acorda-me ao chegar.
Encho minha taça ardente
Com o incenso doce e quente,
Sirvo a beber à alegria
Que sinto ao ver-te chegar.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
III. RECONHECENDO AS DORES DA ALMA
Dores da alma, emocionais e afetivas
Confundem-se dor emocional ou afetiva com as dores da alma. Em ambas não se consegue identificar a ocorrência de lesões materiais, morfológicas ou estruturais. As dores da alma podem resultar em alterações do comportamento ou ainda modificar condições emocionais ou afetivas, estas frequentemente influenciadas pela dor crônica.
As dores da alma, embora intercorrências da vida, evoluem direcionadas a interferir na evolução espiritual do homem. Testemunhas silenciosas do sofrimento na luta contra os obstáculos íntimos, educam, moldam e forjam o comportamento do Homem na construção de seu próprio destino.
A inadequação do espírito humano à insensibilidade, ignorância, inexperiência e ao inconformismo é uma realidade que pode gerar uma desestruturação íntima, frequentemente compondo as raízes do sofrimento. Sementes que frutificam em dores da alma.
A doutrina espiritualista admite dentro da concepção de alma doente ou com dor o resultado de várias experiências de vida sucessivamente acumuladas, constituindo um padrão de evolução espiritual maior ou menor, no qual a dor pode ser o instrumento mais comum de progressão na escalada do espírito.
No Brasil a figura ímpar de Francisco Cândido Xavier – o Chico Xavier- assumiu durante anos o compromisso,através de vasta obra psicografada,a divulgação do espiritualismo em toda a plenitude de seus ensinamentos e dogmas quase nem sempre esclarecidos. Desde que as mentes estejam abertas para o novo ou para o imponderável, as dores da alma podem ser melhor entendidas e abordadas quando interpretadas através da luz espiritualista.
Chico Xavier
Os ensinamentos psicografados de Hammed conjugam conceitos de psicologia inseridos nessa doutrina. Através deles as dores da alma podem resultar de diferentes níveis de sofrimento, alguns decorrentes de condições individuais associadas ao comportamento diário. Assim- - as privações dos enfermos, seja em enfermarias comunitárias, seja em apartamentos privativos; - a escassez dos necessitados sem teto, nas ruas ou nas comunidades carentes; - o anônimo e os conflitos morais ou a celebridade e os conflitos afetivos.
Todos de alguma maneira sofrem; - sofre o insignificante ante a falta de importância; - sofre o notável, o político e o administrador público perdido nas tramas do poder; - sofre a mãe milionária ou paupérrima pelo destino dos filhos; -sofremos quando, preconceituosos, nos recusamos a aceitar novas experiências e idéias.
Sofremos ainda quando não aceitamos a natureza da fragilidade e a irrelevância de todos nós; - ou quando a rigidez de nossos pretensos princípios gera a inflexibilidade e estagnação de nossos conceitos mais íntimos.
Sofremos principalmente quando a voz interior não é levada em consideração, permanecendo sepultada em nossos corações; ou quando o apego doentio refuta o amor incondicional.
Sofre também quem assimila o conflito como parte integrante de seu eu interior, e não como circunstância passageira.
Ou ainda quando a cada dia as circunstâncias da vida nos surpreendem negativamente, promovendo a dor de várias situações, a maior parte das vezes inesperadas:
- a decepção,
- a sensação de errar, enganar, magoar,
- não amar o próximo,
- a perda de um amigo,
- a traição,
- a ingratidão,
- a perda das ilusões,
- a fome de amor,
- a falta de confiança no futuro,
- não reconhecer as lições do passado,
- o sonho estraçalhado,
- a angústia,
- a incerteza,
- a insatisfação,
- a amargura
- a falta de reconhecimento de nossos esforços,
- a perda de objetivos,
- a desesperança,
- a falta de uma oportunidade,
- a adversidade,
- a sensação do nunca mais...
Dentre todas essas circunstâncias, uma das mais importantes é o sentimento da mágoa, que quando se cronifica destrói até mesmo a razão. Sinal alarmante de desequilibro, pode determinar em quem a cultiva até enfermidades físicas ou psíquicas.
Uma vaidade ferida, qualquer sentimento não correspondido pode ser o ninho no qual se instala a mágoa, que como chaga cancerosa invisível, progressivamente se desdobra, terminando por corroer a saúde da alma.
Quase sempre faz-se acompanhar de outros sentimentos malévolos como a aversão, que estimulam o ódio, etapa crítica do processo destrutivo.
Levando-se em conta que o homem acaba sendo o resultado de sua vida ou saúde espiritual, é fácil entender que suas idéias e aspirações se constituam no campo vibratório onde seu espírito transita e também se nutre. Dependendo da qualidade dessas vibrações se concretizam ou não condições propícias para a instalação das dores da alma.
O melhor antídoto para a mágoa é o perdão. Citando Joana de Angelis “– o perdão beneficia aquele que perdoa, propiciando-lhe paz espiritual, equilíbrio emocional e lucidez mental. Felizes são os que possuem a fortuna do perdão para a distender largamente, sem parcimônia. O perdoado é alguém em débito; o que perdoou é espirito em lucro”.
A alma definitivamente sofre, é esmagada pela dor da perda de um filho. Ainda que no útero materno. Ainda que nunca reconhecido o sorriso de esperança ou nunca tenha acompanhado os passos dos pais. Pais que não foram preparados para sobreviver a morte de um filho. A perda maior. Não apenas a descontinuidade do próprio eu. Mas a dor dilacerante de um futuro que nunca se concretizará. Sonhos perdidos irremediavelmente. Perdas jamais esquecidas, porque nunca concretizadas. Um amor nunca desabrochado, retido indelevelmente pela ausência jamais compensada!
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(nova página)
Dores da alma e dores da família
“ Nenhum homem é uma ilha isolada. Cada um de nós é parte de um promontório ou um continente.”
John Done.
Todos fazemos parte de um promontório ou de um continente,ninguém está só ou vive só. Dependemos uns dos outros em cada momento de nossas vidas. E nos relacionamos tão intensamente que um não pode viver sem o outro. Esta é a chama da vida que por gerações tem alimentado o coração do homem. Mesmo que ele não creia nisto ou assuma alguma forma de solidão voluntária.
Esse tipo de dependência estabelece uma ordem de relacionamento baseado no amor ao próximo. Até mesmo em relação ao próximo desconhecido. Mas é sobretudo dentro da família que os sentimentos se emaranham definindo padrões de amor que transcendem até mesmo várias gerações.
As experiências negativas reconhecidas dentro de um sistema familiar podem marcar tão profundamente seus integrantes, que até seja possível uma repetição em gerações futuras que as revivem inconscientemente. Por exemplo se uma injustiça foi cometida em gerações anteriores, esta será representada e sofrida posteriormente por alguém da mesma família, como uma forma de restauração da ordem de relacionamento familiar.
Esta é a tese do psicoterapeuta Bert Hellinger, especialista em dinâmica dos sistemas de relacionamento família, e profundo conhecedor das forças que nele atuam. Oriundo de uma família católica, foi marcado pela SS, no tempo do nazismo, como "inimigo do estado", ainda muito jovem. Mesmo assim, foi convocado e serviu ao exército alemão. Capturado na Bélgica, posteriormente, fugiu e voltou para Berlim. Após esse evento, tornou-se padre católico trabalhando entre os zulus africanos, Lá, conheceu a dura realidade do apartheid, e trabalhou, favorecido pela visão mais aberta dos padres anglicanos, com dinâmicas de grupo. Mais tarde deixou a batina para se dedicar plenamente à terapia familiar, onde construiu a técnica de formação de constelações familiares.
A partir de uma nova abordagem da psicoterapia sistêmica tem procurado reconhecer ou tocar no amor que existe na alma, e nas dores da alma resultantes da falta desse amor. Ou dos desencontros e tragédias que desestruturam os sistemas familiares.
Alguns conceitos hellingerianos merecem destaque pela sua originalidade ou delicada percepção da realidade familiar.
A liberdade é essencial como prevenção das dores da alma. Em relação à liberdade, melhor dizendo ao livre arbítrio de cada um de nós sobre nossas condutas Bert afirma: - O ser humano não é livre. A liberdade é limitada. Pode ele trilhar vários caminhos diferentes, mas o fim de cada um deles é predeterminado. Por exemplo, regras básicas podem ser infringidas voluntariamente, contudo a vontade não tem poder de influenciar as consequências dessas infrações. As conseqüências são predeterminadas.
A felicidade é uma conquista da alma. A alma infeliz padece de dores que se repetem constantemente. Sobre ela escreveu Hellinger:
- A felicidade almejada pelo “eu” nos escapa com facilidade. Nós crescemos quando ela se vai. A felicidade da alma chega e permanece, cresce conosco.
Traduzindo – a felicidade se estabelece e se modifica dentro de cada fase da vida. Cada fase tem sua própria ordem de fatores, seu grau de sensibilidade e percepção. Seus próprios limites da satisfação. A criança é feliz no ventre da mãe. Depois isto não é mais suficiente: ela nasce e se aconchega no colo materno. Mais tarde também isto já não basta e ela caminha em busca de seu destino. Depois a curiosidade inquieta do crescimento, e a impaciente ânsia de liberdade da adolescência antecedendo a procura por uma profissão, novos compromissos, o casamento. Em seguida com os filhos tudo se renova e repete – sempre novas fases que se sucedem. Nas quais a felicidade sempre é procurada de forma diferente, e ligada sempre às condições de percepção de cada momento.
DORES DA ALMA E O IDOSO
Na sociedade e nos tempos atuais os mais jovens, qualquer que seja a idade, não tem mais tempo para os mais velhos. E estes se ressentem amargamente dessa condição, pois sua experiência de vida,a maturidade e o amor aos seus entes queridos mais jovens, somente fazem com que a ansiedade de tentar transmitir o que para eles é tudo de bom, resultem em frustração e aborrecimento.
Na realidade o idoso é como João Baptista, citado na Bíblia como a voz que clama no deserto. Não é ouvido, e nas raras oportunidades que os jovens lhes dão, são considerados ultrapassados, quando não repetitivos e desinteressantes.
A ironia maior é que os jovens de hoje serão idosos, e passarão pelos mesmos momentos,guardadas as diferentes épocas.
Ninguém gosta de envelhecer. A velhice dói. Não bastassem as alterações do corpo que limitam as funções individuais, pior ainda é a perseguição e discriminação social que todos sofrem ao demonstrar os primeiros sinais do envelhecimento.
Bem comparando, é o que sucede quando a sociedade percebe circulando nela, indivíduos trajados com vestes velhas, fora de moda opu desgastadas, ou mesmo dirigindo automóveis fora de linha, de potência menor, e que eventualmente não cedem passagem aos modelos mais novos e potentes. Nessas condições além do desprezo, o idoso sem qualquer culpa, a não ser a de existir, causa eventualmente ira e intolerância.
Esses fatos,tão comuns,geram uma progressiva insegurança no idoso, que a exemplo de conceitos da antiga Grécia, deveriam aguardar pela morte, e assim ceder caminho para a progressão dos mais jovens.
Entretanto nada mais enganoso e acomodado do essas idéias. Ser velho não deve significar ser fraco ou mesmo uma pessoa cansada., fragilizada. O envelhecimento é necessário, para que a sabedoria e a experiência acumulada possam auxiliar o desenvolvimento das novas gerações.
Mesmo se elas ainda não perceberem que sua própria sobrevivência dependerá de uma redefinição de suas próprias condições de envelhecimento. Da mesma forma que a sociedade industrial não pode prescindir da natureza, a sociedade atual tecnocrata e informatizada não pode nem deve deixar de considerar a experiência dos idosos, em termos de sabedoria e autoconsciência.
Em verdade caso se perpetuem as condições até humilhantes infringidas aos idosos, geralmente excluídos socialmente da comunidade, e considerados de mentalidade estreita, conservadora e pessimista. Isto resultará progressivamente em um clima de temor e insegurança em relação ao futuro.
A geração atual tem mantido um culto extremado pela juventude e pela beleza, manifesto seja nas expressões da arte, da propaganda, da promoção social e como demonstrativo dos padrões de melhor qualidade de vida. Com isso, cria-se uma velhice de imagens sombrias, ironicamente cada vez mais próxima dessa geração, e cada vez menos concordante com a realidade mundial de nossos dias.
Eis porque em geral as pessoas tentam camuflar a progressão da idade, seja com procedimentos cosméticos, seja através da cirurgia plástica, prática de esportes, alimentação saudável e de uma medicina preventiva atuante.
Isto fez com que nos dicionários mais completos o número de verbetes médicos nos últimos cinco anos relacionados de algum modo ao envelhecimento aumentasse em 40%.
Na realidade imprime-se hoje o conceito de que envelhecer é uma condição capaz de nos trazer vergonha. Daí a ausência de idosos na maioria dos programas de televisão, cinema e propaganda. Tal qual a quarentena de uma doença contagiosa.
Ao invés de ser avaliado e valorizado como uma notável experiência interior, o envelhecimento ainda é considerado um tabu social.
O antagonismo do jovem em relação à velhice já é introduzido desde a tenra infância, quando a mente das crianças já é povoada de imagens em contos de fadas e histórias infantis, com velhos que passam a imagem de medo, quando não terror ás crianças. Lembrem-se das histórias de João e Maria, Rapunzel, Moura-torta e Branca de Neve. Nelas as crianças aprendem que o Mal pode geralmente assumir a condição de um velho, que necessita ser evitado e combatido.
Mesmo assim, progressivamente com o aumento da expectativa de vida, as populações estão envelhecendo,e os idosos tem se tornado uma significante parcela da população, e interferindo por um período maior nas condições de vida das populações. Muito tem contribuído para isto a aceleração da tecnocracia no campo das comunicações humanas.
A internet e as redes sociais tem ampliado a participação do idoso, seja no resgate de suas lembranças, seja na aquisição de conhecimentos através de uma estratégia mais fácil e lúdica.
Uma outra comparação, simples, contudo extremamente alentadora em relação à prospecção do futuro nos idosos foi atribuída e Richard Gott, astrofísico que teve a oportunidade de visitar o Muro de Berlin e o secular círculo de pedra de Stonehenge. Comentando sobre a transitoriedade do Muro de Berlin, apesar de seu intenso significado de discriminação social e étnica, pronunciou-se dizendo “ tudo que existe por um período de tempo suficientemente longo, terá chances cada vez maiores de existir por mais tempo que aquilo que existe há menos tempo.”
A Ciência já demonstrou através de evidências formais, válidas para o século XXI, que os indivíduos que atingem idades mais avançadas (90 anos) podem se mostrar mais lúcidos e criativos do que quando tinham 80 anos. Também que a mortalidade do ser humano até pode se tornar menor, à medida que a idade avançada passa a ser ultrapassada.
Frank Schirrmacher, a partir desses conceitos, enfatiza que a grande missão do homem é envelhecer. Devemos todos aprender a chegar com harmonia , e ultrapassar com esperança os 50, 60 e 70 anos.
Deve-se procurar viver o envelhecimento sem emudecer. Sem deixar de participar.
Os obstáculos são muitos. A sociedade que crê poder definir o quanto uma pessoa pode ou não trabalhar em função do avanço de sua idade, o seu próprio reflexo no espelho e os momentos de fadiga mental.
Não se deve dar tanta importância à imagem espelhada que nos revela alquebrados e feios. Ou aos momentos de ausência nos quais o cérebro nos parece falhar porque senil. Não se pode desperdiçar os recursos intelectuais e emocionais remanescentes, pois sempre estes serão de grande utilidade.
A Cultura do idoso reflete a História do próprio Homem:quando os músculos se enfraqueceram demais, criou-se a roda; quando o cérebro se tornou mais lento, surgiu o computador; e a solidão, quando tingiu a alma de cores acinzentadas, a Arte se mostrou capaz de lhe trazer as cores da Natureza.
Os sonhos não devem ser aposentados. Muito menos compulsoriamente. O idoso enquanto mantiver seus sonhos será imortal.
Confundem-se dor emocional ou afetiva com as dores da alma. Em ambas não se consegue identificar a ocorrência de lesões materiais, morfológicas ou estruturais. As dores da alma podem resultar em alterações do comportamento ou ainda modificar condições emocionais ou afetivas, estas frequentemente influenciadas pela dor crônica.
As dores da alma, embora intercorrências da vida, evoluem direcionadas a interferir na evolução espiritual do homem. Testemunhas silenciosas do sofrimento na luta contra os obstáculos íntimos, educam, moldam e forjam o comportamento do Homem na construção de seu próprio destino.
A inadequação do espírito humano à insensibilidade, ignorância, inexperiência e ao inconformismo é uma realidade que pode gerar uma desestruturação íntima, frequentemente compondo as raízes do sofrimento. Sementes que frutificam em dores da alma.
A doutrina espiritualista admite dentro da concepção de alma doente ou com dor o resultado de várias experiências de vida sucessivamente acumuladas, constituindo um padrão de evolução espiritual maior ou menor, no qual a dor pode ser o instrumento mais comum de progressão na escalada do espírito.
No Brasil a figura ímpar de Francisco Cândido Xavier – o Chico Xavier- assumiu durante anos o compromisso,através de vasta obra psicografada,a divulgação do espiritualismo em toda a plenitude de seus ensinamentos e dogmas quase nem sempre esclarecidos. Desde que as mentes estejam abertas para o novo ou para o imponderável, as dores da alma podem ser melhor entendidas e abordadas quando interpretadas através da luz espiritualista.
Chico Xavier
Os ensinamentos psicografados de Hammed conjugam conceitos de psicologia inseridos nessa doutrina. Através deles as dores da alma podem resultar de diferentes níveis de sofrimento, alguns decorrentes de condições individuais associadas ao comportamento diário. Assim- - as privações dos enfermos, seja em enfermarias comunitárias, seja em apartamentos privativos; - a escassez dos necessitados sem teto, nas ruas ou nas comunidades carentes; - o anônimo e os conflitos morais ou a celebridade e os conflitos afetivos.
Todos de alguma maneira sofrem; - sofre o insignificante ante a falta de importância; - sofre o notável, o político e o administrador público perdido nas tramas do poder; - sofre a mãe milionária ou paupérrima pelo destino dos filhos; -sofremos quando, preconceituosos, nos recusamos a aceitar novas experiências e idéias.
Sofremos ainda quando não aceitamos a natureza da fragilidade e a irrelevância de todos nós; - ou quando a rigidez de nossos pretensos princípios gera a inflexibilidade e estagnação de nossos conceitos mais íntimos.
Sofremos principalmente quando a voz interior não é levada em consideração, permanecendo sepultada em nossos corações; ou quando o apego doentio refuta o amor incondicional.
Sofre também quem assimila o conflito como parte integrante de seu eu interior, e não como circunstância passageira.
Ou ainda quando a cada dia as circunstâncias da vida nos surpreendem negativamente, promovendo a dor de várias situações, a maior parte das vezes inesperadas:
- a decepção,
- a sensação de errar, enganar, magoar,
- não amar o próximo,
- a perda de um amigo,
- a traição,
- a ingratidão,
- a perda das ilusões,
- a fome de amor,
- a falta de confiança no futuro,
- não reconhecer as lições do passado,
- o sonho estraçalhado,
- a angústia,
- a incerteza,
- a insatisfação,
- a amargura
- a falta de reconhecimento de nossos esforços,
- a perda de objetivos,
- a desesperança,
- a falta de uma oportunidade,
- a adversidade,
- a sensação do nunca mais...
Dentre todas essas circunstâncias, uma das mais importantes é o sentimento da mágoa, que quando se cronifica destrói até mesmo a razão. Sinal alarmante de desequilibro, pode determinar em quem a cultiva até enfermidades físicas ou psíquicas.
Uma vaidade ferida, qualquer sentimento não correspondido pode ser o ninho no qual se instala a mágoa, que como chaga cancerosa invisível, progressivamente se desdobra, terminando por corroer a saúde da alma.
Quase sempre faz-se acompanhar de outros sentimentos malévolos como a aversão, que estimulam o ódio, etapa crítica do processo destrutivo.
Levando-se em conta que o homem acaba sendo o resultado de sua vida ou saúde espiritual, é fácil entender que suas idéias e aspirações se constituam no campo vibratório onde seu espírito transita e também se nutre. Dependendo da qualidade dessas vibrações se concretizam ou não condições propícias para a instalação das dores da alma.
O melhor antídoto para a mágoa é o perdão. Citando Joana de Angelis “– o perdão beneficia aquele que perdoa, propiciando-lhe paz espiritual, equilíbrio emocional e lucidez mental. Felizes são os que possuem a fortuna do perdão para a distender largamente, sem parcimônia. O perdoado é alguém em débito; o que perdoou é espirito em lucro”.
A alma definitivamente sofre, é esmagada pela dor da perda de um filho. Ainda que no útero materno. Ainda que nunca reconhecido o sorriso de esperança ou nunca tenha acompanhado os passos dos pais. Pais que não foram preparados para sobreviver a morte de um filho. A perda maior. Não apenas a descontinuidade do próprio eu. Mas a dor dilacerante de um futuro que nunca se concretizará. Sonhos perdidos irremediavelmente. Perdas jamais esquecidas, porque nunca concretizadas. Um amor nunca desabrochado, retido indelevelmente pela ausência jamais compensada!
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(nova página)
Dores da alma e dores da família
“ Nenhum homem é uma ilha isolada. Cada um de nós é parte de um promontório ou um continente.”
John Done.
Todos fazemos parte de um promontório ou de um continente,ninguém está só ou vive só. Dependemos uns dos outros em cada momento de nossas vidas. E nos relacionamos tão intensamente que um não pode viver sem o outro. Esta é a chama da vida que por gerações tem alimentado o coração do homem. Mesmo que ele não creia nisto ou assuma alguma forma de solidão voluntária.
Esse tipo de dependência estabelece uma ordem de relacionamento baseado no amor ao próximo. Até mesmo em relação ao próximo desconhecido. Mas é sobretudo dentro da família que os sentimentos se emaranham definindo padrões de amor que transcendem até mesmo várias gerações.
As experiências negativas reconhecidas dentro de um sistema familiar podem marcar tão profundamente seus integrantes, que até seja possível uma repetição em gerações futuras que as revivem inconscientemente. Por exemplo se uma injustiça foi cometida em gerações anteriores, esta será representada e sofrida posteriormente por alguém da mesma família, como uma forma de restauração da ordem de relacionamento familiar.
Esta é a tese do psicoterapeuta Bert Hellinger, especialista em dinâmica dos sistemas de relacionamento família, e profundo conhecedor das forças que nele atuam. Oriundo de uma família católica, foi marcado pela SS, no tempo do nazismo, como "inimigo do estado", ainda muito jovem. Mesmo assim, foi convocado e serviu ao exército alemão. Capturado na Bélgica, posteriormente, fugiu e voltou para Berlim. Após esse evento, tornou-se padre católico trabalhando entre os zulus africanos, Lá, conheceu a dura realidade do apartheid, e trabalhou, favorecido pela visão mais aberta dos padres anglicanos, com dinâmicas de grupo. Mais tarde deixou a batina para se dedicar plenamente à terapia familiar, onde construiu a técnica de formação de constelações familiares.
A partir de uma nova abordagem da psicoterapia sistêmica tem procurado reconhecer ou tocar no amor que existe na alma, e nas dores da alma resultantes da falta desse amor. Ou dos desencontros e tragédias que desestruturam os sistemas familiares.
Alguns conceitos hellingerianos merecem destaque pela sua originalidade ou delicada percepção da realidade familiar.
A liberdade é essencial como prevenção das dores da alma. Em relação à liberdade, melhor dizendo ao livre arbítrio de cada um de nós sobre nossas condutas Bert afirma: - O ser humano não é livre. A liberdade é limitada. Pode ele trilhar vários caminhos diferentes, mas o fim de cada um deles é predeterminado. Por exemplo, regras básicas podem ser infringidas voluntariamente, contudo a vontade não tem poder de influenciar as consequências dessas infrações. As conseqüências são predeterminadas.
A felicidade é uma conquista da alma. A alma infeliz padece de dores que se repetem constantemente. Sobre ela escreveu Hellinger:
- A felicidade almejada pelo “eu” nos escapa com facilidade. Nós crescemos quando ela se vai. A felicidade da alma chega e permanece, cresce conosco.
Traduzindo – a felicidade se estabelece e se modifica dentro de cada fase da vida. Cada fase tem sua própria ordem de fatores, seu grau de sensibilidade e percepção. Seus próprios limites da satisfação. A criança é feliz no ventre da mãe. Depois isto não é mais suficiente: ela nasce e se aconchega no colo materno. Mais tarde também isto já não basta e ela caminha em busca de seu destino. Depois a curiosidade inquieta do crescimento, e a impaciente ânsia de liberdade da adolescência antecedendo a procura por uma profissão, novos compromissos, o casamento. Em seguida com os filhos tudo se renova e repete – sempre novas fases que se sucedem. Nas quais a felicidade sempre é procurada de forma diferente, e ligada sempre às condições de percepção de cada momento.
DORES DA ALMA E O IDOSO
Na sociedade e nos tempos atuais os mais jovens, qualquer que seja a idade, não tem mais tempo para os mais velhos. E estes se ressentem amargamente dessa condição, pois sua experiência de vida,a maturidade e o amor aos seus entes queridos mais jovens, somente fazem com que a ansiedade de tentar transmitir o que para eles é tudo de bom, resultem em frustração e aborrecimento.
Na realidade o idoso é como João Baptista, citado na Bíblia como a voz que clama no deserto. Não é ouvido, e nas raras oportunidades que os jovens lhes dão, são considerados ultrapassados, quando não repetitivos e desinteressantes.
A ironia maior é que os jovens de hoje serão idosos, e passarão pelos mesmos momentos,guardadas as diferentes épocas.
Ninguém gosta de envelhecer. A velhice dói. Não bastassem as alterações do corpo que limitam as funções individuais, pior ainda é a perseguição e discriminação social que todos sofrem ao demonstrar os primeiros sinais do envelhecimento.
Bem comparando, é o que sucede quando a sociedade percebe circulando nela, indivíduos trajados com vestes velhas, fora de moda opu desgastadas, ou mesmo dirigindo automóveis fora de linha, de potência menor, e que eventualmente não cedem passagem aos modelos mais novos e potentes. Nessas condições além do desprezo, o idoso sem qualquer culpa, a não ser a de existir, causa eventualmente ira e intolerância.
Esses fatos,tão comuns,geram uma progressiva insegurança no idoso, que a exemplo de conceitos da antiga Grécia, deveriam aguardar pela morte, e assim ceder caminho para a progressão dos mais jovens.
Entretanto nada mais enganoso e acomodado do essas idéias. Ser velho não deve significar ser fraco ou mesmo uma pessoa cansada., fragilizada. O envelhecimento é necessário, para que a sabedoria e a experiência acumulada possam auxiliar o desenvolvimento das novas gerações.
Mesmo se elas ainda não perceberem que sua própria sobrevivência dependerá de uma redefinição de suas próprias condições de envelhecimento. Da mesma forma que a sociedade industrial não pode prescindir da natureza, a sociedade atual tecnocrata e informatizada não pode nem deve deixar de considerar a experiência dos idosos, em termos de sabedoria e autoconsciência.
Em verdade caso se perpetuem as condições até humilhantes infringidas aos idosos, geralmente excluídos socialmente da comunidade, e considerados de mentalidade estreita, conservadora e pessimista. Isto resultará progressivamente em um clima de temor e insegurança em relação ao futuro.
A geração atual tem mantido um culto extremado pela juventude e pela beleza, manifesto seja nas expressões da arte, da propaganda, da promoção social e como demonstrativo dos padrões de melhor qualidade de vida. Com isso, cria-se uma velhice de imagens sombrias, ironicamente cada vez mais próxima dessa geração, e cada vez menos concordante com a realidade mundial de nossos dias.
Eis porque em geral as pessoas tentam camuflar a progressão da idade, seja com procedimentos cosméticos, seja através da cirurgia plástica, prática de esportes, alimentação saudável e de uma medicina preventiva atuante.
Isto fez com que nos dicionários mais completos o número de verbetes médicos nos últimos cinco anos relacionados de algum modo ao envelhecimento aumentasse em 40%.
Na realidade imprime-se hoje o conceito de que envelhecer é uma condição capaz de nos trazer vergonha. Daí a ausência de idosos na maioria dos programas de televisão, cinema e propaganda. Tal qual a quarentena de uma doença contagiosa.
Ao invés de ser avaliado e valorizado como uma notável experiência interior, o envelhecimento ainda é considerado um tabu social.
O antagonismo do jovem em relação à velhice já é introduzido desde a tenra infância, quando a mente das crianças já é povoada de imagens em contos de fadas e histórias infantis, com velhos que passam a imagem de medo, quando não terror ás crianças. Lembrem-se das histórias de João e Maria, Rapunzel, Moura-torta e Branca de Neve. Nelas as crianças aprendem que o Mal pode geralmente assumir a condição de um velho, que necessita ser evitado e combatido.
Mesmo assim, progressivamente com o aumento da expectativa de vida, as populações estão envelhecendo,e os idosos tem se tornado uma significante parcela da população, e interferindo por um período maior nas condições de vida das populações. Muito tem contribuído para isto a aceleração da tecnocracia no campo das comunicações humanas.
A internet e as redes sociais tem ampliado a participação do idoso, seja no resgate de suas lembranças, seja na aquisição de conhecimentos através de uma estratégia mais fácil e lúdica.
Uma outra comparação, simples, contudo extremamente alentadora em relação à prospecção do futuro nos idosos foi atribuída e Richard Gott, astrofísico que teve a oportunidade de visitar o Muro de Berlin e o secular círculo de pedra de Stonehenge. Comentando sobre a transitoriedade do Muro de Berlin, apesar de seu intenso significado de discriminação social e étnica, pronunciou-se dizendo “ tudo que existe por um período de tempo suficientemente longo, terá chances cada vez maiores de existir por mais tempo que aquilo que existe há menos tempo.”
A Ciência já demonstrou através de evidências formais, válidas para o século XXI, que os indivíduos que atingem idades mais avançadas (90 anos) podem se mostrar mais lúcidos e criativos do que quando tinham 80 anos. Também que a mortalidade do ser humano até pode se tornar menor, à medida que a idade avançada passa a ser ultrapassada.
Frank Schirrmacher, a partir desses conceitos, enfatiza que a grande missão do homem é envelhecer. Devemos todos aprender a chegar com harmonia , e ultrapassar com esperança os 50, 60 e 70 anos.
Deve-se procurar viver o envelhecimento sem emudecer. Sem deixar de participar.
Os obstáculos são muitos. A sociedade que crê poder definir o quanto uma pessoa pode ou não trabalhar em função do avanço de sua idade, o seu próprio reflexo no espelho e os momentos de fadiga mental.
Não se deve dar tanta importância à imagem espelhada que nos revela alquebrados e feios. Ou aos momentos de ausência nos quais o cérebro nos parece falhar porque senil. Não se pode desperdiçar os recursos intelectuais e emocionais remanescentes, pois sempre estes serão de grande utilidade.
A Cultura do idoso reflete a História do próprio Homem:quando os músculos se enfraqueceram demais, criou-se a roda; quando o cérebro se tornou mais lento, surgiu o computador; e a solidão, quando tingiu a alma de cores acinzentadas, a Arte se mostrou capaz de lhe trazer as cores da Natureza.
Os sonhos não devem ser aposentados. Muito menos compulsoriamente. O idoso enquanto mantiver seus sonhos será imortal.
II. A DOR COMO INSTRUMENTO DE CRIAÇÃO ELEVANDO O ESPÍRITO HUMANO
A dor física, embora até também possa ser causa da dor espiritual, dela difere pelo imediatismo de suas conseqüências.
Assim, enquanto a dor aguda é um sinal de alerta contra uma agressão externa ou interna, a dor crônica é um sintoma complexo e contraditório, de difícil conceituação e ainda mais difícil interpretação. Até instrumento de uma escalada social, cultural e espiritual.
A dor crônica pode revelada, dificilmente referida de modo adequado por pacientes que até mesmo nada apresentem como causa que a justifique. Principalmente a dor crônica sem causa orgânica. O conceito de memória da dor traz ainda maior variabilidade na interpretação e reconhecimento desse sintoma.
O sofrimento é um sentimento cuja força é intensa e indelével, uma vez que as grandes alegrias são mais facilmente esquecidas que as grandes perdas, causadoras de marcante tristeza.
Por outro lado, são os momentos de grandes aflições os que mais impulsionam o crescimento do homem e sua obra material e espiritual. Isto é flagrante na arte. A arte imita a vida.
A dor crônica geralmente influencia o artista e sua obra. Já a arte pode auxiliar o artista a compreender e a conviver com sua dor.
Um dos momentos de maior criatividade artística do homem foi a pintura do teto da Capela Sistina do Vaticano, por Michelangelo Buonarroti, exatamente em uma fase atormentada de sua vida, marcada por grandes explosões temperamentais e torturantes crises de gota. A pintura da capela Sistina foi obra encomendada pelo papa Júlio II, também de temperamento irrascível. O embate psicológico entre o papa e o artista, que teve nesta sua única obra de vulto como pintor, resultou, entretanto, em uma obra prima da pintura mundial.
Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475 —1564), foi um artista completo: pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente. Teve uma vida pessoal arrebatadamente tormentosa e desequilibrada, marcada por sentimentos desencontrados, dor, decepção e inquietude espiritual.Toda essa tempestade de sentimentos foi magnificamente imortalizada nos traços fortes e relevos demasiadamente humanizados de suas majestosas esculturas: La pietá, o David, Moisés, Lo schiavo, dentre outras.
Tendo seu talento logo reconhecido, tornou-se um protegido dos Medicis, para quem realizou várias obras. Depois fixou-se em Roma, onde deixou a maior parte de suas obras mais representativas. Seu estilo caracterizou-se por assimilar as influências da Antiguidade Clássica, dos primórdios do Renascimento, dos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo. Representou como ninguém a figura humana, centrado em especial no nu masculino, que retratou com força indescritível, e surpreendente conhecimento de anatomia.
Como arquiteto, projetou além de vários edifícios a cúpula da Basílica de São Pedro, tendo também remodelado a praça do Capitólio romano. Sua genialidade permitiu-lhe também destacar-se na poesia, chegando a escrever poemas diversificados e de muita sensibilidade.
No Brasil, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, padecia de uma doença crônica incapacitante ( esclerose sistêmica? hanseníase ? porfiria cutânea tarda ?), que o segregava socialmente e lhe causava infinita dor física e espiritual. Em compensação exatamente na fase mais crucial de sua vida, produziu a mais legítima expressão da arte sacra no Brasil, obra devota, belíssima e resignada.
Seu um estilo barroco, relacionado ao rococó, revela o maior expoente da arte colonial em Minas Gerais e no Brasil. Toda sua obra foi realizada nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del Rei e Congonhas do Campo. Suas principais obras podem ser visitadas na Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.
Já Francisco de Goya y Lucientes( 1746-1828) na Espanha refletiu em sua pintura a dor espiritual causada por uma enfermidade desconhecida adquirida aos 46 anos, ficando temporariamente paralítico, parcialmente cego e totalmente surdo.
Com a doença, perdeu sua vivacidade, seu dinamismo, sua autoconfiança. A alegria e a iluminação que caracterizavam a primeira fase de sua pintura, desapareceram lentamente, à medida que a doença o consumia. Em suas pinturas as cores se tornaram mais escuras e seu modo de pintar ficou mais livre e expressivo. Seus fortes e coloridos contornos, representando a vida diária do ingênuo camponês espanhol, passaram com o desenvolvimento da doença a evoluir para os trágicos traços de sua fase negra, densa, melancólica e cruel
Edvard Munch (1863-1944) começou a pintar aos 17 anos, depois que sua mãe e irmã morreram de tuberculose. Outras tragédias se seguiram com a morte de outros familiares e a internação de uma irmã de 30 anos em um sanatório. O resultado foi uma arte também trágica, na qual sua mais famosa obra – O Grito – mistura dor e desespero em tons também marcantemente trágicos. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. É considerado uma das obras mais importantes do movimento expressionista. Estado de alma semelhante acompanhou o autor durante longos anos de sua vida.
Henri de Toulouse Lautrec (1864-1901), acometido por uma doença óssea rara – a picnodisostose - após repetidas fraturas mal consolidadas, que levaram à deformidades físicas, chegou à idade adulta com 1m37cm de altura. Segregado socialmente e humilhado pela sociedade hedonista da época, buscou a companhia de outros excluídos, retratando-os em sua arte, através de figuras marginais da noite parisiense - desocupados, jogadores, bailarinas, artistas de circo, bêbados e prostitutas.
A monumental e inicialmente rejeitada arte de Vincent van Gogh (1853-1890), repleta de traços vigorosos, reflexos da inquietude de uma alma, sem perspectiva de vida que não o fogo da paixão interior que o consumia, atitudes instáveis e incoerentes à luz dos costumes da época, resultaram em uma obra angustiada, insana e eventualmente quase violenta.
Sua vida foi marcada por fracassos. Ele falhou em todos os aspectos importantes para o seu mundo, em sua época. Foi incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contactos sociais. Alma atormentada, acometido por frequentes períodos de depressão, aos 37 anos, consumido pela doença mental, suicidou-se, deixando um legado artístico inigualável.
Pierre-Auguste Renoir ( 1841 —1919), um dos mais importantes nomes do movimento impressionista, teve sua obra influenciada pelo sensualismo, pela elegância e delicadeza do estilo rococó. Dentre suas obras uma das mais famosa é o Baile do Moulin de la Galete.
Os últimos 20 anos de vida, Renoir foram marcados por dor contínua e persistente, devido a uma grave forma de artrite reumatóide que o acometeu, limitando consideravelmente sua qualidade de vida. Mesmo assim o artista continuou pintando.
Com a progressiva dificuldade em manejar os pincéis, acabou tendo que amarrá-los às mãos. Com o intuito de buscar outras formas de poder expressar seu espírito criativo, dedicou-se também à modelagem e à escultura, entretento, para isso tendo de contar com o auxílio de dois assistentes Richard Gieino e Louis Morel
Jackson Pollock (1912-1956) refletiu a instabilidade da vida pessoal, dolorosamente consumida pelo alcoolismo, em um universo de traços e pingos luminosos, compondo no caos de imagens aleatórias uma revolução artística, impulsionada obsessivamente por uma alma doente, de dor crônica infinita.
Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas; os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela.
Já a saúde débil de Amedeo Modigliani (1884-1920) foi retratada em pinturas, onde pescoços alongados eram encimados por rostos sem alegria e olhos mortiços em tons de azul e cinza. Refletindo toda a angustia da dor que lhe consumia a alma.
Frida Khalo (1907-1954), mexicana, acometida por poliomielite aos seis anos, sendo esta a primeira de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo de sua vida.
Evoluiu com abortos de repetição e amputações de extremidades (síndrome do anticorpo antifosfolípide?). Sua pintura de traços fortes e coloridos foi-se modificando ao longo de sua curta e atormentada vida. Dor física, acompanhada pelos fortes e controversos sentimentos causados pelo marido, Diego Rivera, também pintor, instigaram-na a produzir uma obra bem representativa dos também tumultuados momentos da história do Mexico.
Dotada de um espírito indômito, refletiu toda a ironia e a dor causada pelos seus males físicos em figuras de cores vivas e trágicas. Sua obra Coluna Partida retrata fielmente o conceito atual de dor crônica funcional – a Fibromialgia.
A esclerose sistêmica é uma doença progressiva, incapacitante e extremamente cruel, porque, além induzir incapacidade progressiva e apresentar desfecho ainda inexorável, promove uma estigmatização estética que segrega também socialmente o paciente por ela acometido.
Paul Klee ( 1879 —1940) acometido pela doença produziu uma obra artística que se transformou radicalmente, à medida que a enfermidade evoluía. Seu desenho de traços firmes e personalísticos, com extrema riqueza de cores, demonstra a influência de várias tendências artísticas diferentes, incluindo o expressionismo, cubismo, orientalismo e surrealismo. Dotada de uma perspectiva por vezes infantil sua pintura representa fielmente sua vida pessoal.
Demitido de sua condição de professor da Academia de Finas Artes de Dusseldorf, em conseqüência da rejeição de sua arte, considerada degenerada, exilou-se em Berna, onde suas pinturas, avançadas para sua época, também inicialmente foram mal interpretadas. Atualmente é considerado um dos maiores mestres de seu tempo,tendo deixado um patrimônio de aproximadamente nove mil obras de arte.
Na música o mesmo cenário se repete, como se a angústia e as dores da alma impulsionassem os diferentes autores a produzir obras imortais.
Franz Liszt (1811-1886) e sua devoção religiosa extremada, como a se penitenciar pela inquietude da alma e da vida pregressa. Intérprete de grande técnica e musicalidade,um dos maiores pianistas de todos, importante compositor,tornou-se benfeitor de várioso outros músicos da época : Chopin , Richard Wagner, Hector Berlioz, Camille Saint-Saëns, Edvard Grieg e Alexander Borodin. Percorreu todas as cortes da Europa,tendo recebido todas as honras destinadas aos grandes artistas.Morreu aos 74 anos após uma pneumonia contraída durante um festival de musica em Bayreuth.
Frederic Chopin ( 1810-1849 ), alma arrebatada e patriota, consumida pelos amores e desvarios trazidos por caminhos tortuosos. Pianista polones e um dos maiores compositores piano da era romântica. É amplamente conhecido dos pianistas mais importantes da história.[] Sua técnica refinada e sua elaboração harmônica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros gênios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje.
Richard Wagner (1813-1883), segregacionista atormentado, criando as raízes da eugenia hitlerista. Compositor, maestro, teórico musical, ensaista e poeta alemão, considerado um dos expoentes do romantismo e dos mais influentes compositores de música erudita já surgidos. Responsável por inúmeras inovações para a música, tanto em termos de composição quanto em termos de orquestração. Como compositor de óperas, criou um novo estilo, grandioso, cuja influência sobre a música da época e posterior foi forte. Como poeta, escreveu o libreto de todas as suas óperas.
Ludwig van Beethoven (1770-1827), misógeno, precocemente acometido por Doença Óssea de Paget que terminou por deixá-lo surdo. Apesar de tudo deixou uma obra monumental, cujas grandes expressões foram compostas, quando a doença já lhe deixara auditivamente incapacitado. Compositor alemão, do período de transição entre o Classicismo (século XVIII) e o Romantismo (século XIX). Desenvolveu a linguagem e o conteúdo musical, sendo um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos. Pregava liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) , talvez o mais reconhecido por sua genialidade e extrema leveza e harmonia de sua obra musical. Compositor prolífico e influente do período clássico, autor de mais de 600 obras - tidas como referências da música sinfônica, de concerto, operística, coral, pianística e de câmara.
Mozart mostrou uma habilidade prodigiosa desde a infância. Precocemente revelado, reconhecido e consagrado, também o mais precocemente acometido pela ansiedade, insegurança e alma doentia. Ao longo de sua vida, conquistou fama, porém pouca estabilidade financeira. Seus últimos anos na cidade de Viena produziram algumas de suas sinfonias, concertos e óperas mais conhecidas, além de seu Requiem. Também precoce e tragicamente desaparecido, terminando sua vida miseravelmente só e enterrado em uma vala comum – uma vida apaixonada e incompreendida. As circunstâncias de sua morte prematura foram assunto de diversas histórias e lendas.
Gustav Mahler ( 1860-1911) um dos mais conhecidos regentes austríacos e um dos maiores compositores de sua época, lembrado por ligar a música do século XIX com o período moderno, e por suas grandes sinfonias e ciclo de canções sinfônicas, como, por exemplo, Das Lied von der Erde (A Canção da Terra). Suas obras são geralmente extensas. Prodcurou romper os limites da tonalidade, mantendo na maioria de suas obras um caráter sombrio, algumas vezes ligado ao funesto. Certamente relacionado a seus períodos de angustiada depressão.
Na literatura as figuras imortais também foram forjadas pelas dores da alma e a rejeição inicial de seus pares. As obras literárias mais editadas universalmente depois da Biblia são Dom Quixote de La Mancha, Os Lusíadas e Les miserables.
Miguel de Cervantes e Saavedra, poeta, soldado, sempre teve uma vida de sacrifícios físicos e morais. Caturado por piratas sarracenos viveu anos como escravo. Libertado, retorna à Espanha onde sua obra literária atrai a inveja de seu concorrente, poeta da corte, Lope de Vega que trama sua desgraça e seu encarceramento. Mesmo assim toda a alma da Espanha encontra-se retratada fielmente na figura do esquálido, indômito e generoso Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, sempre disposto a mover céus e terras para defender o próximo e combater o Mal, ainda que este seja representado por dragões e moinhos de vento. Inconscientemente Cervantes retrata em seu personagem sua própria vida e convicções.
Luis Vaz de Camões, também poeta e soldado, compõe seu poema épico Os Lusíadas, narrando toda a epopéia da formação da nação portuguesa durante as grandes navegações, qua acabaram franqueando à Europa regiões como a África a Ásia e as Américas. Alma ardente e apaixonada, Camões igualmente teve uma vida de perdas e sacrifícios. Ferido no olho por uma flexa durante uma batalha, soçobrou em um naufrágio, dele escapando com a roupa do corpo e salvando também o manuscrito de sua maior obra. Alternando momentos de paixão extremada e penúria, sua alma inquieta e sofrida representa igualmente o ardor e bravura dos navegadores portuguese ( As armas e os barões assinalados, / que da ocidental praia lusitana, / por mares nunca dantes navegados,/ passaram inda além da Taprobana. / E em perigos e glórias esforçados, / mais do que prometia a força humana, / entre gente remota edificaram / novo reino que tanto sublimaram./ )
Victor Hugo fez dos Miserables a mais pungente elegia ao perdão e ao amor ao próximo, resgatando os melhores valores humanos. A personificação maniqueísta do Bem – na figura de Jean Valjean e do Mal –o implacável e obstinado Inspetor Javert compõe um cenário imortal.
Sua vida pessoal marcou muito toda a sua obra. Casou-se com uma mulher por quem seu irmão era apaixonado. Em decorrência disso, Eugène, o irmão, enloquece e é internado em um hospício. No ano seguinte enfrentou a morte do primeiro filho e o fracasso literário do livro Hans da Islândia, que não agrada a crítica.
Em 1831 lança seu grande romance histórico, Notre-Dame de Paris, definindo a forma de exploração ficcional do passado que marcou o romantismo francês. O livro narra a história do amor impossível do sineiro corcunda da catedral de Notre Dame de Paris, Quasímodo, pela bailarina cigana Esmeralda e as tramas de ciúme e rancor de Claudio Frollo, o diácono da Notre Dame.
Exila-se após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851, passando a viver em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas, onde sua alma inquita padeceu as agruras da solidão e do desterro.
Propõe uma chamada à liberação das restrições que impunham as tradições do classicismo, compondo o maior manifesto do movimento romântico na literatura francesa. Justifica a necessidade de romper com as amarras e restrições do formalismo clássico para poder então refletir a extensão plena da natureza humana.
A história da arte, em suas várias épocas, sempre demonstrou que as grandes produções e também as mais diferentes formas de criatividade, muito frequentemente estiveram associadas ao sofrimento mais moral do que físico do artista, seja na pintura, na música, na escultura – as mais grandiosas expressões do espírito humano.
Assim, compreende-se que vencer a dor crônica,significa muito mais que tratar a doença ou sua condição determinante. Superar as dores da alma pode engrandecer o espírito humano. Abrir o portal de um novo horizonte, construir um futuro melhor. Forjar as razões e as raízes de uma vida futura.
Assim, enquanto a dor aguda é um sinal de alerta contra uma agressão externa ou interna, a dor crônica é um sintoma complexo e contraditório, de difícil conceituação e ainda mais difícil interpretação. Até instrumento de uma escalada social, cultural e espiritual.
A dor crônica pode revelada, dificilmente referida de modo adequado por pacientes que até mesmo nada apresentem como causa que a justifique. Principalmente a dor crônica sem causa orgânica. O conceito de memória da dor traz ainda maior variabilidade na interpretação e reconhecimento desse sintoma.
O sofrimento é um sentimento cuja força é intensa e indelével, uma vez que as grandes alegrias são mais facilmente esquecidas que as grandes perdas, causadoras de marcante tristeza.
Por outro lado, são os momentos de grandes aflições os que mais impulsionam o crescimento do homem e sua obra material e espiritual. Isto é flagrante na arte. A arte imita a vida.
A dor crônica geralmente influencia o artista e sua obra. Já a arte pode auxiliar o artista a compreender e a conviver com sua dor.
Um dos momentos de maior criatividade artística do homem foi a pintura do teto da Capela Sistina do Vaticano, por Michelangelo Buonarroti, exatamente em uma fase atormentada de sua vida, marcada por grandes explosões temperamentais e torturantes crises de gota. A pintura da capela Sistina foi obra encomendada pelo papa Júlio II, também de temperamento irrascível. O embate psicológico entre o papa e o artista, que teve nesta sua única obra de vulto como pintor, resultou, entretanto, em uma obra prima da pintura mundial.
Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475 —1564), foi um artista completo: pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente. Teve uma vida pessoal arrebatadamente tormentosa e desequilibrada, marcada por sentimentos desencontrados, dor, decepção e inquietude espiritual.Toda essa tempestade de sentimentos foi magnificamente imortalizada nos traços fortes e relevos demasiadamente humanizados de suas majestosas esculturas: La pietá, o David, Moisés, Lo schiavo, dentre outras.
Tendo seu talento logo reconhecido, tornou-se um protegido dos Medicis, para quem realizou várias obras. Depois fixou-se em Roma, onde deixou a maior parte de suas obras mais representativas. Seu estilo caracterizou-se por assimilar as influências da Antiguidade Clássica, dos primórdios do Renascimento, dos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo. Representou como ninguém a figura humana, centrado em especial no nu masculino, que retratou com força indescritível, e surpreendente conhecimento de anatomia.
Como arquiteto, projetou além de vários edifícios a cúpula da Basílica de São Pedro, tendo também remodelado a praça do Capitólio romano. Sua genialidade permitiu-lhe também destacar-se na poesia, chegando a escrever poemas diversificados e de muita sensibilidade.
No Brasil, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, padecia de uma doença crônica incapacitante ( esclerose sistêmica? hanseníase ? porfiria cutânea tarda ?), que o segregava socialmente e lhe causava infinita dor física e espiritual. Em compensação exatamente na fase mais crucial de sua vida, produziu a mais legítima expressão da arte sacra no Brasil, obra devota, belíssima e resignada.
Seu um estilo barroco, relacionado ao rococó, revela o maior expoente da arte colonial em Minas Gerais e no Brasil. Toda sua obra foi realizada nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del Rei e Congonhas do Campo. Suas principais obras podem ser visitadas na Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.
Já Francisco de Goya y Lucientes( 1746-1828) na Espanha refletiu em sua pintura a dor espiritual causada por uma enfermidade desconhecida adquirida aos 46 anos, ficando temporariamente paralítico, parcialmente cego e totalmente surdo.
Com a doença, perdeu sua vivacidade, seu dinamismo, sua autoconfiança. A alegria e a iluminação que caracterizavam a primeira fase de sua pintura, desapareceram lentamente, à medida que a doença o consumia. Em suas pinturas as cores se tornaram mais escuras e seu modo de pintar ficou mais livre e expressivo. Seus fortes e coloridos contornos, representando a vida diária do ingênuo camponês espanhol, passaram com o desenvolvimento da doença a evoluir para os trágicos traços de sua fase negra, densa, melancólica e cruel
Edvard Munch (1863-1944) começou a pintar aos 17 anos, depois que sua mãe e irmã morreram de tuberculose. Outras tragédias se seguiram com a morte de outros familiares e a internação de uma irmã de 30 anos em um sanatório. O resultado foi uma arte também trágica, na qual sua mais famosa obra – O Grito – mistura dor e desespero em tons também marcantemente trágicos. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. É considerado uma das obras mais importantes do movimento expressionista. Estado de alma semelhante acompanhou o autor durante longos anos de sua vida.
Henri de Toulouse Lautrec (1864-1901), acometido por uma doença óssea rara – a picnodisostose - após repetidas fraturas mal consolidadas, que levaram à deformidades físicas, chegou à idade adulta com 1m37cm de altura. Segregado socialmente e humilhado pela sociedade hedonista da época, buscou a companhia de outros excluídos, retratando-os em sua arte, através de figuras marginais da noite parisiense - desocupados, jogadores, bailarinas, artistas de circo, bêbados e prostitutas.
A monumental e inicialmente rejeitada arte de Vincent van Gogh (1853-1890), repleta de traços vigorosos, reflexos da inquietude de uma alma, sem perspectiva de vida que não o fogo da paixão interior que o consumia, atitudes instáveis e incoerentes à luz dos costumes da época, resultaram em uma obra angustiada, insana e eventualmente quase violenta.
Sua vida foi marcada por fracassos. Ele falhou em todos os aspectos importantes para o seu mundo, em sua época. Foi incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contactos sociais. Alma atormentada, acometido por frequentes períodos de depressão, aos 37 anos, consumido pela doença mental, suicidou-se, deixando um legado artístico inigualável.
Pierre-Auguste Renoir ( 1841 —1919), um dos mais importantes nomes do movimento impressionista, teve sua obra influenciada pelo sensualismo, pela elegância e delicadeza do estilo rococó. Dentre suas obras uma das mais famosa é o Baile do Moulin de la Galete.
Os últimos 20 anos de vida, Renoir foram marcados por dor contínua e persistente, devido a uma grave forma de artrite reumatóide que o acometeu, limitando consideravelmente sua qualidade de vida. Mesmo assim o artista continuou pintando.
Com a progressiva dificuldade em manejar os pincéis, acabou tendo que amarrá-los às mãos. Com o intuito de buscar outras formas de poder expressar seu espírito criativo, dedicou-se também à modelagem e à escultura, entretento, para isso tendo de contar com o auxílio de dois assistentes Richard Gieino e Louis Morel
Jackson Pollock (1912-1956) refletiu a instabilidade da vida pessoal, dolorosamente consumida pelo alcoolismo, em um universo de traços e pingos luminosos, compondo no caos de imagens aleatórias uma revolução artística, impulsionada obsessivamente por uma alma doente, de dor crônica infinita.
Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas; os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela.
Já a saúde débil de Amedeo Modigliani (1884-1920) foi retratada em pinturas, onde pescoços alongados eram encimados por rostos sem alegria e olhos mortiços em tons de azul e cinza. Refletindo toda a angustia da dor que lhe consumia a alma.
Frida Khalo (1907-1954), mexicana, acometida por poliomielite aos seis anos, sendo esta a primeira de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo de sua vida.
Evoluiu com abortos de repetição e amputações de extremidades (síndrome do anticorpo antifosfolípide?). Sua pintura de traços fortes e coloridos foi-se modificando ao longo de sua curta e atormentada vida. Dor física, acompanhada pelos fortes e controversos sentimentos causados pelo marido, Diego Rivera, também pintor, instigaram-na a produzir uma obra bem representativa dos também tumultuados momentos da história do Mexico.
Dotada de um espírito indômito, refletiu toda a ironia e a dor causada pelos seus males físicos em figuras de cores vivas e trágicas. Sua obra Coluna Partida retrata fielmente o conceito atual de dor crônica funcional – a Fibromialgia.
A esclerose sistêmica é uma doença progressiva, incapacitante e extremamente cruel, porque, além induzir incapacidade progressiva e apresentar desfecho ainda inexorável, promove uma estigmatização estética que segrega também socialmente o paciente por ela acometido.
Paul Klee ( 1879 —1940) acometido pela doença produziu uma obra artística que se transformou radicalmente, à medida que a enfermidade evoluía. Seu desenho de traços firmes e personalísticos, com extrema riqueza de cores, demonstra a influência de várias tendências artísticas diferentes, incluindo o expressionismo, cubismo, orientalismo e surrealismo. Dotada de uma perspectiva por vezes infantil sua pintura representa fielmente sua vida pessoal.
Demitido de sua condição de professor da Academia de Finas Artes de Dusseldorf, em conseqüência da rejeição de sua arte, considerada degenerada, exilou-se em Berna, onde suas pinturas, avançadas para sua época, também inicialmente foram mal interpretadas. Atualmente é considerado um dos maiores mestres de seu tempo,tendo deixado um patrimônio de aproximadamente nove mil obras de arte.
Na música o mesmo cenário se repete, como se a angústia e as dores da alma impulsionassem os diferentes autores a produzir obras imortais.
Franz Liszt (1811-1886) e sua devoção religiosa extremada, como a se penitenciar pela inquietude da alma e da vida pregressa. Intérprete de grande técnica e musicalidade,um dos maiores pianistas de todos, importante compositor,tornou-se benfeitor de várioso outros músicos da época : Chopin , Richard Wagner, Hector Berlioz, Camille Saint-Saëns, Edvard Grieg e Alexander Borodin. Percorreu todas as cortes da Europa,tendo recebido todas as honras destinadas aos grandes artistas.Morreu aos 74 anos após uma pneumonia contraída durante um festival de musica em Bayreuth.
Frederic Chopin ( 1810-1849 ), alma arrebatada e patriota, consumida pelos amores e desvarios trazidos por caminhos tortuosos. Pianista polones e um dos maiores compositores piano da era romântica. É amplamente conhecido dos pianistas mais importantes da história.[] Sua técnica refinada e sua elaboração harmônica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros gênios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje.
Richard Wagner (1813-1883), segregacionista atormentado, criando as raízes da eugenia hitlerista. Compositor, maestro, teórico musical, ensaista e poeta alemão, considerado um dos expoentes do romantismo e dos mais influentes compositores de música erudita já surgidos. Responsável por inúmeras inovações para a música, tanto em termos de composição quanto em termos de orquestração. Como compositor de óperas, criou um novo estilo, grandioso, cuja influência sobre a música da época e posterior foi forte. Como poeta, escreveu o libreto de todas as suas óperas.
Ludwig van Beethoven (1770-1827), misógeno, precocemente acometido por Doença Óssea de Paget que terminou por deixá-lo surdo. Apesar de tudo deixou uma obra monumental, cujas grandes expressões foram compostas, quando a doença já lhe deixara auditivamente incapacitado. Compositor alemão, do período de transição entre o Classicismo (século XVIII) e o Romantismo (século XIX). Desenvolveu a linguagem e o conteúdo musical, sendo um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos. Pregava liberdade política, a liberdade artística do indivíduo, sua liberdade de escolha, de credo e a liberdade individual em todos os aspectos da vida.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) , talvez o mais reconhecido por sua genialidade e extrema leveza e harmonia de sua obra musical. Compositor prolífico e influente do período clássico, autor de mais de 600 obras - tidas como referências da música sinfônica, de concerto, operística, coral, pianística e de câmara.
Mozart mostrou uma habilidade prodigiosa desde a infância. Precocemente revelado, reconhecido e consagrado, também o mais precocemente acometido pela ansiedade, insegurança e alma doentia. Ao longo de sua vida, conquistou fama, porém pouca estabilidade financeira. Seus últimos anos na cidade de Viena produziram algumas de suas sinfonias, concertos e óperas mais conhecidas, além de seu Requiem. Também precoce e tragicamente desaparecido, terminando sua vida miseravelmente só e enterrado em uma vala comum – uma vida apaixonada e incompreendida. As circunstâncias de sua morte prematura foram assunto de diversas histórias e lendas.
Gustav Mahler ( 1860-1911) um dos mais conhecidos regentes austríacos e um dos maiores compositores de sua época, lembrado por ligar a música do século XIX com o período moderno, e por suas grandes sinfonias e ciclo de canções sinfônicas, como, por exemplo, Das Lied von der Erde (A Canção da Terra). Suas obras são geralmente extensas. Prodcurou romper os limites da tonalidade, mantendo na maioria de suas obras um caráter sombrio, algumas vezes ligado ao funesto. Certamente relacionado a seus períodos de angustiada depressão.
Na literatura as figuras imortais também foram forjadas pelas dores da alma e a rejeição inicial de seus pares. As obras literárias mais editadas universalmente depois da Biblia são Dom Quixote de La Mancha, Os Lusíadas e Les miserables.
Miguel de Cervantes e Saavedra, poeta, soldado, sempre teve uma vida de sacrifícios físicos e morais. Caturado por piratas sarracenos viveu anos como escravo. Libertado, retorna à Espanha onde sua obra literária atrai a inveja de seu concorrente, poeta da corte, Lope de Vega que trama sua desgraça e seu encarceramento. Mesmo assim toda a alma da Espanha encontra-se retratada fielmente na figura do esquálido, indômito e generoso Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, sempre disposto a mover céus e terras para defender o próximo e combater o Mal, ainda que este seja representado por dragões e moinhos de vento. Inconscientemente Cervantes retrata em seu personagem sua própria vida e convicções.
Luis Vaz de Camões, também poeta e soldado, compõe seu poema épico Os Lusíadas, narrando toda a epopéia da formação da nação portuguesa durante as grandes navegações, qua acabaram franqueando à Europa regiões como a África a Ásia e as Américas. Alma ardente e apaixonada, Camões igualmente teve uma vida de perdas e sacrifícios. Ferido no olho por uma flexa durante uma batalha, soçobrou em um naufrágio, dele escapando com a roupa do corpo e salvando também o manuscrito de sua maior obra. Alternando momentos de paixão extremada e penúria, sua alma inquieta e sofrida representa igualmente o ardor e bravura dos navegadores portuguese ( As armas e os barões assinalados, / que da ocidental praia lusitana, / por mares nunca dantes navegados,/ passaram inda além da Taprobana. / E em perigos e glórias esforçados, / mais do que prometia a força humana, / entre gente remota edificaram / novo reino que tanto sublimaram./ )
Victor Hugo fez dos Miserables a mais pungente elegia ao perdão e ao amor ao próximo, resgatando os melhores valores humanos. A personificação maniqueísta do Bem – na figura de Jean Valjean e do Mal –o implacável e obstinado Inspetor Javert compõe um cenário imortal.
Sua vida pessoal marcou muito toda a sua obra. Casou-se com uma mulher por quem seu irmão era apaixonado. Em decorrência disso, Eugène, o irmão, enloquece e é internado em um hospício. No ano seguinte enfrentou a morte do primeiro filho e o fracasso literário do livro Hans da Islândia, que não agrada a crítica.
Em 1831 lança seu grande romance histórico, Notre-Dame de Paris, definindo a forma de exploração ficcional do passado que marcou o romantismo francês. O livro narra a história do amor impossível do sineiro corcunda da catedral de Notre Dame de Paris, Quasímodo, pela bailarina cigana Esmeralda e as tramas de ciúme e rancor de Claudio Frollo, o diácono da Notre Dame.
Exila-se após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851, passando a viver em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas, onde sua alma inquita padeceu as agruras da solidão e do desterro.
Propõe uma chamada à liberação das restrições que impunham as tradições do classicismo, compondo o maior manifesto do movimento romântico na literatura francesa. Justifica a necessidade de romper com as amarras e restrições do formalismo clássico para poder então refletir a extensão plena da natureza humana.
A história da arte, em suas várias épocas, sempre demonstrou que as grandes produções e também as mais diferentes formas de criatividade, muito frequentemente estiveram associadas ao sofrimento mais moral do que físico do artista, seja na pintura, na música, na escultura – as mais grandiosas expressões do espírito humano.
Assim, compreende-se que vencer a dor crônica,significa muito mais que tratar a doença ou sua condição determinante. Superar as dores da alma pode engrandecer o espírito humano. Abrir o portal de um novo horizonte, construir um futuro melhor. Forjar as razões e as raízes de uma vida futura.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A Dor como instrumento de purificação religiosa na Idade Média e no Renascimento
Durante toda a Idade Média a civilização atravessou uma longa fase de adormecimento cultural, onde o conhecimento humano ligou-se essencialmente ao sentimento religioso, quando não, mágico e mítico.
Embora a era medieval seja um período histórico muito definido ( desde o fim do Império Romano até a queda de Constantinopla em 1453), o espírito medieval atravessou as épocas posteriores.
Nesta época a tortura e o sofrimento infringido ao corpo humano eram considerados instrumentos de purificação da alma. Algumas técnicas de torturas medievais, tais como empalamento, esfolamento, perfuração, despedaçamento, ingestão de água fervente, e evisceramento, dentre outras, tinham como objetivo prolongar indefinidamente a dor e agonia, marcando indelevelmente a alma do supliciado.
A purificação da alma exigia o sofrimento físico e também o da alma. Assim procedia a Igreja, na época poder mais temporal do que espiritual. E para mantê-lo,criou a Santa Inquisição, cujas atrocidades cometidas em nome da consagração da alma, até hoje são repudiadas como o mais negro período da história da religião.
O próprio destino, ou melhor a realidade histórica, contribuiu para que o período medieval fosse irremediavelmente doloroso para o homem.
Em meados do século XIV, a peste negra devastou a população europeia. Calcula-se que aproximadamente um terço dos europeus morreu nesta época, seja pela doença, seja pela fome.
A peste responsável pela epidemia do século XIV surge durante o cerco às colonias de Génova e Caffa, na Crimeia, atual Ucrânia, em 1347 pelos tártaros descendentes dos mongóis, na época auxiliados pelos venezianos. A doença matou tantos tártaros que foram obrigados a levantar o cêrco e retirar-se, não sem antes contaminar a cidade. Os habitantes, ceifados pela epidemia, tiveram que ser queimados em piras, já que não havia mão de obra suficiente para enterrá-los.
Constantinopla teria sido infectada na mesma época. Vários navios genoveses fugiram da peste, indo atracar nos portos de Messina, Génova, Marselha e Veneza, com os porões cheios dos cadáveres dos marinheiros e infestados de ratos.
A peste bubônica era causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao homem através das pulgas (Xenopsylla cheopis) dos ratos-pretos (Rattus rattus) ou outros roedores, que chegavam à Europa nos porões dos navios vindos do Oriente.
Bocaccio (1313- 1375) importante humanista florentino, autor de um número notável de obras, incluindo Decamerão, o poema alegórico Visão Amorosa (Amorosa visione) e De claris mulieribus, uma série de biografias de mulheres ilustres, descreveu assim os sintomas da peste: "Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais".
As cidades medievais tinham condições higiênicas e sanitárias extremamente precárias, e assim, os ratos se espalharam facilmente. Após o contato inicial os enfermos tinham poucos dias de vida. Febre, mal-estar e bolhas de sangue e pus espalhavam-se pelo corpo, principalmente nas axilas e virilhas.
Este intenso sofrimento físico e espiritual, como ocorre sempre nas rtelações humanas, trouxe oportunidades para que os sobreviventes do povo, pequena nobreza e burguesia se aproveitassem da desdita, adquirindo ou aumentando sua riqueza, provavelmente pela usurpação dos bens dos falecidos,ou ainda por aumento dos salários, devido à diminuição da mão-de-obra e descida dos preços das terras e das rendas.
Também nessa época, como reação social e cultural à peste, as perseguições às minorias aumentaram drasticamente, e especialmente contra os judeus. O fanatismo religioso que se apossou das populações aterrorizadas em muito contribuiu para a acusação e perseguição ao povo hebreu. E com isso, determinando em meio às atrocidades físicas, imenso sofrimento moral.
Os judeus tornaram-se suspeitos quando, devido ao cumprimento rigoroso das leis talmúdicas de higiene e também pela maior competência dos médicos judeus, as suas vítimas foram menos numerosas que as das comunidades cristãs.
Os cristãos se amotinaram, facilmente incitados pelos cléricos locais, promovendo mais de 150 massacres. Dezenas de comunidades judaicas menores foram exterminadas, e essa perseguição promoveu sua emigração em massa para a Polónia e para a Rússia.
Embora não haja qualquer relação entre hanseníase e a peste bubônica, os leprosos também foram perseguidos, culpados como os judeus de disseminar a doença. E também inclementemente perseguidos.
A partir dessa concepção da enfermidade estar ligada à punição divina, vários movimentos religiosos surgiram do terror que alimentava o misticismo e descredibilizava as formas religiosas mais tradicionais.
Um desses movimentos – os flagelantes – acreditava que a auto-martirização e dor física, purificando a alma, eram medidas preventivas para a peste, enquanto acirradamente se lançavam a uma fanática perseguição fanática aos judeus, leprosos e outras minorias.
Contudo, em meio à dor e à irracionalidade, muitos médicos, ainda sem qualquer conhecimento em relação à peste, se dispuseram a atender os enfermos, ainda que com risco da própria vida. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais para evitar a contaminação. Prescreviam à distância e lancetavam as lesões com facas de até 1,80 m de comprimento.
Da Península Itálica, a peste espalhou-se pelo resto da Europa, atingindo a Grã-Bretanha e Portugal em 1348 e finalmente a Escandinávia em 1350.
Algumas zonas foram inexplicavelmente poupadas, como Milão e a Polônia, fato que reforçava a crença de que a doença era atribuída à punição divina, principalmente quando a população se afastava das práticas religiosas ou das pregações da Igreja.
Foi somente no século I é que Rufus de Éfeso, um médico grego, elaborou uma descrição mais clara de peste na Líbia, Egipto e Síria. Descreveu os bubos duros, febre alta, dor e delírio já relatados pelos seus colegas Dioscorides e Posidonius nessas regiões.
Entretanto, O primeiro investigador a considerar a peste negra uma doença infecciosa foi Rhases, um médico árabe, no século X. As primeiras medidas eficazes de saúde pública foram tomadas nos portos do Mediterrâneo. Estas consistiram em evitar que os navios vindos do Oriente ancorassem nos portos, decretando períodos de quarentena. Migraçõesentre as diferentes cidades tambémforam proibidas, mantendo-se um período de quarentena de pelo menos 60 dias, nos quais as pessoas deveriam provar que não estavam infectadas.
Não bastassem as decorrências da peste e outras doenças, a Medicina da Idade Média era extremamente precária, dado que a própria investigação anatômica já era considerada uma forma de heresia, condenada pela Igreja e dramaticamente perseguida pela Inquisição. Essas instituições atrasaram secularmente o desenvolvimento da arte médica na Europa.
Este fato explicava porque os cirurgiões da época quase desconheciam totalmente a anatomia humana, nada sabiam sobre antissépticos, que fizessem com que as feridas não infeccionassem, e sobre anestésicos. A analgesia era provocada geralmente por procedimentos que provocassem outra dor maior.
No período medieval, na maioria dos casos, monges se tornavam cirurgiões, já que eles eram os únicos a ter acesso à literatura sobre medicina. No entanto, em 1215, um decreto papal proibiu esse tipo de atividade, que passou a ser feita por camponeses, pela sua experiência em tratar os animais.
Por isso a cirurgia na idade média era usada somente em casos extremos de vida ou morte. Não havia anestésico “confiável” que pudesse aliviar a dor de qualquer procedimento cirúrgico. Algumas poções usadas para amortecer o paciente ou induzir o sono podiam ser letais. Por exemplo, o Dwale, uma mistura de suco de alho, suco de cicuta, ópio, vinagre e vinho que era dado ao paciente antes de uma cirurgia. Eventualmente provocava parada respiratória e morte.
Tratamentos medievais, normalmente, eram uma mistura de fatos baseados em uma observação científica precária e incipiente, associada a crenças pagãs e imposições religiosas. As maiores contribuições àmedicina da época vieram do Oriente através dos navios que atracavam em Veneza.
Quando alguém contraía a peste bubônica, deveria passar por um período de penitência e absolvido por um padre. Como a doença era vista como um castigo de Deus, se o paciente admitisse seus pecados, talvez sua vida fosse poupada.
A sífilis e outras enfermidades sexualmente transmissíveis ainda praticamente desconhecidas como doenças infecciosas, eram consideradas como relacionadas a distúrbios da moralidade e da alma. Como causavam com frequencia bloqueio do fluxo da urina, inseria-se, como tratamento, um tubo de metal na bexiga através da uretra, causando namaioria dos casos mais prejuízo que recuiperação, isto por volta do ano 1300.
Os médicos da Idade Média achavam que praticamente todas as doenças eram causadas por excesso de líquido no corpo. Então a solução eram as sangrias - tirar o sangue dos pacientes. Ou usando sanguessugas ou lancetando os vasos superficiais do braço.
A gravidez era tão mortal que a Igreja pedia que as grávidas se preparassem espiritualmente para morrer no parto. Em várias regiões parteiras mais experientes foram perseguidas como bruxas, já que usavam métodos para aliviar a dor de suas pacientes. Quando um bebê estava morto no útero, uma faca era usada para que ele fosse desmembrado ainda na barriga da mãe, para facilitar a retirada do feto.
Não é portanto exagerado afirmar que na Idade Média dores da alma e dores físicas coexistiram quase continuamente. Interando-se ou até justificando-se mutuamente.
*
Entretanto a redenção deste entendimento pobre e sofrido da alma humana, conduzida a dores extremas, chega com o Renascimento.
Este fundamentou-se no humanismo, na valorização de matérias que envolviam a vida humana, como matemática, física, línguas, história, astronomia e filosofia.
Ressurge a paixão pelos clássicos gregos e a valorização das qualidades humanas. Mantendo a idéia da criação divina do homem e da terra, mudou, entretanto, o conceito de que a terra fosse um local de sofrimento, como no pensamento medieval.
O Renascimento foi um movimento urbano, visto que foi efetivamente apoiado pelo pensamento burguês, sem se apoiar no da Igreja, na época retrógrada e discriminatória.
Era a expressão do povo que habitava as cidades livres. Os primeiros focos renascentistas foram nas cidades italianas: Veneza, Pisa, Gênova e Florença, que viviam principalmente do comércio. Estas cidades receberam uma forte influência dos sábios bizantinos, que haviam fugido de Bizâncio, devido aos conflitos religiosos, entrando na Europa através de Veneza.
Em 1450, Johannes Gutenberg, criou a impressão mecânica, através do uso de tipos móveis de metal. Essa invenção facilitou a democratização do acesso ao conhecimento através dos livros, já que até então toda a cultura era transcrita em pergaminhos pelos copistas medievais, monges que, reclusos em mosteiros desenvolviam trabalho artesanal primoroso, contudo, lento e de acesso apenas para os ricos e poderosos.
E então na aristocrática Florença, na fase pré renascentista, Dante Alighieri – a voz dos séculos silenciosos, o primeiro e maior poeta da língua italiana, na escuridão cultural da Idade Média – magistralmente descreveu o sofrimento e a dor na Divina Comédia, em todos os nove círculos de seu Inferno, associando também o sofrimento físico à agonia e à dor espiritual.
Redigido entre 1307 a 1321, o poema mostra o poeta perdido na selva do pecado, sendo guiado pela razão (personificada por Virgílio, o poeta grego) nos três reinos do Além, percorrendo um a um os nove círculos do Inferno, reconhecendo toda a dor contida em cada um, para depois se penitenciar no Purgatório, e, resgatado pela fé e pelo amor, ser conduzido aos nove céus concebidos por Ptolomeu. Uma simbólica escalada rumo à esperança, descrita em uma obra prima da literatura, repleta de ricas metáforas, mesclando significados metafísicos, políticos e sociais.
Estruturalmente composto por cem cantos, com versos apresentados em tercetos, revela fielmente a força da dor alegoricamente descrita nos castigos infernais.
Pessoalmente Dante conheceu intimamente as dores da alma. Enamorou-se perdidamente de Beatrice Portinari, para quem escreveu os mais belos versos de amor da época, amor platônico que o acompanhou durante toda a vida.
A partir das luzes do Renascimento a tradição da linguagem escrita se impõe, e a divulgação das diferentes doutrinas espirituais se populariza, sempre de alguma maneira procurando ligar a figura da divindade e seu relacionamento com os homens, através de dois sentimentos: amor e dor.
Mas toda a reestruturação do conhecimento humano produzida pelo Renascimento, que em sua evolução promoveu a cicatrização, ainda que incompleta, das dores da alma intensificadas na Idade Média, não foi desprovida de sacrifícios.
Principalmente porque os procedimentos inclementes do Santo Oficio e da Contra Reforma implacavelmente promoveram uma onda de sacrifício de vidas somente ultrapassada pela peste negra. E fundamentalmente apoiada apenas pela intolerância religiosa.
De grande importância na época para o desenvolvimento do conhecimento humano surgiram os mecenas, nobres ricos que patrocinavam os artistas renascentistas. Seja como forma de ajuda, investimento pessoal ou para adquirir prestígio social. Alguns mecenas destacados foram: os Médicis em Florença e os Sforza em Milão.
Lourenço de Médici (Florença,1449–Careggi1492): estadista italiano, administrador da República de Florença durante o Renascimento italiano, notabilizou-sepor atuar como diplomata, político e patrono de acadêmicos, artistas e poetas, exatamente por isso conhecido como Lourenço, o Magnífico, e um dos pilares do movimento enascentista na Itália.
Sua morte marcou o fim da chamada Idade de Ouro de Florença. Depois de sua morte a frágil paz que ele ajudou a construir entre as diversas cidades estados italianas entrou em em colapso.
Mesmo assim sua administração não foi pacífica. O papa Sisto IV,inimigo da familia Medici,instigou através dos sues banqueiros –os Salviatti – uma conspiração liderada pela familia Pazzi. Foi feito um plano para matar os dois irmãos Médici no Duomo de Florença, durante a missa, em 26 de abril, um domingo de Páscoa. Juliano morreu, Lourenço escapou, embora ferido, salvo pelo poeta Poliziano, que o trancou na sacristia.
Francesco Salviatti, arcebispo de Pisa, ao cabo da mal sucedida conjura, acabou sendo com seus aliados linchado pela população florentina. Pela morte de Salviatti e dos Pazzi um decreto papal interditou a cidade de Florença. Mas a coragem e o talento diplomático de Lourenço, expondo sua própria vida, fizeram com que seus opositores Fernando I, rei de Nápoles e o próprio papa aceitassem uma paz que mantinha Florença ainda em uma posição de dignidade e favorecedora da manutenção de uma república governada por cidadãos livres e iguais.
Verdadeiro mecenas, foi o impulsor da primeiras imprensa italiana, que disseminou democraticamente o movimento renascentista. Este rejeitava a ciência escolástica ( fusão do aristotelismo com a teologia da época ) para valorizar a pesquisa e a busca do sentido da vida, colocando o homem no centro do Universo ( humanismo clássico).
Seu palácio tornou-se o centro cultural, resgatando a arte antiga greco-latina e promovendo o florescimento da cultura renascentista. Os maiores artistas, cientistas e literatos frequentavam a sua corte. Mas Lourenço também participava ativamente como escritor e pota de recursos consideráveis. Os filósofos Marsílio Ficino e Pico della Mirandola, os poetas Pulci e Poliziano e grandes artistas como Botticelli e Ghirlandaio, eram seus hóspedes habituais. Até mesmo Michelangelo iniciou seus estudos nos ateliês patrocinados por Lourenço.
Toda essa ativa proteção e estímulo às artes do Renascimento, e também pelas festas suntuosas e gastos excessivos puseram em perigo a fortuna dos Médici, e despertando a ira de Jerônimo Savonarola.
Dotado de grande inteligência, governou em um clima de prosperidade pública, aumentando a influência de sua família por toda a Itália, e manteve as instituições republicanas em Florença, ainda que só na aparência. Na verdade, Lourenço foi virtualmente um tirano. Utilizava-se de espiões, interferia na vida privada dos cidadãos mas conseguiu levar o comércio e a indústria de Florença a um nível superior ao de qualquer outra cidade da Europa.
Girolamo ou Jerônimo Savonarola (Ferrara 1452 — Florença, 1498),reformador dominicano veio de uma antiga e tradicional família de Ferrara, tendo devotado sua vida aos estudos da filosofia e medicina. Sentindo profundamente a perda de valores religiosos, trazida pela ideologia do Renascimento, ao mesmo tempo por um zelo intenso para com a salvação das almas, dispos-se a arriscar tudo a fim de combater as fraquezas humanas. Criticava ferozmente a imoralidade, a vida de prazeres dos florentinos, exortando a população para retornar à vida pautada na virtude cristã. Seus sermões e sua personalidade causavam um profundo impacto na população.
Intensificou suas críticas voltando-as contra os abusos na vida eclesiástica da época, da imoralidade de grande parte do clero e muitos membros da Cúria romana, príncipes e cortesãos. O papa para fazer calar o inconveniente pregador, ofereceu-lhe o título de de cardeal.
Mas isso não era nenhum atrativo para Savonarola. Recebeu o oferecimento com indignação, e declarou que o único barrete encarnado que ele ambicionava era aquele que fosse tinto com o sangue do martírio.
Passou a denunciar os crimes do Vaticano, através de sermões apaixonados e apaixonantes que motivaram como reação da Igreja sua excomunhão, e posteriormente sua prisão e morte. Foi condenado à morte em 1498, torturado e, em 25 de maio, morreu queimado na Piazza della Signoria em Florença. Constituiu-se em um dos maiores precursores da Reforma Religiosa ( século XVI).
O grande mártir do Renascimento foi Giordano Bruno (1548-1600). Ingressou na Ordem Dominicana onde estudou profundamente a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, doutorando-se em Teologia.
Foi o primeiro filósofo a afirmar que deveria haver vida em outros lugares do Universo,baseado no atomismo de Demócrito. Filósofo, astrônomo e matemático foi um dos maiores pensadores do século XVI e um dos precursores da ciência moderna.
Expulso da ordem dos Dominicanos por suas idéias conflitantes com a ortodoxia religiosa, disseminou-as por toda a Europa. Sempre contestador, não tarda a atrair contra si próprio opiniões contrárias e perseguições.
Suas teorias chocavam-se contra o antropomorfismo e a Santa Trindade, principais dogmas do catolicismo, pelo que foi acusado de heresia.
Inicia, então, uma peregrinação que marcou sua vida, visitando Gênova, Toulouse, Paris e Londres.
Suas idéias metafísicas eram monistas e imanentistas, admitindo que acima de um deus imanente (a "alma do mundo"), haveria um deus transcendente, só apreendido pela fé, mas uma fé inteiramente naturalista, bem diversa da fé católica da época.
Ao contrário do que se pensa comumente, Giordano Bruno não foi queimado na fogueira por defender o heliocentrismo de Copérnico. Sua luta política voltava-se para o estabelecimento de uma sociedade pacífica, com a união entre os cristãos católicos e protestantes.
Propunha um “novo homem”, marcado pela liberdade de pensamento e pela tolerância religiosa.
Um dos pontos chaves de sua teoria é a cosmologia, segundo a qual o universo seria infinito, povoado por uma infinidade de estrelas como o Sol com outros planetas como a Terra contendo igualmente vida inteligente.
Por estas opiniões quentes e perigosas para a época, Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição.
No último interrogatório, não se submetendo à intransigênciada Inquisição, e, mostrando força e coragem, por não abjurar, é condenado à morte na fogueira, com tábua e pregos na língua, para parar de blasfemar. Afinal, além de um espirito privilegiado, possuia o perigoso dom da eloquëncia.
Mas calar a voz de Giordano Bruno nao foi suficiente para interromper a escalada do Homem em busca de um ideal de progressão espiritual.
Essa progressão fundamentou-se principalmente nos exemplos da extrema dedicação a um ideal construtivo, quase sacrifício, de Buda, Maomé, Jesus Cristo, dos apóstolos e mártires do Cristianismo.
Através desses exemplos a dor tornou-se, não mais o instrumento da punição divina, não mais o resgate de opiniões criticadas pela intransigência da Igreja, mas agora da purificação espiritual, através do poder do amor universal.
Esse entendimento permanece até os dias atuais.
E desta maneira, porque não, até um caminho paradoxal para o prazer...
( CONTINUA )
Embora a era medieval seja um período histórico muito definido ( desde o fim do Império Romano até a queda de Constantinopla em 1453), o espírito medieval atravessou as épocas posteriores.
Nesta época a tortura e o sofrimento infringido ao corpo humano eram considerados instrumentos de purificação da alma. Algumas técnicas de torturas medievais, tais como empalamento, esfolamento, perfuração, despedaçamento, ingestão de água fervente, e evisceramento, dentre outras, tinham como objetivo prolongar indefinidamente a dor e agonia, marcando indelevelmente a alma do supliciado.
A purificação da alma exigia o sofrimento físico e também o da alma. Assim procedia a Igreja, na época poder mais temporal do que espiritual. E para mantê-lo,criou a Santa Inquisição, cujas atrocidades cometidas em nome da consagração da alma, até hoje são repudiadas como o mais negro período da história da religião.
O próprio destino, ou melhor a realidade histórica, contribuiu para que o período medieval fosse irremediavelmente doloroso para o homem.
Em meados do século XIV, a peste negra devastou a população europeia. Calcula-se que aproximadamente um terço dos europeus morreu nesta época, seja pela doença, seja pela fome.
A peste responsável pela epidemia do século XIV surge durante o cerco às colonias de Génova e Caffa, na Crimeia, atual Ucrânia, em 1347 pelos tártaros descendentes dos mongóis, na época auxiliados pelos venezianos. A doença matou tantos tártaros que foram obrigados a levantar o cêrco e retirar-se, não sem antes contaminar a cidade. Os habitantes, ceifados pela epidemia, tiveram que ser queimados em piras, já que não havia mão de obra suficiente para enterrá-los.
Constantinopla teria sido infectada na mesma época. Vários navios genoveses fugiram da peste, indo atracar nos portos de Messina, Génova, Marselha e Veneza, com os porões cheios dos cadáveres dos marinheiros e infestados de ratos.
A peste bubônica era causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao homem através das pulgas (Xenopsylla cheopis) dos ratos-pretos (Rattus rattus) ou outros roedores, que chegavam à Europa nos porões dos navios vindos do Oriente.
Bocaccio (1313- 1375) importante humanista florentino, autor de um número notável de obras, incluindo Decamerão, o poema alegórico Visão Amorosa (Amorosa visione) e De claris mulieribus, uma série de biografias de mulheres ilustres, descreveu assim os sintomas da peste: "Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas de cor negra ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais".
As cidades medievais tinham condições higiênicas e sanitárias extremamente precárias, e assim, os ratos se espalharam facilmente. Após o contato inicial os enfermos tinham poucos dias de vida. Febre, mal-estar e bolhas de sangue e pus espalhavam-se pelo corpo, principalmente nas axilas e virilhas.
Este intenso sofrimento físico e espiritual, como ocorre sempre nas rtelações humanas, trouxe oportunidades para que os sobreviventes do povo, pequena nobreza e burguesia se aproveitassem da desdita, adquirindo ou aumentando sua riqueza, provavelmente pela usurpação dos bens dos falecidos,ou ainda por aumento dos salários, devido à diminuição da mão-de-obra e descida dos preços das terras e das rendas.
Também nessa época, como reação social e cultural à peste, as perseguições às minorias aumentaram drasticamente, e especialmente contra os judeus. O fanatismo religioso que se apossou das populações aterrorizadas em muito contribuiu para a acusação e perseguição ao povo hebreu. E com isso, determinando em meio às atrocidades físicas, imenso sofrimento moral.
Os judeus tornaram-se suspeitos quando, devido ao cumprimento rigoroso das leis talmúdicas de higiene e também pela maior competência dos médicos judeus, as suas vítimas foram menos numerosas que as das comunidades cristãs.
Os cristãos se amotinaram, facilmente incitados pelos cléricos locais, promovendo mais de 150 massacres. Dezenas de comunidades judaicas menores foram exterminadas, e essa perseguição promoveu sua emigração em massa para a Polónia e para a Rússia.
Embora não haja qualquer relação entre hanseníase e a peste bubônica, os leprosos também foram perseguidos, culpados como os judeus de disseminar a doença. E também inclementemente perseguidos.
A partir dessa concepção da enfermidade estar ligada à punição divina, vários movimentos religiosos surgiram do terror que alimentava o misticismo e descredibilizava as formas religiosas mais tradicionais.
Um desses movimentos – os flagelantes – acreditava que a auto-martirização e dor física, purificando a alma, eram medidas preventivas para a peste, enquanto acirradamente se lançavam a uma fanática perseguição fanática aos judeus, leprosos e outras minorias.
Contudo, em meio à dor e à irracionalidade, muitos médicos, ainda sem qualquer conhecimento em relação à peste, se dispuseram a atender os enfermos, ainda que com risco da própria vida. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais para evitar a contaminação. Prescreviam à distância e lancetavam as lesões com facas de até 1,80 m de comprimento.
Da Península Itálica, a peste espalhou-se pelo resto da Europa, atingindo a Grã-Bretanha e Portugal em 1348 e finalmente a Escandinávia em 1350.
Algumas zonas foram inexplicavelmente poupadas, como Milão e a Polônia, fato que reforçava a crença de que a doença era atribuída à punição divina, principalmente quando a população se afastava das práticas religiosas ou das pregações da Igreja.
Foi somente no século I é que Rufus de Éfeso, um médico grego, elaborou uma descrição mais clara de peste na Líbia, Egipto e Síria. Descreveu os bubos duros, febre alta, dor e delírio já relatados pelos seus colegas Dioscorides e Posidonius nessas regiões.
Entretanto, O primeiro investigador a considerar a peste negra uma doença infecciosa foi Rhases, um médico árabe, no século X. As primeiras medidas eficazes de saúde pública foram tomadas nos portos do Mediterrâneo. Estas consistiram em evitar que os navios vindos do Oriente ancorassem nos portos, decretando períodos de quarentena. Migraçõesentre as diferentes cidades tambémforam proibidas, mantendo-se um período de quarentena de pelo menos 60 dias, nos quais as pessoas deveriam provar que não estavam infectadas.
Não bastassem as decorrências da peste e outras doenças, a Medicina da Idade Média era extremamente precária, dado que a própria investigação anatômica já era considerada uma forma de heresia, condenada pela Igreja e dramaticamente perseguida pela Inquisição. Essas instituições atrasaram secularmente o desenvolvimento da arte médica na Europa.
Este fato explicava porque os cirurgiões da época quase desconheciam totalmente a anatomia humana, nada sabiam sobre antissépticos, que fizessem com que as feridas não infeccionassem, e sobre anestésicos. A analgesia era provocada geralmente por procedimentos que provocassem outra dor maior.
No período medieval, na maioria dos casos, monges se tornavam cirurgiões, já que eles eram os únicos a ter acesso à literatura sobre medicina. No entanto, em 1215, um decreto papal proibiu esse tipo de atividade, que passou a ser feita por camponeses, pela sua experiência em tratar os animais.
Por isso a cirurgia na idade média era usada somente em casos extremos de vida ou morte. Não havia anestésico “confiável” que pudesse aliviar a dor de qualquer procedimento cirúrgico. Algumas poções usadas para amortecer o paciente ou induzir o sono podiam ser letais. Por exemplo, o Dwale, uma mistura de suco de alho, suco de cicuta, ópio, vinagre e vinho que era dado ao paciente antes de uma cirurgia. Eventualmente provocava parada respiratória e morte.
Tratamentos medievais, normalmente, eram uma mistura de fatos baseados em uma observação científica precária e incipiente, associada a crenças pagãs e imposições religiosas. As maiores contribuições àmedicina da época vieram do Oriente através dos navios que atracavam em Veneza.
Quando alguém contraía a peste bubônica, deveria passar por um período de penitência e absolvido por um padre. Como a doença era vista como um castigo de Deus, se o paciente admitisse seus pecados, talvez sua vida fosse poupada.
A sífilis e outras enfermidades sexualmente transmissíveis ainda praticamente desconhecidas como doenças infecciosas, eram consideradas como relacionadas a distúrbios da moralidade e da alma. Como causavam com frequencia bloqueio do fluxo da urina, inseria-se, como tratamento, um tubo de metal na bexiga através da uretra, causando namaioria dos casos mais prejuízo que recuiperação, isto por volta do ano 1300.
Os médicos da Idade Média achavam que praticamente todas as doenças eram causadas por excesso de líquido no corpo. Então a solução eram as sangrias - tirar o sangue dos pacientes. Ou usando sanguessugas ou lancetando os vasos superficiais do braço.
A gravidez era tão mortal que a Igreja pedia que as grávidas se preparassem espiritualmente para morrer no parto. Em várias regiões parteiras mais experientes foram perseguidas como bruxas, já que usavam métodos para aliviar a dor de suas pacientes. Quando um bebê estava morto no útero, uma faca era usada para que ele fosse desmembrado ainda na barriga da mãe, para facilitar a retirada do feto.
Não é portanto exagerado afirmar que na Idade Média dores da alma e dores físicas coexistiram quase continuamente. Interando-se ou até justificando-se mutuamente.
*
Entretanto a redenção deste entendimento pobre e sofrido da alma humana, conduzida a dores extremas, chega com o Renascimento.
Este fundamentou-se no humanismo, na valorização de matérias que envolviam a vida humana, como matemática, física, línguas, história, astronomia e filosofia.
Ressurge a paixão pelos clássicos gregos e a valorização das qualidades humanas. Mantendo a idéia da criação divina do homem e da terra, mudou, entretanto, o conceito de que a terra fosse um local de sofrimento, como no pensamento medieval.
O Renascimento foi um movimento urbano, visto que foi efetivamente apoiado pelo pensamento burguês, sem se apoiar no da Igreja, na época retrógrada e discriminatória.
Era a expressão do povo que habitava as cidades livres. Os primeiros focos renascentistas foram nas cidades italianas: Veneza, Pisa, Gênova e Florença, que viviam principalmente do comércio. Estas cidades receberam uma forte influência dos sábios bizantinos, que haviam fugido de Bizâncio, devido aos conflitos religiosos, entrando na Europa através de Veneza.
Em 1450, Johannes Gutenberg, criou a impressão mecânica, através do uso de tipos móveis de metal. Essa invenção facilitou a democratização do acesso ao conhecimento através dos livros, já que até então toda a cultura era transcrita em pergaminhos pelos copistas medievais, monges que, reclusos em mosteiros desenvolviam trabalho artesanal primoroso, contudo, lento e de acesso apenas para os ricos e poderosos.
E então na aristocrática Florença, na fase pré renascentista, Dante Alighieri – a voz dos séculos silenciosos, o primeiro e maior poeta da língua italiana, na escuridão cultural da Idade Média – magistralmente descreveu o sofrimento e a dor na Divina Comédia, em todos os nove círculos de seu Inferno, associando também o sofrimento físico à agonia e à dor espiritual.
Redigido entre 1307 a 1321, o poema mostra o poeta perdido na selva do pecado, sendo guiado pela razão (personificada por Virgílio, o poeta grego) nos três reinos do Além, percorrendo um a um os nove círculos do Inferno, reconhecendo toda a dor contida em cada um, para depois se penitenciar no Purgatório, e, resgatado pela fé e pelo amor, ser conduzido aos nove céus concebidos por Ptolomeu. Uma simbólica escalada rumo à esperança, descrita em uma obra prima da literatura, repleta de ricas metáforas, mesclando significados metafísicos, políticos e sociais.
Estruturalmente composto por cem cantos, com versos apresentados em tercetos, revela fielmente a força da dor alegoricamente descrita nos castigos infernais.
Pessoalmente Dante conheceu intimamente as dores da alma. Enamorou-se perdidamente de Beatrice Portinari, para quem escreveu os mais belos versos de amor da época, amor platônico que o acompanhou durante toda a vida.
A partir das luzes do Renascimento a tradição da linguagem escrita se impõe, e a divulgação das diferentes doutrinas espirituais se populariza, sempre de alguma maneira procurando ligar a figura da divindade e seu relacionamento com os homens, através de dois sentimentos: amor e dor.
Mas toda a reestruturação do conhecimento humano produzida pelo Renascimento, que em sua evolução promoveu a cicatrização, ainda que incompleta, das dores da alma intensificadas na Idade Média, não foi desprovida de sacrifícios.
Principalmente porque os procedimentos inclementes do Santo Oficio e da Contra Reforma implacavelmente promoveram uma onda de sacrifício de vidas somente ultrapassada pela peste negra. E fundamentalmente apoiada apenas pela intolerância religiosa.
De grande importância na época para o desenvolvimento do conhecimento humano surgiram os mecenas, nobres ricos que patrocinavam os artistas renascentistas. Seja como forma de ajuda, investimento pessoal ou para adquirir prestígio social. Alguns mecenas destacados foram: os Médicis em Florença e os Sforza em Milão.
Lourenço de Médici (Florença,1449–Careggi1492): estadista italiano, administrador da República de Florença durante o Renascimento italiano, notabilizou-sepor atuar como diplomata, político e patrono de acadêmicos, artistas e poetas, exatamente por isso conhecido como Lourenço, o Magnífico, e um dos pilares do movimento enascentista na Itália.
Sua morte marcou o fim da chamada Idade de Ouro de Florença. Depois de sua morte a frágil paz que ele ajudou a construir entre as diversas cidades estados italianas entrou em em colapso.
Mesmo assim sua administração não foi pacífica. O papa Sisto IV,inimigo da familia Medici,instigou através dos sues banqueiros –os Salviatti – uma conspiração liderada pela familia Pazzi. Foi feito um plano para matar os dois irmãos Médici no Duomo de Florença, durante a missa, em 26 de abril, um domingo de Páscoa. Juliano morreu, Lourenço escapou, embora ferido, salvo pelo poeta Poliziano, que o trancou na sacristia.
Francesco Salviatti, arcebispo de Pisa, ao cabo da mal sucedida conjura, acabou sendo com seus aliados linchado pela população florentina. Pela morte de Salviatti e dos Pazzi um decreto papal interditou a cidade de Florença. Mas a coragem e o talento diplomático de Lourenço, expondo sua própria vida, fizeram com que seus opositores Fernando I, rei de Nápoles e o próprio papa aceitassem uma paz que mantinha Florença ainda em uma posição de dignidade e favorecedora da manutenção de uma república governada por cidadãos livres e iguais.
Verdadeiro mecenas, foi o impulsor da primeiras imprensa italiana, que disseminou democraticamente o movimento renascentista. Este rejeitava a ciência escolástica ( fusão do aristotelismo com a teologia da época ) para valorizar a pesquisa e a busca do sentido da vida, colocando o homem no centro do Universo ( humanismo clássico).
Seu palácio tornou-se o centro cultural, resgatando a arte antiga greco-latina e promovendo o florescimento da cultura renascentista. Os maiores artistas, cientistas e literatos frequentavam a sua corte. Mas Lourenço também participava ativamente como escritor e pota de recursos consideráveis. Os filósofos Marsílio Ficino e Pico della Mirandola, os poetas Pulci e Poliziano e grandes artistas como Botticelli e Ghirlandaio, eram seus hóspedes habituais. Até mesmo Michelangelo iniciou seus estudos nos ateliês patrocinados por Lourenço.
Toda essa ativa proteção e estímulo às artes do Renascimento, e também pelas festas suntuosas e gastos excessivos puseram em perigo a fortuna dos Médici, e despertando a ira de Jerônimo Savonarola.
Dotado de grande inteligência, governou em um clima de prosperidade pública, aumentando a influência de sua família por toda a Itália, e manteve as instituições republicanas em Florença, ainda que só na aparência. Na verdade, Lourenço foi virtualmente um tirano. Utilizava-se de espiões, interferia na vida privada dos cidadãos mas conseguiu levar o comércio e a indústria de Florença a um nível superior ao de qualquer outra cidade da Europa.
Girolamo ou Jerônimo Savonarola (Ferrara 1452 — Florença, 1498),reformador dominicano veio de uma antiga e tradicional família de Ferrara, tendo devotado sua vida aos estudos da filosofia e medicina. Sentindo profundamente a perda de valores religiosos, trazida pela ideologia do Renascimento, ao mesmo tempo por um zelo intenso para com a salvação das almas, dispos-se a arriscar tudo a fim de combater as fraquezas humanas. Criticava ferozmente a imoralidade, a vida de prazeres dos florentinos, exortando a população para retornar à vida pautada na virtude cristã. Seus sermões e sua personalidade causavam um profundo impacto na população.
Intensificou suas críticas voltando-as contra os abusos na vida eclesiástica da época, da imoralidade de grande parte do clero e muitos membros da Cúria romana, príncipes e cortesãos. O papa para fazer calar o inconveniente pregador, ofereceu-lhe o título de de cardeal.
Mas isso não era nenhum atrativo para Savonarola. Recebeu o oferecimento com indignação, e declarou que o único barrete encarnado que ele ambicionava era aquele que fosse tinto com o sangue do martírio.
Passou a denunciar os crimes do Vaticano, através de sermões apaixonados e apaixonantes que motivaram como reação da Igreja sua excomunhão, e posteriormente sua prisão e morte. Foi condenado à morte em 1498, torturado e, em 25 de maio, morreu queimado na Piazza della Signoria em Florença. Constituiu-se em um dos maiores precursores da Reforma Religiosa ( século XVI).
O grande mártir do Renascimento foi Giordano Bruno (1548-1600). Ingressou na Ordem Dominicana onde estudou profundamente a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, doutorando-se em Teologia.
Foi o primeiro filósofo a afirmar que deveria haver vida em outros lugares do Universo,baseado no atomismo de Demócrito. Filósofo, astrônomo e matemático foi um dos maiores pensadores do século XVI e um dos precursores da ciência moderna.
Expulso da ordem dos Dominicanos por suas idéias conflitantes com a ortodoxia religiosa, disseminou-as por toda a Europa. Sempre contestador, não tarda a atrair contra si próprio opiniões contrárias e perseguições.
Suas teorias chocavam-se contra o antropomorfismo e a Santa Trindade, principais dogmas do catolicismo, pelo que foi acusado de heresia.
Inicia, então, uma peregrinação que marcou sua vida, visitando Gênova, Toulouse, Paris e Londres.
Suas idéias metafísicas eram monistas e imanentistas, admitindo que acima de um deus imanente (a "alma do mundo"), haveria um deus transcendente, só apreendido pela fé, mas uma fé inteiramente naturalista, bem diversa da fé católica da época.
Ao contrário do que se pensa comumente, Giordano Bruno não foi queimado na fogueira por defender o heliocentrismo de Copérnico. Sua luta política voltava-se para o estabelecimento de uma sociedade pacífica, com a união entre os cristãos católicos e protestantes.
Propunha um “novo homem”, marcado pela liberdade de pensamento e pela tolerância religiosa.
Um dos pontos chaves de sua teoria é a cosmologia, segundo a qual o universo seria infinito, povoado por uma infinidade de estrelas como o Sol com outros planetas como a Terra contendo igualmente vida inteligente.
Por estas opiniões quentes e perigosas para a época, Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição.
No último interrogatório, não se submetendo à intransigênciada Inquisição, e, mostrando força e coragem, por não abjurar, é condenado à morte na fogueira, com tábua e pregos na língua, para parar de blasfemar. Afinal, além de um espirito privilegiado, possuia o perigoso dom da eloquëncia.
Mas calar a voz de Giordano Bruno nao foi suficiente para interromper a escalada do Homem em busca de um ideal de progressão espiritual.
Essa progressão fundamentou-se principalmente nos exemplos da extrema dedicação a um ideal construtivo, quase sacrifício, de Buda, Maomé, Jesus Cristo, dos apóstolos e mártires do Cristianismo.
Através desses exemplos a dor tornou-se, não mais o instrumento da punição divina, não mais o resgate de opiniões criticadas pela intransigência da Igreja, mas agora da purificação espiritual, através do poder do amor universal.
Esse entendimento permanece até os dias atuais.
E desta maneira, porque não, até um caminho paradoxal para o prazer...
( CONTINUA )
A Dor como instrumento de punição divina.
A dor sempre acompanhou o homem, desde a sua criação, sendo talvez sua mais fiel companheira. E sempre em todas as épocas dotada de uma carga de simbolismo inerente à história e cultura de cada povo.
Frequentemente a introdução da dor e do sofrimento no destino do Homem esteve ligada ao conceito de punição divina.
Na Mitologia Grega, Prometeu, um semi-deus, por ter roubado o fogo dos céus para entregá-lo aos homens, experimentou a cólera divina de Zeus, no suplício da dor crônica: acorrentado a um penhasco, tinha o fígado continuamente devorado por um abutre, dia a dia, pois o órgão se recompunha diariamente tornando o suplício contínuo.
Já no Gênesis após infringirem os mandamentos divinos Adão e Eva, expulsos do paraíso, aprenderam que a vida deve ser conduzida através de experiências contraditórias como esforço físico, dor e lágrimas. Também com sentimentos negativos como ciúme, violência e sangue – que, acometendo Caim, levou-o ao assassinato do irmão Abel. Decorrente disto a mentira, o remorso e o exílio. O Homem voltando à dor da solidão.
De Caim ao dilúvio, a dor do próprio Criador ao reconhecer a corrupção de sua obra e a necessidade de um novo reinício. A dor maior do Pai, sacrificando seus filhos nas águas revoltas, para que novamente os homens se desenvolvessem com a alma mais purificada e os instintos mais evoluídos, compondo uma criação que deveria ser perfeita.
Os filhos do patriarca sobrevivente Noé repovoaram a terra, e muito depois, num assomo de inacreditável arrogância, decidiram construir uma torre que chegasse aos céus. Novamente a mão do Criador baixou sobre eles, trazendo como veículo de outra lição a dor da surpresa e da decepção de não conseguirem mais se comunicar entre si. E a anarquia gerada pela criação de diferentes idiomas, aqueles que haviam decidido chegar ao céus por sua própria obra, imitando o criador, abandonaram a torre de Babel, dispersaram-se, e com humildade recém-aprendida, iniciaram um longo e penoso recomeço.
A relação do próprio Deus com sua obra sempre foi cercada de exigências de ambas as partes.
A aliança do Homem com Deus sempre foi testada pela angústia e inquietude da alma humana. Temor e receio do desconhecido, gerando o conceito de uma divindade única e suprema, severa e inquisitiva, onipotente e temida.
E em um momento de imperfeição quase humana, o Criador cobra de Abraão, o patriarca, a mesma dor, exigindo o sacrifício de seu filho Isaac, como demonstração de obediência e fé. E assim, também nisso o patriarca cegamente obedeceria ao seu Deus,como testemunho de inabalável crença. Mas no último momento, o anjo enviado pelo próprio Deus, impediria o sacrifício supremo, reconhecendo no patriarca o líder insofismável do povo do Deus Único.
E outra vez a dor - agora do oportunismo e ódio - separa os irmãos Esaú e Jacó. Este, em seu desterro aprende por sua vez a dor da decepção e do amor. Jacó, ameaçado de morte pelo irmão Esaú, enviado pela mãe Rebecca, viajou para a casa de Labão, parente distante. Lá, apaixonou-se por Rachel, filha de Labão, e para casar-se com ela trabalhou, como era então hábito, como pastor durante sete anos.
Mas na noite de núpcias, Labão vestiu Lia, irmã mais velha de Raquel com as roupas nupciais, e entregou-a a Jacó. No dia seguinte, quando Jacó descobriu a trama insidiosa, o matrimônio já tinha sido consumado. Amargando a dor da decepção e do amor não que lhe abrasava a alma, a partir de então trabalhou outros sete anos,para conseguir o direito de enfim se casar com Rachel, sua verdadeira amada. Junto com cada filha, Labão enviou também duas criadas Bila e Zilpa,que posteriormente também, segundo os hábitos vigentes, se tornaram esposas de Jacó.
A dor da decepção e a grandeza deste amor inspiraram Luis de Camões a compor um soneto magistral:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
Enquanto Lia deu à luz quatro filhos em sucessão rápida, Rachel, estéril, não podendo conceber por muitos anos, ofereceu sua criada Bila para o marido. Esta união resultou em dois filhos. Lia que também desejou mais crianças, ofereceu a criada Zilpa à Jacó, e mais dois filhos vieram. Finalmente, depois que Lia pariu outros dois filhos e uma filha, a própria Rachel gerou dois filhos.
Rachel sempre foi a esposa preferida de Jacó, que a amava muito e a ela dedicava a maior parte de seu tempo livre. Raramente Jacó visitava a tenda de Lia. Rachel morreu de complicações de parto, mas antes chamou o menino Benoni (filho de minha dor).
José, o décimo primeiro filho de Jacó, nascido de Raquel, citado no livro do Génesis, no Antigo Testamento, foi o fundador da Tribo de José, constituída, por sua vez, pelas tribos de de Efraim e Manassés, seus filhos.
José sentiu na alma a dor da inveja de seus irmãos, que o percebiam ser o filho predileto do pai. Os irmãos o venderam como escravo a mercadores egípcios, e informaram ao pai sua morte, causando este fato dor insana ao pai. Mas por seus próprios méritos, José caiu nas graças do vizir do faraó, Potifar, tornando-se seu braço direito. Mas, por resistir com dignidade ao assédio sexual da mulher de Potifar, foi por ela acusado e lançado na prisão.
Um dia, o Faraó teve um sonho profético no qual sete vacas magras comiam sete vacas gordas e mesmo assim continuavam magras. Para explicar seu sonho, ele convocou todos os sacerdotes do Egito para decifra-lo. Nenhum desses conseguiu, então o copeiro-chefe se lembrou do escravo na prisão, José, que tinha decifrado seu sonho e indicou-o ao Faraó que, chamando-o, ouviu a interpretação do sonho, pela o Egito passaria por sete anos de fartura e outros sete de seca.
Com isso, tornou-se José o conselheiro do faraó e grande da corte. Mais tarde, perdoando seus irmãos, chamou-os para com ele viverem no Egito, iniciando um novo ciclo de vida e, posteriormente servidão para o povo de Israel.
Na história do povo do Deus Único, sempre se alternaram fases de exultação e dor. Estas sempre relacionadas a épocas onde o povo, na concepção divina, se fez merecedor de medidas punitivas.
Moisés (1592 a.C. - 1472 a.C.) foi o primeiro grande patriarca, guia político e espiritual do povo hebreu. E talvez o que mais tenha sido penalizado com sofrimentos que lhe sobrecarregaram a alma inquieta e cheia de dúvidas.
Os descendentes de José e seus irmãos com o passar do tempo cresceram em número e passaram a ser escravizados. Mesmo assim, começaram a se reproduzir tão rapidamente, que passaram a se constituir em uma ameaça potencial contra a autoridade do faraó. Este então deu ordens de que toda a criança do sexo masculino deveria ser sacrificada.
Mais tarde, percebe-se que a dor causada pelo faraó ao povo hebreu recairia igualmente sobre os próprios egípcios, já que uma das dez pragas que determinaram a anuência do faraó em liberar os hebreus do cativeiro, foi igualmente a morte de todos os primogênitos egípcios.
Para livrar o filho do decreto mortal do faraó, a mãe de Moisés, colocou o recém nascido em uma cesta de papiro, deixada a flutuar entre os juncos na margem do Rio Nilo, próximo onde se banhava a filha do faraó Seth. Thermuthis, a princesa egípcia encontrou-o e o adotou como filho.
Astuciosamente,contudo, sua mãe natural fez-se designada como sua ama de leite pela princesa egípcia, o que permitiu que Moisés secretamente fosse instruído na religião e cultura hebraica.
Moisés foi criado no palácio real como príncipe dos egípcios, sendo preparado e também instruído em toda a sabedoria da civilização mais adiantada daquele tempo. Foi educado na escrita e nas literatura do seu tempo, aprendendo também administração e a justiça.
O seu treinamento foi projetado para prepará-lo para um alto cargo, ou até suceder ao trono do Egito. Viveu na corte de faraó, com toda a pompa e grandeza cultura egípcia.
Aos 40 anos, Moisés se indignou com a crueldade de um feitor egípcio com um escravo hebreu, e acidentalmente matou-o. Temendo pelas conseqüências da rígida justiçado faraó, fugiu do Egito, levando a vida como pastor.
Outros 40 anos se passaram e Moisés, atendendo ao comando de Deus ( que a ele se apresentara como um arbusto que ardia sem se consumir ), retornou ao Egito para resgatar os hebreus da escravidão.
Moisés e seu irmão Arão apresentaram-se ao faraó solicitando que o povo hebreu fosse seja libertadodoforte jugo egípcio. Perante a insistente recusa do faraó, segundo Moisés, a mão divina se abateu sobre o Egito, enviando sucessivamente dez pragas que assolaram o país e acabaram por sacrificar os primogênitos egípcios, inclusive o herdeiro do trono.
Embora atualmente não exista nenhuma comprovação arqueológica da ocorrência das dez pragas do Egito, alguns historiadores, no entanto, propuseram a hipótese de que as pragas se referem a catástrofes ecológicas, motivadas principalmente pela explosão do vulcão Santorini.
Desolado pela perda do filho, dor maior que poderia afligir sua alma, o faraó finalmente concede a liberdade aos hebreus.
O êxodo se inicia e uma multidão de 600 mil hebreus deixam o Egito com seus pertences e rebanhos. O faraó, entretanto, com a alma atormentada, e, movido pelo desejo de vingança, envia um exército para massacrar os retirantes.
Mas novamente a mão divina se abate sobre o faraó, e, pela vontade de Deus e a força da fé de Moisés,as águas do Mar Vermelho se abrem dando passagem aos hebreus fugitivos. Mas após a travessia dos retirantes através o leito seco do mar, as grandes muralhas de água, contidas pelo deus hebreu, abatem-se sobre o exército do faraó, destroçando-o.
Moisés liderando seu povo, em busca de uma nova terra, chegou ao sopé do Monte Horebe, na Península do Sinai. Lá acamparam e Moisés e seu irmão Arão subiram ao cume do monte onde recebeu a inspiração divina para redigir as Tábuas da Lei, contendo os dez mandamentos. Mas ao final dessa revelação, ao descer o monte, percebeu que o povo descrente havia se entregado à idolatria, reverenciando outros deuses.
Com a alma profundamente alterada pela dor da ingratidão e descrença do povo que o deus Único havia libertado do jugo egípcio, Moisés coléricamente atira ao chão as Tábuas da Lei, despedaçando-as.
Como castigo divino o povo hebreu suporta a dor do desterro por 40 anos, vagando pelo deserto. Nesse período Moisés escreve o Livro do Êxodo, com o objetivo de manter vivo na memória do povo hebreu o feito da fundação de si mesmo como nação: a saída do Egito e a consequente libertação da escravidão.
Através de sua fuga e a busca da terra prometida, o povo hebreu adquire, através do sofrimento físico, a consciência de sua unidade étnica, filosófica, cultural e religiosa.
Moisés também escreve os outros quatro livros do Torá, codificando as leis mosaicas em 450 AC, que passariam a reger secularmente o povo hebreu. Apesar de tudo, Moisés sofreu, com a alma resignadamente em pedaços, a dor imerecida de jamais poder conhecer a terra prometida.
Nesse caminho pelas raízes bíblicas da história da humanidade intuitivamente as dores da alma se mostraram ligadas sempre ao relacionamento do Homem com um Deus de justiça, interpretado como capaz de aplicar medidas punitivas.
Entretanto mais que a punição divina, esses sentimentos, melhor considerados desajustes, neuroses ou desequilíbrios íntimos, coletivos ou individuais, devem ser objeto de tratamento ou oportunidade de reparação.
Esses processos psíquicos, como dores da alma, não devem merecer a punição divina ou a crítica impiedosa da intransigência religiosa. Devem ser melhor interpretados no reconhecimento de que podem e necessitam ser tratados com responsabilidade e compaixão.
A partir do Novo Testamento a imagem de Deus se modifica, e embora ainda intervindo nos momentos de grande dor, mostra-se progressivamente transformado em uma divindade plena de amor .
Este amor se cristaliza no momento em que surge o Cristo como figura redentora da humanidade, através de seu próprio sacrifício em prol do resgate do destino espiritual do homem.
Sua trajetória e de seus discípulos deu início à mais bem sucedida revolução social e espiritual de todos os tempos: o cristianismo,que propiciou uma ascenção progressiva dos padrões espirituais do homem moderno.
Entretanto, como que abrindo caminho para essa revolução, baseada na crença e no subjetivismo dos caminhos e atividades atribuídas a Jesus, vem a figura de José, talvez o exemplo mais concreto da supremacia da crença sobre o racionalismo.
José é um personagem célebre do Novo Testamento bíblico, marido da mãe de Jesus Cristo. Segundo a tradição cristã, nasceu em Belém na Judéia, no século I a.C., pertencendo à tribo de Judá e na linhagem direta do rei Davi.
José não era homem de letras ou de ciências, sequer da religião. Era um homem do interior, da pequena vila de Nazaré, tão pequena que nunca foi mencionada em todo o Primeiro Testamento.
Carpinteiro por profissão foi designado por Deus para se casar com a jovem Maria, mãe de Jesus, que era uma das consagradas do Templo de Jerusalém. Mas, sem que nunca tivessem tido relações íntimas, José um dia encontrou Maria grávida.
Na época a lei bíblica vigente prescrevia como punição o apedrejamento das adúlteras. Mas José, homem justo e generoso, resolveu contemporizar, e mais tarde discretamente abandonar aquela que no futuro seria sua esposa. E aconteceu que enquanto José dormia, apareceu-lhe, em sonho, um anjo que pediu-lhe que não temesse em desposar a jovem, dizendo “ - pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo”.
Dor indescritível na alma causada pela dúvida. Mas esta acaba sendo vencida pela inabalável fé no sonho interpretado como mensagem divina.
E assim José casa-se com Maria, assumindo publica e oficialmente a paternidade de Jesus. O lugar que José ocupa no Novo Testamento é bastante discreto e totalmente como coadjuvante do filho.
O silêncio era a sua essência. Mas também o trabalho com as mãos e a madeira, suficientes para alimentar a sagrada família.
José teria se casado jovem e só foi prometido a Maria quando já era viúvo. José teria tido, no primeiro casamento, duas filhas e quatro filhos sendo o caçula chamado Tiago, que Jesus considerava como irmão e com ele teria passado sua infancia e parte de sua adolescência. E Maria achou o menor Tiago na casa de seu pai e este estava triste pela perda de sua mãe e Maria o consolou e o criou. Assim Maria é às vezes chamada de mãe de Tiago. Estaria explicado assim a grande polêmica do "irmão" Tiago que Jesus pediu para tomar conta de sua mãe Maria
Embora nada se saiba de efetivo em relação à sua obra, há controvérsias que afirmam ter sido José em sua juventude um ativista empenhado na libertação da Judéia do jugo romano, tendo sido aprisionado até algumas vezes.
Especula-se ainda sua relaçãocomos zelotes, grupo de ativistas políticos que procurava incitar o povo da Judéia a rebelar-se contra o Império Romano e expulsar os romanos pela força das armas, que conduziu à Primeira Rebelião Judaica.
São José na carpintaria
( Georges de la Tour, 1593- 1632, Paris, Museu do Louvre )
Com o passar dos anos José, já em idade avançada, nunca deixou de trabalhar, mantendo-se vigoroso e com boa saúde. Não se sabe a data aproximada de sua morte, mas ela é presumida como anterior ao início da vida pública de Jesus.
A pergunta que fica é: qual o tipo de influência exercida por uma figura paterna como essa nos caminhos e decisões de Jesus? Quantas dúvidas enfrentadas por José, solucionadas ou não pela crença cega nas mensagens recebidas por seus sonhos, teriam sido transmitidas durante o convívio próximo e diário com o filho na carpintaria?
Frequentemente a introdução da dor e do sofrimento no destino do Homem esteve ligada ao conceito de punição divina.
Na Mitologia Grega, Prometeu, um semi-deus, por ter roubado o fogo dos céus para entregá-lo aos homens, experimentou a cólera divina de Zeus, no suplício da dor crônica: acorrentado a um penhasco, tinha o fígado continuamente devorado por um abutre, dia a dia, pois o órgão se recompunha diariamente tornando o suplício contínuo.
Já no Gênesis após infringirem os mandamentos divinos Adão e Eva, expulsos do paraíso, aprenderam que a vida deve ser conduzida através de experiências contraditórias como esforço físico, dor e lágrimas. Também com sentimentos negativos como ciúme, violência e sangue – que, acometendo Caim, levou-o ao assassinato do irmão Abel. Decorrente disto a mentira, o remorso e o exílio. O Homem voltando à dor da solidão.
De Caim ao dilúvio, a dor do próprio Criador ao reconhecer a corrupção de sua obra e a necessidade de um novo reinício. A dor maior do Pai, sacrificando seus filhos nas águas revoltas, para que novamente os homens se desenvolvessem com a alma mais purificada e os instintos mais evoluídos, compondo uma criação que deveria ser perfeita.
Os filhos do patriarca sobrevivente Noé repovoaram a terra, e muito depois, num assomo de inacreditável arrogância, decidiram construir uma torre que chegasse aos céus. Novamente a mão do Criador baixou sobre eles, trazendo como veículo de outra lição a dor da surpresa e da decepção de não conseguirem mais se comunicar entre si. E a anarquia gerada pela criação de diferentes idiomas, aqueles que haviam decidido chegar ao céus por sua própria obra, imitando o criador, abandonaram a torre de Babel, dispersaram-se, e com humildade recém-aprendida, iniciaram um longo e penoso recomeço.
A relação do próprio Deus com sua obra sempre foi cercada de exigências de ambas as partes.
A aliança do Homem com Deus sempre foi testada pela angústia e inquietude da alma humana. Temor e receio do desconhecido, gerando o conceito de uma divindade única e suprema, severa e inquisitiva, onipotente e temida.
E em um momento de imperfeição quase humana, o Criador cobra de Abraão, o patriarca, a mesma dor, exigindo o sacrifício de seu filho Isaac, como demonstração de obediência e fé. E assim, também nisso o patriarca cegamente obedeceria ao seu Deus,como testemunho de inabalável crença. Mas no último momento, o anjo enviado pelo próprio Deus, impediria o sacrifício supremo, reconhecendo no patriarca o líder insofismável do povo do Deus Único.
E outra vez a dor - agora do oportunismo e ódio - separa os irmãos Esaú e Jacó. Este, em seu desterro aprende por sua vez a dor da decepção e do amor. Jacó, ameaçado de morte pelo irmão Esaú, enviado pela mãe Rebecca, viajou para a casa de Labão, parente distante. Lá, apaixonou-se por Rachel, filha de Labão, e para casar-se com ela trabalhou, como era então hábito, como pastor durante sete anos.
Mas na noite de núpcias, Labão vestiu Lia, irmã mais velha de Raquel com as roupas nupciais, e entregou-a a Jacó. No dia seguinte, quando Jacó descobriu a trama insidiosa, o matrimônio já tinha sido consumado. Amargando a dor da decepção e do amor não que lhe abrasava a alma, a partir de então trabalhou outros sete anos,para conseguir o direito de enfim se casar com Rachel, sua verdadeira amada. Junto com cada filha, Labão enviou também duas criadas Bila e Zilpa,que posteriormente também, segundo os hábitos vigentes, se tornaram esposas de Jacó.
A dor da decepção e a grandeza deste amor inspiraram Luis de Camões a compor um soneto magistral:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
Enquanto Lia deu à luz quatro filhos em sucessão rápida, Rachel, estéril, não podendo conceber por muitos anos, ofereceu sua criada Bila para o marido. Esta união resultou em dois filhos. Lia que também desejou mais crianças, ofereceu a criada Zilpa à Jacó, e mais dois filhos vieram. Finalmente, depois que Lia pariu outros dois filhos e uma filha, a própria Rachel gerou dois filhos.
Rachel sempre foi a esposa preferida de Jacó, que a amava muito e a ela dedicava a maior parte de seu tempo livre. Raramente Jacó visitava a tenda de Lia. Rachel morreu de complicações de parto, mas antes chamou o menino Benoni (filho de minha dor).
José, o décimo primeiro filho de Jacó, nascido de Raquel, citado no livro do Génesis, no Antigo Testamento, foi o fundador da Tribo de José, constituída, por sua vez, pelas tribos de de Efraim e Manassés, seus filhos.
José sentiu na alma a dor da inveja de seus irmãos, que o percebiam ser o filho predileto do pai. Os irmãos o venderam como escravo a mercadores egípcios, e informaram ao pai sua morte, causando este fato dor insana ao pai. Mas por seus próprios méritos, José caiu nas graças do vizir do faraó, Potifar, tornando-se seu braço direito. Mas, por resistir com dignidade ao assédio sexual da mulher de Potifar, foi por ela acusado e lançado na prisão.
Um dia, o Faraó teve um sonho profético no qual sete vacas magras comiam sete vacas gordas e mesmo assim continuavam magras. Para explicar seu sonho, ele convocou todos os sacerdotes do Egito para decifra-lo. Nenhum desses conseguiu, então o copeiro-chefe se lembrou do escravo na prisão, José, que tinha decifrado seu sonho e indicou-o ao Faraó que, chamando-o, ouviu a interpretação do sonho, pela o Egito passaria por sete anos de fartura e outros sete de seca.
Com isso, tornou-se José o conselheiro do faraó e grande da corte. Mais tarde, perdoando seus irmãos, chamou-os para com ele viverem no Egito, iniciando um novo ciclo de vida e, posteriormente servidão para o povo de Israel.
Na história do povo do Deus Único, sempre se alternaram fases de exultação e dor. Estas sempre relacionadas a épocas onde o povo, na concepção divina, se fez merecedor de medidas punitivas.
Moisés (1592 a.C. - 1472 a.C.) foi o primeiro grande patriarca, guia político e espiritual do povo hebreu. E talvez o que mais tenha sido penalizado com sofrimentos que lhe sobrecarregaram a alma inquieta e cheia de dúvidas.
Os descendentes de José e seus irmãos com o passar do tempo cresceram em número e passaram a ser escravizados. Mesmo assim, começaram a se reproduzir tão rapidamente, que passaram a se constituir em uma ameaça potencial contra a autoridade do faraó. Este então deu ordens de que toda a criança do sexo masculino deveria ser sacrificada.
Mais tarde, percebe-se que a dor causada pelo faraó ao povo hebreu recairia igualmente sobre os próprios egípcios, já que uma das dez pragas que determinaram a anuência do faraó em liberar os hebreus do cativeiro, foi igualmente a morte de todos os primogênitos egípcios.
Para livrar o filho do decreto mortal do faraó, a mãe de Moisés, colocou o recém nascido em uma cesta de papiro, deixada a flutuar entre os juncos na margem do Rio Nilo, próximo onde se banhava a filha do faraó Seth. Thermuthis, a princesa egípcia encontrou-o e o adotou como filho.
Astuciosamente,contudo, sua mãe natural fez-se designada como sua ama de leite pela princesa egípcia, o que permitiu que Moisés secretamente fosse instruído na religião e cultura hebraica.
Moisés foi criado no palácio real como príncipe dos egípcios, sendo preparado e também instruído em toda a sabedoria da civilização mais adiantada daquele tempo. Foi educado na escrita e nas literatura do seu tempo, aprendendo também administração e a justiça.
O seu treinamento foi projetado para prepará-lo para um alto cargo, ou até suceder ao trono do Egito. Viveu na corte de faraó, com toda a pompa e grandeza cultura egípcia.
Aos 40 anos, Moisés se indignou com a crueldade de um feitor egípcio com um escravo hebreu, e acidentalmente matou-o. Temendo pelas conseqüências da rígida justiçado faraó, fugiu do Egito, levando a vida como pastor.
Outros 40 anos se passaram e Moisés, atendendo ao comando de Deus ( que a ele se apresentara como um arbusto que ardia sem se consumir ), retornou ao Egito para resgatar os hebreus da escravidão.
Moisés e seu irmão Arão apresentaram-se ao faraó solicitando que o povo hebreu fosse seja libertadodoforte jugo egípcio. Perante a insistente recusa do faraó, segundo Moisés, a mão divina se abateu sobre o Egito, enviando sucessivamente dez pragas que assolaram o país e acabaram por sacrificar os primogênitos egípcios, inclusive o herdeiro do trono.
Embora atualmente não exista nenhuma comprovação arqueológica da ocorrência das dez pragas do Egito, alguns historiadores, no entanto, propuseram a hipótese de que as pragas se referem a catástrofes ecológicas, motivadas principalmente pela explosão do vulcão Santorini.
Desolado pela perda do filho, dor maior que poderia afligir sua alma, o faraó finalmente concede a liberdade aos hebreus.
O êxodo se inicia e uma multidão de 600 mil hebreus deixam o Egito com seus pertences e rebanhos. O faraó, entretanto, com a alma atormentada, e, movido pelo desejo de vingança, envia um exército para massacrar os retirantes.
Mas novamente a mão divina se abate sobre o faraó, e, pela vontade de Deus e a força da fé de Moisés,as águas do Mar Vermelho se abrem dando passagem aos hebreus fugitivos. Mas após a travessia dos retirantes através o leito seco do mar, as grandes muralhas de água, contidas pelo deus hebreu, abatem-se sobre o exército do faraó, destroçando-o.
Moisés liderando seu povo, em busca de uma nova terra, chegou ao sopé do Monte Horebe, na Península do Sinai. Lá acamparam e Moisés e seu irmão Arão subiram ao cume do monte onde recebeu a inspiração divina para redigir as Tábuas da Lei, contendo os dez mandamentos. Mas ao final dessa revelação, ao descer o monte, percebeu que o povo descrente havia se entregado à idolatria, reverenciando outros deuses.
Com a alma profundamente alterada pela dor da ingratidão e descrença do povo que o deus Único havia libertado do jugo egípcio, Moisés coléricamente atira ao chão as Tábuas da Lei, despedaçando-as.
Como castigo divino o povo hebreu suporta a dor do desterro por 40 anos, vagando pelo deserto. Nesse período Moisés escreve o Livro do Êxodo, com o objetivo de manter vivo na memória do povo hebreu o feito da fundação de si mesmo como nação: a saída do Egito e a consequente libertação da escravidão.
Através de sua fuga e a busca da terra prometida, o povo hebreu adquire, através do sofrimento físico, a consciência de sua unidade étnica, filosófica, cultural e religiosa.
Moisés também escreve os outros quatro livros do Torá, codificando as leis mosaicas em 450 AC, que passariam a reger secularmente o povo hebreu. Apesar de tudo, Moisés sofreu, com a alma resignadamente em pedaços, a dor imerecida de jamais poder conhecer a terra prometida.
Nesse caminho pelas raízes bíblicas da história da humanidade intuitivamente as dores da alma se mostraram ligadas sempre ao relacionamento do Homem com um Deus de justiça, interpretado como capaz de aplicar medidas punitivas.
Entretanto mais que a punição divina, esses sentimentos, melhor considerados desajustes, neuroses ou desequilíbrios íntimos, coletivos ou individuais, devem ser objeto de tratamento ou oportunidade de reparação.
Esses processos psíquicos, como dores da alma, não devem merecer a punição divina ou a crítica impiedosa da intransigência religiosa. Devem ser melhor interpretados no reconhecimento de que podem e necessitam ser tratados com responsabilidade e compaixão.
A partir do Novo Testamento a imagem de Deus se modifica, e embora ainda intervindo nos momentos de grande dor, mostra-se progressivamente transformado em uma divindade plena de amor .
Este amor se cristaliza no momento em que surge o Cristo como figura redentora da humanidade, através de seu próprio sacrifício em prol do resgate do destino espiritual do homem.
Sua trajetória e de seus discípulos deu início à mais bem sucedida revolução social e espiritual de todos os tempos: o cristianismo,que propiciou uma ascenção progressiva dos padrões espirituais do homem moderno.
Entretanto, como que abrindo caminho para essa revolução, baseada na crença e no subjetivismo dos caminhos e atividades atribuídas a Jesus, vem a figura de José, talvez o exemplo mais concreto da supremacia da crença sobre o racionalismo.
José é um personagem célebre do Novo Testamento bíblico, marido da mãe de Jesus Cristo. Segundo a tradição cristã, nasceu em Belém na Judéia, no século I a.C., pertencendo à tribo de Judá e na linhagem direta do rei Davi.
José não era homem de letras ou de ciências, sequer da religião. Era um homem do interior, da pequena vila de Nazaré, tão pequena que nunca foi mencionada em todo o Primeiro Testamento.
Carpinteiro por profissão foi designado por Deus para se casar com a jovem Maria, mãe de Jesus, que era uma das consagradas do Templo de Jerusalém. Mas, sem que nunca tivessem tido relações íntimas, José um dia encontrou Maria grávida.
Na época a lei bíblica vigente prescrevia como punição o apedrejamento das adúlteras. Mas José, homem justo e generoso, resolveu contemporizar, e mais tarde discretamente abandonar aquela que no futuro seria sua esposa. E aconteceu que enquanto José dormia, apareceu-lhe, em sonho, um anjo que pediu-lhe que não temesse em desposar a jovem, dizendo “ - pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo”.
Dor indescritível na alma causada pela dúvida. Mas esta acaba sendo vencida pela inabalável fé no sonho interpretado como mensagem divina.
E assim José casa-se com Maria, assumindo publica e oficialmente a paternidade de Jesus. O lugar que José ocupa no Novo Testamento é bastante discreto e totalmente como coadjuvante do filho.
O silêncio era a sua essência. Mas também o trabalho com as mãos e a madeira, suficientes para alimentar a sagrada família.
José teria se casado jovem e só foi prometido a Maria quando já era viúvo. José teria tido, no primeiro casamento, duas filhas e quatro filhos sendo o caçula chamado Tiago, que Jesus considerava como irmão e com ele teria passado sua infancia e parte de sua adolescência. E Maria achou o menor Tiago na casa de seu pai e este estava triste pela perda de sua mãe e Maria o consolou e o criou. Assim Maria é às vezes chamada de mãe de Tiago. Estaria explicado assim a grande polêmica do "irmão" Tiago que Jesus pediu para tomar conta de sua mãe Maria
Embora nada se saiba de efetivo em relação à sua obra, há controvérsias que afirmam ter sido José em sua juventude um ativista empenhado na libertação da Judéia do jugo romano, tendo sido aprisionado até algumas vezes.
Especula-se ainda sua relaçãocomos zelotes, grupo de ativistas políticos que procurava incitar o povo da Judéia a rebelar-se contra o Império Romano e expulsar os romanos pela força das armas, que conduziu à Primeira Rebelião Judaica.
São José na carpintaria
( Georges de la Tour, 1593- 1632, Paris, Museu do Louvre )
Com o passar dos anos José, já em idade avançada, nunca deixou de trabalhar, mantendo-se vigoroso e com boa saúde. Não se sabe a data aproximada de sua morte, mas ela é presumida como anterior ao início da vida pública de Jesus.
A pergunta que fica é: qual o tipo de influência exercida por uma figura paterna como essa nos caminhos e decisões de Jesus? Quantas dúvidas enfrentadas por José, solucionadas ou não pela crença cega nas mensagens recebidas por seus sonhos, teriam sido transmitidas durante o convívio próximo e diário com o filho na carpintaria?
A dor motivando o Homem a buscar o seu destino
As dores da alma não se conceituam, nem podem ser definidas. Só as reconhece quem as sente. Só as sente, quem vive cada momento em toda a sua grandeza. Um momento pode representar uma eternidade. Um só minuto pode conter toda uma vida.
As dores da alma nos atingem quase sempre de surpresa. Portanto não há como preveni-las. E quando elas nos tomam, mal reconhecemos nossa condição humana, pois sua intensidade é tal que perdemos a noção do real e do imaginário.
O prazer e a dor, aquele como expressão máxima do bem estar, são sensações igualmente intensas e avassaladoras. O êxtase reconhecido em polos opostos: positivo e negativo. Definidos conceitualmente por limites imprecisos, dado que se constituem em sensações tão próximas. Tão incoerentemente separadas por algo tão minúsculo quanto uma vírgula.
E ao longo de nossas vidas a dor e o prazer se repetem, alternando-se incessantemente. Em todas as idades, em todas as fases. Uma sucessão de experiências, sentimentos que aos poucos constroem o mosaico de nossa memória. Esta, a reserva moral de nossos atos. Também a energia que impulsiona o direcionamento de nossas vidas. Em todas as nossas renovadas existências.
Quem somos e para onde vamos. O destino do homem. Indagações que perseguem o ser humano desde seus primórdios. A longa caminhada do homem na Terra, construindo os alicerces da civilização moderna, desenvolvendo uma tecnologia de ponta, cada vez mais globalizada tem permitido uma compreensão melhor da vida. Uma compreensão dos aspectos biológicos, sociais e do cenário material em que o homem se desenvolveu.
A evolução progressiva do espírito humano permitiu o controle de todas as diferentes formas de energia: ar, terra, água, fogo. E a partir daí o reconhecimento do cosmos, a interpretação do universo dentro de si mesmo, e contido em outros ainda não explorados. Exemplos de que a busca ainda está longe por terminar.
Cada etapa do conhecimento humano representa apenas uma partícula cósmica. Importante, contudo apenas o fragmento de um enigma a ser decifrado em um futuro ainda indeterminado.
Quanto mais procuramos o entendimento da razão ou as verdades científicas, cada vez mais nos deparamos com uma tortuosa e infinita muralha da China, onde cada progresso ou passo científico representa apenas um pequeno tijolo assentado.
Mas afinal, o que é que se procura: construir a muralha ou dominar os procedimentos e estratégias da construção?
A construção do futuro do homem deve se iniciar pelo reconhecimento do próprio homem como unidade da criação racional.
Estímulos os mais variados podem afetar também positiva ou negativamente o universo animal, vegetal e mineral. Mecanismos de defesa podem ser desencadeados. Até camuflagem de formas, contornos e cores podem ser induzidos. Até onde vai o instinto de autodefesa ou o de proteção da prole? O que é o instinto – uma forma primária e rudimentar de um comportamento racional?
A dor física pode ser produzida por vários tipos de estímulos. O instinto de proteção desenvolvido por algumas formas animais, ou ainda as armadilhas acionadas por plantas carnívoras, aprisionando e digerindo suas presas, podem se aproximar do tipo de estímulo que resulta na dor física?
Que tipo de estímulo leva o pássaro a alimentar seus filhotes no ninho? Ou que leva a fêmea a proteger suas crias até mesmo do macho com o qual se acasalou? Que leva uma fêmea a amamentar um filhote desconhecido e a agasalhá-lo como se fosse seu?
São essas manifestações do instinto ou de algo que se aproxima do conceito humano de alma? E se assim for, sofrerão também os animais as dores da alma?
Com todo o seu progresso vertiginoso, a ciência baseada em evidências não tem resposta para essas perguntas.
Nem mesmo para a demonstração formal da existência da alma. Muito menos ainda para o reconhecimento e interpretação das dores da alma.
Estas devem ser pressentidas através da crença em sua existência, e da sensibilidade de quem crê ou deseja crer.
As evidências formais devem justificar a essência de fatos e conceitos, mas também devem ser consideradas as experiências pessoais, reconhecidas pela exploração da sensibilidade individual.
Apenas a investigação experimental, constituída pela repetição sistemática e observação de eventos repetidos, se é necessária para a definição de resultados, nem sempre é suficiente para a solução de alguns problemas. Grandes descobertas foram resultantes do acaso e da sensibilidade do investigador em aceitar o desconhecido ainda não demonstrado por evidências formais. Por exemplo, a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, fruto da observação, sensibilidade ou crença desprovida de evidências demonstrativas?
Cristóvão Colombo acreditou, sem evidências concretas, que a Terra era redonda. É certo também que se baseou em conhecimentos posteriormente atribuídos a Roger Bacon. Que também não dispunha de evidências formais. Baseava-se apenas na crença.
( CONTINUA )
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