quinta-feira, 12 de julho de 2012

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 8) A VOLTA DO PARAFUSO

Quando se aperta um parafuso, passo a passo ele perfura a madeira. A cada volta, imprime mais pressão, mais se aproxima do limite final. Sérgio estava no limite final de suas forças. Já havia perdido a noção do tempo. Sabia apenas que estava na Casa de Detenção. Contava os dias na cela escura, contando as sessões de tortura. Diariamente era levado à presença de Alberto, que todos os dias imaginava algo novo, especialmente para machucar-lhe a carne e a alma. Lentamente a consciência lhe voltava. Quanto tempo teria de aguentar desta vez? Não saberia dizer quanto decorrera desde o último interrogatório. Não o deixavam muito tempo em paz. Apenas o suficiente para que se recuperasse para recomeçar tudo outra vez. Aos poucos a névoa desaparecia de sua mente. E ele passou a perceber a dor. Que nunca o abandonava. Ele apenas passara a não respeitá-la. Começou a utilizar a dor como forma de resistência ao seu torturador.Que podia tentar, e tentava, esmagar o seu corpo. Mas sua mente, apesar de confusa e maltratada, esta ainda lhe pertencia.Assim como suas culpas. E seus pesadelos. Até passara a esperá-los. Eram o seu único contacto atual com a realidade. A sua realidade. Às vezes tinha a impressão de que Chico, ainda com os olhos faiscantes, indicava-lhe um caminho, que não era capaz de identificar. Ao abrir finalmente os olhos, percebeu que nada havia mudado. Nada a que não já estivesse se familiarizado. Os dedos das mãos haviam sido quebrados. Deixados para consolidar naturalmente. E então, novamente quebrados. As articulações subluxadas. Também não conseguia andar. Mas sua mente voava. Percorria todas as fases de sua vida. Visitava todos os seus amigos. Onde andaria Leo. Amargava em relação a ele um especial sentimento de remorso. Por todas as brincadeiras escarnecedoras, mais pelas humilhações infringidas. Penduraram Sérgio em uma trave no teto. Correias nos punhos, mantendo-o apoiado apenas nas pontas dos artelhos. Nu. Desta vez Alberto, ao entrar não estava só. Acompanhava-o um oficial também fardado, empunhando uma pasta de documentos. Um burocrata. Sérgio mirava Alberto, impressionado com o cuidado extremamente afetado com que o arrogante militar sempre cuidava de sua aparência. Engomado dos pés à cabeça. As botas de montaria sempre rigorosamente lustradas. Cujos bicos já lhes tinha quebrado várias costelas. Como poderia alguém tào cuidadoso consigo mesmo ser tão maligno? Esta sessão deveria mesmo ser diferente. Alberto não o tocara. Fizera ao acompanhante um relatório sucinto, mas comprometedor. Desde os tempos de Palestina, apresentando-o como um agente de campo do PC do B, responsável por inúmeras ações contra o exército, recentemente preso ao fomentar a violência em uma passeata ali em Campo Grande. Retirando um arquivo de sua pasta, o burocrata passou-a a Alberto, indagando se as impressões digitais conferiam, e se o interrogado era a mesma pessoa citada no arquivo. Conferindo, os olhos de Alberto se estreitaram, emitindo um brilho sinistro. Lancinantemente uma dor nova varou-lhe o peito ao ouvir os nomes de Tiago e Lia. Percebeu que ambos estavam ainda na lista negra da polícia social. Como e porque seus nomes foram vinculados ao dele, não tinha a menor idéia. Apenas, terrificado, entendia que, agora, além de prestar-se à satisfação dos instintos sádicos do torturador, haviam-lhe dado munição suficiente para que o processo de tortura continuasse indefinidamente. Se é que tinha esperanças. Elas acabavam de se esvair. Como o sangue na ferida do abdome de Chico. O burocrata endereçou-lhe algumas perguntas diretas. Sérgio, lambendo os lábios rachados com uma língua inchada, respondeu balbuciante, com uma voz quase inaudível. Realmente tinham sido amigos de juventude. Mas se separado há anos. Não tinha a menor idéia do seu paradeiro. Alberto perguntou ao burocrata informações que pudessem auxiliá-lo em seus próximos interrogatórios. Mas não havia nada. Apenas a ligação de Sérgio com Tiago, já interrogado uma vez no Rio de Janeiro, e atualmente desaparecido, juntamente com Lívia, sem deixar pistas. Foi deixado ali pendurado. Por cima do ombro percebeu o olhar faiscante que lhe endereçou Alberto ao sair da cela. Livia se recuperara mais depressa do que imaginava. A não ser por uma cicatriz na face, que não lhe comprometia a beleza sutil. Tentava esquecer as intensas emoções da passeata, os desmandos da repressão, e a figura cruel do cavalariano que a perseguira. Enquanto existissem figuras como ele, o país e o mundo nunca ficariam seguros. Continuariam à mercê da intolerância, preconceito e intransigência.Ela procurava, no momento, afastar esses pensamentos. Ademais havia Leo. A surpresa de reencontrá-lo só foi inferior à satisfação de constatar seu sucesso profissional e seu crescimento interior como pessoa. Tão diferente do jovem inseguro e contido de suas lembranças. Continuava introspectivo, e com a sensibilidade à flor da pele. Também morava sozinho e sem um relacionamento estável. Tinha amigos, que, contudo nunca conseguiam penetrar a couraça protetora que tornara sua segunda pele. A única brecha tinha sido ela, Lívia. Os anos que passaram juntos, a convivência próxima e a cumplicidade tiveram esse efeito. Nas semanas subsequentes, Leo foi suficientemente dedicado e carinhoso para que Lívia se sentisse outra vez estimada, e como se representasse algo para alguém. A solidão a que se impusera em Campo Grande tinha chegado ao fim. Era mais um recomeço. E ela tinha a percepção exata do que isso representava. Uma nova fonte de energia que lhe renovaria também as esperanças de reencontrar Tiago e a filha. Passaram a rotineiramente se encontrar, e assim Leo soube tudo sobre seus antigos amigos. Revoltou-se com a a prisão e tortura de Tiago. Como este perdera tudo, cargo e amigos no Rio de Janeiro. Emocionou-se com a notícia de que Lívia tinha uma filha. E também com o inesperado encontro de Tiago com o pai. Com o reatamento entre os dois. Fruto da dedicaçào e oportunismo do pai, que embora distante e enterrado pelos sentimentos de Tiago, no momento em que a jovem família mais necessitava, reapareceu como a única tábua de salvação. Evitando novamente a prisão,e até a tortura. Pelo menos pai e filha estavam a salvo em Paris. Exatamente onde Glória tinha se radicado. E próximo a Lyon onde também Rodolfo agora vivia. Até quando duraria essa separação não havia como imaginar. Tinha ciência apenas de que a vida era curta. Mas também que em momentos se pode viver toda uma vida. Ouvira essa frase em um filme antigo de Vitório Gassman – Perfume de mulher. Em verdade passara a ser um conceito de autoajuda nessa fase de sua vida. Ansiava e tinha a convicção absoluta que dias mais felizes ainda estavam por chegar. As semanas passavam e Leo cada vez mais se dedicava a Lívia, como que para compensar o longo período de separação. Ao mesmo tempo tentava procurar notícias não-oficiais dos amigos que viviam no exterior. Tomara a si o encargo de tudo fazer para que Lívia se reencontrasse com a família. Também porque isso lhe fazia bem e aliviava a sua solidão. Durante anos nada fizera para se reaproximar de seus irmãos. Mas com o tempo isso passou também a incomodá-lo. Tinha sido fácil, até mesmo cômodo, voltar as costas à família. Tudo porque a convivência lhe parecera então insuportável. Tinha apesar de tudo trocado cartas com o irmão. E,desde então, enviava-lhe mensalmente auxílio econômico. A irmã tinha se mudado para São Paulo, com endereço ignorado. Mas sabia-se estar bem. Tentara contactá-la sem resposta. Agora com o reaparecimento de Lívia tentava fazer dela sua família. Fazer por ela o que gostaria de ter conseguido fazer pelos irmãos. Também não se sentia mais tão só. Mas em momento algum pensou em convidar Lívia para morar com ele. Apenas fez com que ela abandonasse o emprego na gráfica, conseguindo-lhe uma colocação como escrevente no cartório local, de propriedade de um amigo. Lívia agradecida também se esforçava para ter em Leo um amigo muito querido. Protetor e confidente. E, neste propósito, algumas semanas após, contou a Leo seu reencontro com Sérgio. Com todos os detalhes. As tranformações no físico e na conduta. Seu comportamento arredio e sua solidão. Sua dedicação ao próximo. O mistério que cercava sua aparição em Campo Grande. Leo não podia acreditar no que ouvia. Seu antigo companheiro próximo a ele. E ao mesmo tempo tão distante. Tão diferente. Certamente deveria haver uma explicação para tudo. Mas também concordou com Lívia. As justificativas deveriam partir do próprio Sérgio, no momento mais adequado. Até lá também esperaria. Nas próximas semanas iria se certificar de tudo. Procuraria o amigo, forçando um encontro inesperado. Tentaria confortá-lo se fosse necessário. Abriria seus braços e seu coração para acolhê-lo. Tentaria compensar os maus tratos que a vida lhe teria inflingido. Mas não havia mais tempo para isso. Nunca conseguiu o seu intento. Naquela manhã, Leo recebera um convite para prestar esclarecimentos na sede da polícia política de Campo Grande. Na realidade, somente não tinha sido conduzido à revelia, por suas relações de amizade para com as autoridades locais. Aliás também pelo prestígio com que era considerado por quase todos seus pacientes. Mesmo assim tudo soava como uma convocação que não podia ser recusada. Preocupava-se porque agora que tinha Lívia sob sua tutela. Lívia e seu passado. Também agora Sérgio estava por perto. Na realidade, Lívia nunca mais o vira. O apartamento parecia vazio. No emprego também nunca mais Sérgio aparecera. Era como se tivesse sido tragado pela terra. Desaparecera sem deixar vestígios. Desmarcando as consultas do dia, Leo por precaução tratou de fazer um saque bancário, preparando uma maleta com o dinheiro. Entregou a maleta a Lívia, que a guardou em seu armário particular no hospital. Conversando, trataram de repassar os acontecimentos das últimas semanas, procurando algum ponto de apoio para qualquer desconfiança. Procuraram construir uma história que pudesse ser aceita sem desconfianças. Embora nada encontrassem que justificasse a convocação, prepararam-se para o pior. Ao cair da noite, Leo, conforme o combinado, estacionou seu carro cuidadosamente a uma quadra da delegacia. Procurando aparentar serenidade, foi conduzido a uma sala no segundo andar. Foi ali recebido pelo delegado local, que desculpando-se pelo transtorno, foi-lhe aos poucos endereçando perguntas, que mais pareceram a Leo, estratégia para comprometer a sua concentração. Perguntou-lhe sobre os atendimentos prestados aos manifestantes da passeata e ainda sobre seu eventual relacionamento com eles. Após uma hora do que lhe pareceu um interrogatório preambular, uma porta abriu-se para dar passagem a Alberto. Como sempre envergava um uniforme impecável, com as inseparáveis botas de montaria. Apresentou-se cordialmente como o chefe da polícia política local, e responsável por erradicar as atividades da guerrilha na região. Pedia desculpas pelo atraso. Contudo Leo tinha a certeza de ter sido por ele observado atentamente durante toda a primeira parte da entrevista. Provavelmente através de um espelho, colocado sem qualquer necessidade naquela sala. Alberto conduziu as perguntas para os anos que antecederam a chegada de Leo a Campo Grande. Repentinamente perguntou pelos amigos da universidade. Intimamente consternado, mas procurando manter um diálogo superficial e quase irreverente, respondeu superficialmente aquilo que já havia combinado com Lívia. Que logo após sua formatura, tinha abandonado o Rio de Janeiro, sem mais ter tido contacto com nenhum deles. Sabia entretanto, que os planos de um ou dois envolviam o desenvolvimento de cursos de pós-graduação no exterior. Quanto a ele, procedente de família modesta, tinha decidido clinicar no interior do país, aproveitando as oportunidades que uma cidade emergente oferecia. E acreditava ter sido bem sucedido em Campo Grande, que o acolhera com oportunidades únicas. Em toda a fase de renovação política pela qual o pais atravessava, concluira que a melhor maneira de serví-lo era trabalhar e atender seus pacientes com dedicação. Alberto ouviu-o atentamente. Olhos fixos e penetrantes. O esboço de um sorriso. Ao final, levantou-se, agradeceu polidamente o incômodo daquela entrevista. Apenas solicitou-lhe sutilmente que não abandonasse a cidade, sem comunicar-lhe. E que, se necessário, voltaria a chamá-lo. Uma ameaça velada. Um aviso de que Leo não estava ainda livre dele. Ao sair, Leo libertou toda a apreensão que lhe ia interiormente, percebendo o suor que lhe incomodava sob o paletó claro. Aquele militar, insuportavelmente arrogante, certamente sabia mais do que demonstrara. Talvez estivesse iniciando um jogo de gato-e-rato para, no momento mais oportuno, dar a sua estocada. Tinha que se preparar para os próximos dias. Tinha combinado com Lívia, que qualquer que fosse o resultado, nào tentaria entrar em contacto com ela. Certamente estaria agora sob vigilância. Dirigiu-se para casa. Contrariando todos os seus hábitos serviu-se de uma generosa dose de uísque. Geralmente não tomava álcool. De quando em quando um bom vinho, para regar um surubi na telha ou uma picanha na brasa. Naquela noite, entretanto, necessitava de algo mais forte para relaxar. Que tipo de informação motivara seu depoimento. A atenção aos manifestantes? Ou na verdade seu relacionamento com os antigos amigos, agora implicados na luta para a reisntalação da democracia. Na realidade, esta última proposta, na fase atual, soava como uma grande ilusão. Dormiu um sono entrecortado. Perdeu hora, levantou-se e dirigiu-se, como de hábito, ao hospital. De nenhum modo deveria alterar em nada sua rotina. Não poderia despertar qualquer suspeita. Reconhecia em Alberto um adversário aparentemente implacável. Obstinado e também dissimulado. Não deveria nunca ser subestimado. No hospital, ambiente acima de suspeitas, Lívia o esperava ansiosa para saber dos detalhes da entrevista. Chegou a preocupar-se, e muito, a partir da intervenção do cavalariano. Por um instante chegou a ligá-lo ao comandante das tropas que desbarataram a passeata, e que a agredira tão colericamente. Também não imaginava como estariam ligando Leo aos antigos companheiros. Logo saberia.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 7) 1975 - PRIMEIROS REENCONTROS

Lívia movida por motivos que não conseguia explicar, nem para si mesma, não procurou Sérgio. Limitou-se a acompanhar de longe as atividades do ex-companheiro, discreta e quase imperceptivelmente. Seguiu-o por semanas, meses, até conhecer toda a sua rotina. Toda a sua vida. Era incrível a mudança. Nem de longe lembrava o jovem inconsequente e alegre de outros tempos. Trabalhava arduamente em um emprego que o consumia. Vestia-se quase com desleixo. Mas os olhos, estes sim revelavam uma mudança extraordinária. Tinham envelhecido. Na maioria das vêzes o olhar distante perdia-se no nada. Mesmo assim era bem conceituado,quase querido, tanto pelos colegas`de trabalho, quanto pelos doentes que atendia. Não parecia ter ambição nenhuma. Vivia dia após dia, apenas na espectativa do próximo dia. A única demonstração de procura por um objeto de desejo fora a compra de um pequeno apartamento no centro. Continuava sozinho. Aparentemente sem qualquer relacionamento, fosse feminino ou masculino. Nunca levava ninguém para casa. Um dia apareceu com um cachorro vira-latas. E com ele ficou. Eventualmente nas noites quentes de Campo Grande eram vistos passeando juntos. Tinha-se a impressão que Sérgio até conversava com o cão. Palavras que eram dirigidas apenas para ouvidos silenciosos. Também que não interpretavam ou julgavam. Apenas ouviam. Progressivamente estas longas confissões, sem resposta promoveram uma progressão positiva no seu modo de ser. Tornou-se um pouco mais afável, embora não sorrisse nunca. Lívia aos poucos se aproximou dos companheiros de trabalho, discretamente procurando saber o que acontecera com Sérgio. Mas ninguém sabia de nada. Apenas boatos. Surgira do nada em Campo Grande. Sem família. Sem amigos. Sem passado. De temperamento difícil, quase torturado limitava-se a executar o seu trabalho, porém com dedicação. Como se este fosse o seu único objetivo de vida. Lívia achou prudente não se revelar, e passou a acompanhar à distância os passos do antigo companheiro. Passou a admirar cada vez mais o novo comportamento de Sérgio. Uma feceta que nunca conhecera antes. Discreto, procurava desempenhar suas funções com altruísmo, tudo fazendo para confortar os infelizes que transportava em sua ambulância. Procurava simplesmente ser útil, sem sequer demonstrar sua identidade. Muito diferente do Sérgio de outros tempos. Embora Lívia cada vez mais se amargurasse com a ausência da família, vivendo absolutamente só, decidiu respeitar a decisão de Sérgio em relação à sua nova vida. Fossem quais fossem os motivos que o tivessem levado a tantas transformações, ela optou por respeitá-los. E manteve-se à distância. Simplesmente observando. Isto lhe trazia ao menos a impressão de não estar tão só. Além do mais continuava sendo extremamente perigoso tentar deixar o país. Os agentes federais vigiavam rigidamente aeroportos e postos de fronteira, ávidos por capturar qualquer suspeito de participar ou até mesmo simpatizar com a causa da resistência. O número de guerrilheiros desaparecidos em ação, ou ainda simplesmente suspeitos que deixavam sua casa para o trabalho, e deles não se tinha mais notícias, aumentava a cada dia. Mesmo com as evidências do progressivo enfraquecimento do movimento de guerrilha, mais arroxada era a perseguição imposta. Lívia entendia que a possibilidade de viajar e reencontrar a família estava ainda muito distante. Por seu lado, Sérgio, sempre só, jamais poderia imaginar estar tão próximo da amiga de sua juventude. Nem que ela estivesse igualmente passando por dias tão amargos. Mantinha-se atento e apreensivo. Não saberia quanto tempo ainda poderia manter sua identidade atual. A nova vida que escolhera. Esta o fazia sentir-se vivo. Contudo ainda assombrado pelos pesadelos de sempre. Certa manhã de agosto sua unidade foi chamada para recolher feridos em um confronto entre a população e a polícia do exército. Uma passeata que inicialmente deveria ter sido apenas uma manifestação pacífica, transformou-se em uma cena de brutalidade explícita. Degradante. Em meio a bombas de efeito moral, policiais portando escudos protetores haviam invadido o pátio da universidade e,sem controle, agrediam com longos cassetetes estudantes e transeuntes. Com brutal eficiência. O oficial em comando, montado em um cavalo castanho irriquieto, simplesmente deixava a violência correr solta, sem tomar qualquer medida preventiva. Simplesmente observava, com um sorriso rasgado no rosto. Sorriso frio e cruel. Cabelos pretos lisos sob o capacete branco. Subitamente ao ver uma jovem correr, fugindo da ação policial, esporeou o cavalo e com seu chicote de montaria fustigou a face da fugitiva assustada, derrubando-a, a cabeça violentamente colidindo com o asfalto. Incontinenti Sérgio correu para socorrê-la, impulsivamente. Protegendo-a com o seu corpo. Mal chegara a tocá-la, quando o agressor voltou à carga, agora golpeando repetidas vezes o dorso e a cabeça do paramédico. Com uma violência acima da já demonstrada. Ordens ríspidas fizeram com que Sérgio fosse arrastado para dentro de um camburão. Atirado como um saco de batatas, junto com outros feridos. Não demorou para que o camburão se dirigisse à Casa de Detenção, onde deixou sua carga. Como gado foram lançados em celas coletivas, já apinhadas. Não havia lugar para que permanecessem deitados. Tinham que permanecer em pé apesar de suas condições lastimáveis. Todos estavam muito machucados. As roupas rasgadas e tingidas pelo próprio sangue. Sérgio perdera de vista, atordoado e ferido, a mulher duramente espancada que procurara socorrer. Sequer tinha-lhe visto o rosto. Apenas os cabelos curtos e claros. Horas se passaram. Até que um forte jato de água, de uma mangueira manobrada por robustos carcereiros,varreu todos para o extenso pátio da prisão. Cercado de policiais militares fortemente armados. Ali ficaram sob o causticante sol da tarde, sem qualquer proteção. A noite caiu, e nada mudou. Sede e fome começaram a fazer os infelizes entrar em colapso e desfalecer. A guarda foi trocada. Durante toda a noite ficaram expostos no pátio. A partir das dez horas do dia seguinte, confusos e enfraquecidos, um a um foram conduzidos para interrogatório. Culpados ou inocentes, todos eram tratados igualmente. Vilmente. Como gado a ser conduzido ao matadouro. Ou a estábulos sem higiene. Alguns eram libertados após longas horas. Outros voltavam para a cela coletiva. Nenhum foi encaminhado para prestação de primeiros socorros. Sérgio testemunhava tudo com indifereça. Sofrendo. Mas para ele nada era novidade, depois de tudo o que havia presenciado em Palestina. Um a um foram conduzidos ao interrogatório, ao longo de todo o dia, noite a dentro. Até que restou no pátio apenas um Sérgio exausto. Para sua surpresa, e mais uma vez sem alimentação ou água, foi deixado sob vigia durante toda a noite. Pela manhã, alquebrado e quase inconsciente, aos ponta-pés foi levado para a sala do interrogatório. Apenas uma mesa no centro. Sentado sobre ela, de costas, fustigando levemente a bota com o chicote de montaria, o interrogador esperava pacientemente. Os olhos cansados e atordoados de Sérgio mal viam a silhueta. Mas o esgar maldoso, os cabelos lisos e untados de vaselina, e a voz! A voz jamais esquecida. Por tantas ordens descabidas e sentenças de morte pronunciadas com frieza. Até com irreverente arrogância. Um espectro do passado recente voltava para atormentá-lo impiedosamente. O tenente Alberto. Na noite anterior,Lívia trabalhava na gráfica fora do horário de expediente. Recebera uma incumbência do partido. Redigir e imprimir panfletos que denunciassem o processo sistemático de eliminação sem julgamento que o governo desenvolvia abertamente contra os remanescentes do movimento do Araguaia e seus colaboradores. Uma grande manifestação pacífica estava programada. E havia necessidade de que a comunidade fosse adequadamente informada sobre os motivos da passeata. Após várias tentativas,chegou a um texto conciso, que objetivamente, em uma só folha,informava e exortava a população a não aceitar aquela infração dos direitos de cidadania. Que as prisões até fossem feitas, mas sem brutalidade, e permitindo o direito a um julgamento adequado, e,se necessário,a justiça fosse feita com dignidade. Pensava que se tudo fosse assim resolvido, talvez até a resistência armada não se fizesse necessária.Pensava também em Tiago e em sua filha, que já deveria estar crescida. Talvez sequer a reconhecesse. Não se lembrava de Tiago ter levado qualquer fotografia sua. Já não tinha notícias há tempos. Não pudera acompanhar as suas primeiras palavras, as tentativas dos primeiros passos. Perdera todas essas experiências. As que todas as mães se orgulham e se encantam. Mas suas escolhas,nesses tempos de angústia e opressão, tinham traçado não o caminho da mãe carinhosa, mas o da cidadã ativista, digna de respeito, mas pobre e carente de afeto. Não se arrependia de nada. Até faria tudo de novo. Mas a saudade da família, de quando em quando lhe assolava a alma. Naquele mesmo momento, do outro lado do Atlântico, em um pequeno estúdio em Montmartre, atrás da place de Tertre, Tiago acordava carinhosamente a filha. Afagava-lhe o rosto miúdo, tão parecido com o da mãe. O peito oprimido pela saudade. A esperança de que tudo estivesse bem com Lívia. Na noite após a passeata Leo nunca estivera tão ocupado. Por coincidência era seu dia de plantão no hospital. O número de feridos no tumulto daquela manhã parecia não terminar. Apesar de não ter-se verificado nenhum ferimento de arma de fogo, havia as queimaduras provocadas pelas bombas lançadas pelo exército. Mas as contusões, principalmente cranianas, escoriações, traumatismos de face, fraturas de costelas e até de ossos da bacia testemunhavam toda a violência aplicada pela repressão policial. Toda vez que a ação policial se fazia presente com a brutalidade daquela manhã, pela freqüência dos traumatismos cranianos e oculares, Leo era chamado, por ser o oftalmologista mais experiente da região. Adquirira fama pela sua competência, e também por nunca recusar-se a atender um chamado, fosse a hora que fosse. Construira sua vida solitário, mas fazendo dos pacientes amigos e amiradores. Suas lembranças, entretanto mantinham-se vivas. Secretamente nunca se recuperara da dor provocada pela impotência, exatamente ao perder a única mulher por quem se interessara na vida. Glória. Que teria sido feito dela... Talvez casada e criando seus filhos na Europa. Uma realidade distante demais da sua. Não procurava pensar em Sérgio. O rancor inicial tinha se diluido com o tempo. Mas tinha sido ele o instrumento de sua maior desilusão, exatamente quando despertava para a vida. Tiago desaparecera com Lívia. Soube que havia sido exonerado do cargo que ocupava na universidade. Rodolfo havia se exilado temporariamente, não sabendo quando voltar. Mais uma vez estava sozinho. Mas na realidade sempre estivera. Tinha o seu trabalho. Mas faltavam-lhe os sonhos. De que vale o homem que não acalenta um sonho? Afastando conscientemente esses pensamentos, deu o ponto final na sutura do supercílio,que até bem pouco tempo atrás ainda sangrava. Retirando as luvas, passou para a sala ao lado para realizar uma enucleação. A vítima tinha sido agredida por um golpe de cassetete que lhe vazara o olho. Cabia a Leo a restauração da cavidade ocular. Pacientemente reiniciou seu trabalho, deixando para trás seus devaneios. Deitada na maca fria e dura, olhava a lâmpada do teto, a luminária com a pintura branca descascada. As paredes com barrado de azulejos brancos, encardidos. A janela protegida com telas anti-mosquitos. O ar condicionado, que já vira melhores dias, funcionando ruidosamente. Havia pouco recuperara a consciência. Estava na enfermaria de retaguarda do pronto-socorro municipal. Lotado. Os feridos na manifestação que deveria ser pacífica, uma passeata de renvindicação de legalidade, a ser aplicada pelo governo legalista, transformou-se em um caos, dado à violência da atuação da polícia. Lívia relembrou passo a passo sua atividades no dia. Levando consigo os panfletos impressos na noite anterior, entregou-os aos representantes do partido, promotor da passeata. Poderia muito bem afastar-se da manifestação, por todos os motivos. Mas se contaminou com o entusiasmo dos manifestantes. Há tanto tempo tinha se anulado. A antiga chama reascendeu, falando mais alto que a prudência. Lívia passou a a distribuir os folhetos que imprimira, juntando-se ao côro de vozes que ritimava a passeata com expressões de ordem e conclamação à justiça. À medida que acompanhava a passeata todo o seu íntimo vibrava. Como pudera ter se contido por tanto tempo? A emoção de participar de uma reivindicação em prol de melhor qualidade de vida para todos, de justiça e liberdade. Seu sangue corria celeremente. Sentia-se viva e resgatada de um sono pesado e entorpecido. A passeata dobrou a rua e avançou em direção à prefeitura. Subitamente diminuiu o ritmo. Postada duzentos metros adiante, uma barreira de capacetes brancos, encimando escudos e cassetetes se perfilava ameaçadoramente. Um oficial da cavalaria comandava a tropa. Mão direita no quadril, brandia arrogantemente um chicote de montaria. Pistola no coldre, esporas e botas. Mais atrás um carro de combate equipado com poderosa mangueira, geralmente usada para dispersar a multidão com potentes jatos de água. A passeata retomou seu caminho, aproximando-se perigosamente da tropa. Surpreendentemente a mangueira não foi usada. Ao invés disso, ao comando do cavaleiro,os soldados avançaram rapidamente golpeando violentamente os integrantes da passeata. Os que vinham atrás nào estavam preparados para tanta violência e foram presa fácil para os legalistas. Como uma manobra estratégica cuidadosamente preparada, das ruas paralelas surgiu um outro contingente de soldados, que cortou a retirada dos manifestantes. Estes ficaram prensados por duas paredes vivas, que golpeavam insistentemente, derrubando todos os que não conseguiam se esquivar aos duros golpes. Instalado o caos, a correria se generalizou. Salve-se quem puder. Em meio à chuva de golpes, Lívia conseguiu fugir em desabalada carreira, furando a barreira de golpes. De repente, sem que sequer atinasse com o ocorrido, percebeu o cavalariano galopar em sua direção. Aturdida, mal sentiu o chicote de montaria golpeando-lhe profundamente a face. Foi ao chão. Uma dor surda varou-lhe a têmpora direita. Depois braços a proteram e apararam outros golpes do chicote incansável. Quase inconsciente, conseguiu fugir auxiliada por outros manifestantes. Depois desfalecera. Voltara a si, muito tempo depois. Na enfermaria do pronto-socorro. Bandagens na face e em torno da cabeça. Ao lado de outros feridos, alguns em estado grave. Envergonhava-se de não se sentir tão ferida. Havia outros que necessitavam de mais ajuda do que ela. Mas fosse pela medicação fosse pelo estresse, sentiu-se flutuar no espaço, e desfaleceu outra vez. Muitas horas depois acordou suavemente. O corpo doía difusamente, mas a cabeça estava melhor. Percebeu uma longa atadura na face esquerda, que teimava em latejar. Uma enfermeira estava a verificar seus dados vitais. Chamou o médico encarregado do setor para passar-lhe a informação. Ainda entorpecida pela medicação, projetando-se do seu passado, de sua juventude, uma voz perfeitamente familiar perguntava pelo seu estado. Demorou apenas alguns segundos, mas reconheceu aquele acento mineiro, que tantas vezes a chamou pelo nome. Que lhe segredava seus desencantos ao pé da orelha. Vertiginosamente uma sequência de imagens, de uma época feliz e de realizações passoais, projetou-se em suas retinas. Em seu cérebro entorpecido e magoado. Leo. As narinas alargadas pelo sorriso cínico. O cabelo crespo esticado pela vaselina. No uniforme impecávelmente passado, calçando reluzentes botas de montaria, olhos reluzentes de escárnio, perfilado na frente de Leo, estava Alberto. Em meio à névoa que lhe toldava os olhos, imaginou tratar-se de mais um de seus pesadelos. Outro espectro do passado que voltava para assombrá-lo, como ainda fazia Chico. Uma pesada bofetada, porém chamou-o à realidade. Um pesadelo real, na odiada figura do militar. O atordoamento e o estado lastimável causado pelas privações das últimas horas subitamente arrefeceram provavelmente pelo choque do reencontro. Alberto sorria desmesuradamente, como que gozando toda a não disfarçada satisfação daquele momento. O verme que lhe escapara no distante lugarejo de Palestina, que como marionete era manipulado e utilizado como olheiro e delator, ali estava outra vez em suas mãos. E em que situação: roubara-lhe a oportunidade de se divertir espancando uma vaca comunista. Protegera-lhe o corpo caído no asfalto contra as chicotadas que ele, incansavelmente desferia. O cão ousara se opor à sua vontade. Iria se arrepender como nunca. Seria dali para diante seu saco de pancadas. Seu cão. Seu instrumento para testar novas formas de tortura. As rodas do destino ainda rodavam a seu favor. Havia seis meses que seus superiores o haviam transferido para Campo Grande. Pelos bons serviços prestados ao governo, na caça e captura de guerrilheiros no Araguaia, e obtenção de preciosas informações sob tortura. Promovido a capitão, chefiava agora o destacamento militar da cidade. Famosa pela afluência de fugitivos, que dela faziam sua rota de fuga através dos países do Cone Sul. E agora a satisfação de poder aplicar toda sua imaginação fazendo um inferno da vida daquele verme ruivo. De nada lhe adiantaria o diploma universitário, engenheiro frustrado, incapaz de construir nada. Incapaz de resistir à dor. Revolucionário de merda. Tinha muitos planos para ele. Brandindo-lhe outra bofetada, mandou prendê-lo em uma cela umida, fétida e sem janelas. Leo estava atônito. Jamais poderia esperar que seu passado o atingisse tão inesperadamente. A mulher naquela maca da enfermaria de emergência, espancada e maltrada pelo tempo, era a mesma que o acompanhara nos anos de sua juventude. Aliás aqele grupo de amigos sempre esteve fortemente reunido. Juntos na alegria, irmanados na ideologia de construir um país melhor. Glória, Lívia e Leo sempre estiveram muito próximos. A ponto de causarem até uma certa ciumeira entre o grupo. Sérgio, debochadamente os chamava, à semelhança do quadro famoso, e pela excessiva sensibilidade de Leo, de As Três Graças. Lívia estava marcada pelo sofrimento e pelas decepções dos últimos anos. As ataduras cobriam parcialmete a face e os cabelos. Que em nada lembravam o castanho escuro de outros tempos. Mesmo curto e artificialmente alourado, emoldurava os mesmos olhos cor-de-azeitona, que intensificavam a cor quando ela se zangava. O nariz afilado encimava lábios finos, mas sensuais. Uma pequena pinta escura acima do lábio superior à esquerda. Era mesmo Lívia que ressurgia, invadindo involuntariamente a privacidade que construira desde que se formara. Como um torvelinho todos os anos esquecidos foram reavivados. A alegria e também a dor e a decepção. Assustado inicialmente, deixou-se aos poucos invadir por uma sensação de comiseração para com ela e também para consigo mesmo. Como o tempo os tinha transformado! Também interiormente. Sentia-se curioso, mas não incomodado. Também havia muito que os maus pensamentos e o desejo de vingança haviam desaparecido. Até desejava confirmar seus sentimentos, procurando saber o que o tempo tinha reservado para seus antigos amigos. Tiago e Rodolfo, bons companheiros, de grande caráter. Nunca se aproveitaram de sua insegurança, nem dela zombaram. Fato comum na juventude. Quando as feridas alheias são expostas irresponsavelmente em momentos de inconsequência coletiva.Até sem maldade. Sempre mantivera a melhor lembrança de ambos. Que quando necessário o protegiam das encrencas em que se metia. Pelo seu espírito crítico e humor ácido. Nunca quisera ter-se afastado deles. Mas houve uma época em que mal conseguia suportar a si mesmo. Uma época de depressão, quando no fundo do poço, arrasado, chegara até mesmo a pensar em por fim à vida. Não o fizera talvez por falta de coragem. Preferira fugir, tentar recomeçar a vida a seu modo, em uma cidade menor, onde ninguém cobraria sua história de vida. Ou ainda sua solidão. Não fora bem assim. A solidão voluntária acabava sendo sempre questionada. Sempre testada. Mas isto ainda conseguia superar. Tinha seu trabalho. Ao qual se dedicou de corpo e alma. Lívia mantinha-se adormecida sob a ação dos analgésicos. Mais tarde a procuraria. Tentaria reaver parte do tempo perdido. Parte da história da qual um dia não quisera participar. Algo poderia e até deveria ser resgatado. Carinhosamente afagou os cabelos da mulher na maca, e afastou-se para continuar seu trabalho. Havia outros que necessitavam dele. Sentia-se estranhamente mais leve. Como se na confusão reinante no hospital, subitamente abrira-se uma clareira de luz. O reencontro de si mesmo. Não fugiria mais agora. Em sua cela, Sérgio se apercebia da ironia de seu destino. Toda a violência e crueldade gratuita de que fugira, tudo de execrável que tinha procurado deixar para trás, repentinamente de novo o atropelava. Exatamente quando estava tentando reconstruir sua história. Não era tanto o sofrimento físico, o espancamento, a sede. Mas a tortura mental que se iniciava. Tudo poderia ser esperado a partir da mente perversa e corrompida de Alberto. Um espírito das`trevas, contudo vivo, concreto, pronto a praticar toda a sorte de sordidez. E ainda com o poder que lhe conferia sua patente no exército. Precisamente em um momento quando todo o país estava subjugado pela ditadura militar. Face a essas negras`perspectivas, deixou-se levar pelo amortecimento que tomava conta de seu corpo maltratado e desfaleceu. Despertou de um sono intranquilo, pouco restaurador, onde imagens confusas se misturavam. Lívia chapada pela bebida, arrastada por ele, invadindo a biblioteca da mansão no Jardim Botânico, onde Glória e Leo se entrelaçavam. A primeira visão do rio Araguaia, aparentemente calmo e de águas profundas. O contacto com os moradores locais. O fantasma de Chico – erecto, sangrando, os braços cruzados a observá-lo As mãos decepadas dos guerrilheiros mortos, para que suas impressões digitais não fossem identificadas. A seu lado uma gamela com pão amolecido, aveia e água. Seria a primeira das muitas refeições iguais que teria. Sabendo que deveria reservar forças para o que lhe reservariam os próximos dias, comeu. Sem se aperceber. O frio e duro piso de cimento aumentava-lhe a dor. Perguntava a si mesmo quando seria merecedor de um sono tranquilo, e dias simples, apenas tranquilos. Se é que um dia ainda os pudesse ter. O reencontro com Glória tinha sido uma extraordinária demonstração de que o destino rege a vida dos mortais. Rodolfo após a emoção dos primeiros momentos, procurou saber o que todos aqueles anos tinham trazido para Glória. Ao mesmo tempo fazendo uma comparação com a sua própria vida. Soube das dificuldades iniciais para sua especialização em psiquiatria, seu encontro com o futuro marido, seu desempenho profisisional. Também soube de Amélie e do insucesso do casamento de Glória. Uma vida densa, com experiências difíceis, quase inimagináveis para a jovem irreverente, sedutora e alegre que tinha sido anos atrás. Imagem que dela sempre trazia. Também havia uma outra imagem perturbadora e definitiva. Glória submetida às fogosas investidas de Sérgio, o corpo alucinadamente explodindo,nos estertores de um sexo inconsequente. Esta outra, durante muito tempo causou-lhe,além da perda das ilusões, a certeza de buscar novos caminhos. Por outro lado, Gória, após o choque dos primeiros momentos, o abraço espontâneo e o peito explodindo na emoção do reencontro com a testemunha viva da fase mais feliz de sua vida, quedou-se anestesiada. Sem outra reação que não interrogá-lo insistentemente sobre tudo e todos. Caindo em si, após tudo o que experimentara desde que chegara a Paris, verificava que tinha deixado atrás de si muito mais do que imaginara. E que se importava muito com isso. É claro que acabara concretizando a maior parte de seus sonhos, como profissional. Como mulher, havia tantas perdas. Além disso, o que deixara de viver com aqueles, que durante anos tinham composto o cenário de sua juventude.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 6) O ANO DA FÚRIA

1974 - O ano da fúria Tiago levara meses para se recuperar do interrogatório e da tortura. Mais ainda da simulação de execução ao final de seu cativeiro. O estalido do percursor na câmara vazia da pistola de cano duro e gelado ainda ficou presente muito tempo. A sonora gargalhada ressoando na escuridão da noite, o corpo e a alma, massacrados impiedosamente. Entretanto, mais que isso, a perda da dignidade e a total ausência do senso de justiça. Sua vida pública estava arrasada. Desprestigiado na universidade, impedido de dar aulas, sem qualquer cargo administrativo, nada tinha que o impulsionasse a continuar vivendo. Nada, exceto Lívia. Esta tão logo o viu livre, passou a assumir o papel que sempre deveria ter sido seu. Tomou a si o encargo de entregar a Tiago seu carinho e afeto. Tornando-se companheira e amante. Entretando devotando ódio e indignação ao regime que tanto maltratara Tiago. Mudaram-se para São Paulo, tão logo Rodolfo saíra do país. Enquanto Tiago tentava recomeçar a vida como médico no hospital Heliópolis, Lívia se firmava como defensora pública da classe operária. Logo estava plenamente envolvida com o PC do B. E, graças ao seu preparo intelectual e antecedentes de vida, uma das redatoras de panfletagem da propaganda comunista. Uma posição tão importante quanto perigosa. Toda a revolta decorrente da atual situação política, e muito mais da degradante forma de tratamento infringida a Tiago, era extravazada em incendiárias palavras, conclamando a juventude e a população a apoiar a resistência armada no Araguaia, agonizante, mas ainda a última barreira contra o regime de fôrça. Nem a gravidez recente a demovia de atuar impertinentemente. Tiago, ainda mesmo se restabelecendo, auxiliava como podia. Agora com uma filha a caminho, tinha que se acobertar ainda mais, para que a mulher nào fosse descoberta em toda a sua atividade clandestina. Mas o cerco se fechava. A polícia secreta em São Paulo ainda era mais eficiente que a do Rio. Uma noite, meses após o nascimento da filha, Tiago de plantão no hospital, Lívia atendeu ao chamado insistente da campainha do pequeno apartamento. A face magra de malares salientes, pele queimada e enrugada pelo sol do nordeste, encimada por olhos cansados, mas emitindo um sentimento de alívio revelou-se a Livia. Era como se um Tiago, envelhecido, mas ainda robusto estivesse defronte a ela. Não foi difícil advinhar a presença do sogro, há tantos anos soterrado pelo tempo. Um espectro do passado, mas com um que de ansiedade e quase esperançà. Aliviado por ter encontrado a família do filho, que havia renegado. Esperança por ser recebido. Pelo menos ouvido. Tinha acompanhado à distância a adversidade do filho. E agora, através de seus contactos com o regime militar, ciente do futuro sombrio que esperava o filho e sua reduzida família, ali estava. Alma no chão. Carregando todas as culpas do passado. Livia ouviu-o com atenção, como que preparando-o para o encontro com Tiago. O primeiro impulso foi expulsá-lo. Mas conteve-se. Quando Tiago chegou, algumas horas depois, um misto de surpresa, revolta e prostração o acometeu. Ainda fragilizado pelo passado recente, subitamente o passado distante o acometia, com todo o peso da tragédia. O pai assassino impune. Após anos de esquecimento total, invadia sua casa e sua vida. Não para implorar por perdão. Mas para resgatar o apoio de pai sempre ausente. Inexistente. Trazendo consigo a informação crítica da iminente prisão do filho e da nora. Também bilhetes aéreos e salvo-conduto para a imediata saída do país. Repentina, e para Tiago, inexplicavelmente, o rancor de toda uma vida, desapareceu. Como se o passado, por mais pesado que fosse, naquele momento nào tivesse qualquer importância. A figura do pai, envelhecido, as faces sulcadas por profundas rugas, marcas de expressão de sentimentos idos e vividos, fez com que a voz do sangue falasse mais alto. Renunciando a mágoas e a anseios de justiça, esqueceu as culpas atribuídas ao pai, e abraçou-o em prantos. Já havia passado por muito sofrimento. Era hora de deixar fluir as emoções mais reconfortadoras e acariciantes. Há muito estava carente disso. O abraço entre pai e filho durou quase uma eternidade. Depois, enquanto argumentava sobre a necessidade urgente da fuga, o velho deliciava-se com a neta, como se em um curtíssimo espaço de tempo pudesse reaver o sentimento de toda uma vida. Quase sem qualquer preparo, apenas com poucos pertences pessoais, Tiago e a filha, acompanhados pelo pai, viajaram para Campinas, já que a rota de fuga passava pelo aeroporto de Viracopos. Enquanto Lívia ficava para trás, insistindo em entregar um último texto para o partido. Quase ao amanhecer, ao chegar ao escritório, percebeu um movimento pouco comum na rua, que naquela hora deveria estar quase deserta. Destino ou sexto-sentido fizeram com que Lívia não parasse o carro. Incontinente um furgão verde-escuro iniciou uma perseguição pelas ruas da Vila Mariana. Lívia astutamente subiu pela Rua Pedro de Toledo, virou à direita na Rua Botucatu, e, antes que o furgão se apercebesse, abandonou o carro em um dos pequenos estacionamentos que servem ao Hospital São Paulo. Rapidamente correu em direção ao Pronto Socorro, como se fosse para atendimento de urgência. Não foi difícil para ela desaparecer na fervilhante atividade do hospital, mesmo naquela hora da madrugada. Um taxi a conduziu para a estação rodoviária. O combinado era encontrar-se com Tiago e a filha em Paris. Haviam marcado um encontro dali a uma semana, no café La Sorbonne, defronte da entrada principal da Sorbonne, no boulevard Saint Michel. Mas agora tudo estava perdido. Certamente os agentes dos aeroportos já deveriam ter sua descrição. Voar era impossível. Reencontrar a família só Deus saberia quando. Se é que Deus estivesse interessado no sofrimento dos que lutavam por um Brasil melhor. Trazia consigo parte do dinheiro que o sogro reservara para a fuga da família. Mas não sabia para onde ir. Ou o que fazer. Somente tinha a certeza de que a polícia estava em seu encalço. Não havia quase para onde fugir. Na própria rodoviária, em uma farmácia comprou tintura para os cabelos e uma tesoura. Cortou rente seus cabelos, tingindo-os de louros. Óculos escuros comprados em um camelô, uma jaqueta jeans com acessórios de metaleira – e uma outra mulher saía da toilete feminina. Ao acaso,escolheu uma cidade longe da eficiência policial de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ainda consternada pelos últimos incidentes e pela perda dos que mais amava, rezava apenas que eles estivessem bem, já longe das desventuras que a pátria reservara para todos eles. Em plena estrada, no ônibus que a conduzia para a longínqua Campo Grande, procurava deseperadamente compor um plano de fuga, uma nova rota de vida. Deveria sobreviver a qualquer custo. Em nome de Tiago e da filha. Em nome também de seus ideais, mais reacendidos agora. A aeronave da Air France cruzava os céus em uma velocidade de cruzeiro segura, noite a dentro. As comissárias tinham acabado de servir o jantar. Na classe econômica estava sendo servida carne assada com batatas.Tiago não tocou em nada. Arrasado. Uma sucessão de sentimentos desordenados martelavam-lhe a cabeça. O retorno do pai depois de tantos anos. Sua intervenção oportuna, e o apoio financeiro, que lhe valera a liberdade. E um futuro com sua filha. Mas havia agora a torturante ausência de Lívia. Seu apoio e seu porto seguro depois de tantas desventuras. Estaria ela também a salvo? Teria condições de encontrá-la outra vez? Paris era todo um mundo novo.Até amedrontador. Mas os exilados que lá estavam tinham seus modos de se comunicar e se ajudarem. Longe, muito longe dalí, as luzes do vilarejo de Palestina pareciam velas luzindo fracamente na escuridão da noite,como que pedindo auxílio a uma fonte de luz que não viria nunca. À semelhança da guerrilha, que também agonizava. As forças legalistas contavam agora com auxílio internacional. Aos guerrilheiros restava apenas a esperança do impossível. Banhado em suor, Sérgio acordara após um sono entrecortado sempre pelo mesmo pesadelo. A face esguia de Chico, com seus olhos faiscantes, lhe apareciea em meio à névoa, erguendo-se do alagado em que, finalmente, seu corpo mutilado pela tortura fora deixado. Insepulto. Para ser devorado pelos urubus. Levantava-se, e, com seu jeito característico de andar, arrastando a perna recurvada, dirigia-se a ele, a camisa manchada de sangue, estendendo as mãos como a pedir ajuda. Os lábios balbuciando “... por que ?” Levantou-se e sorveu um gole de cachaça. Ultimamente estava abusando do álcool, embora este nunca chegasse a anuviar os seus sentidos e as suas lembranças. Principalmente aquelas que gostaria de enterrar. Levantou-se e saiu do casebre que lhe servia de casa. A que ponto chegara! Pela sua proximidade com o tenente Alberto, torturador venal, já não contava mais com a simpatia da população local. Até o evitavam, como a um cão sarnento. Completamente só, era procurado apenas pelo militar, mesmo assim apenas quando dele necessitava para algum trabalho sujo. A brisa da noite trouxe um momento de alívio. A noite estrelada fazia seu peito doer. Tanta beleza em tamanha imensidão. Em seu coração tanta covardia, tanta infâmia. Naquele momento bem poderia ter atirado. Salvaria o que sobrara de Chico, seu amigo e companheiro. Na pior das hipóteses teria lhe dado uma sepultura, e seus pais teriam sabido que o filho, morto por um ideal, repousava dignamente. Até isso fora incapaz de fazer. Medo e covardia. Dera as costas ao companheiro, da mesma forma que fizera a todos os desafios de sua vida. O peito lhe doía mais e mais, a respiração oprimida. No céu as estrelas continuavam a brilhar formando uma abóboda de luzes. Como que promessas iluminadas de um novo dia. De um novo amanhã. Suas últimas semanas tinham sido miseráveis demais. Lembrou-se de Alberto. Rancor e ódio invadiram-lhe a alma. Pelo militar e pelo ser abjeto que havia se tornado. Antes o universitário despreocupado e competente, buscando um rumo para sua vida. Depois, sob a ação do álcool, inconscientemente deixara escapar, além daquela que poderia iluminar todos os seus dias, também os amigos mais próximos. Não tivera coragem para assumir seus erros e tentar qualquer aproximação. Quando se deu conta, todos estavam distantes, cada qual tomando um rumo diferente. Foi nessa fase de insegurança e indefinição que encontrara abrigo na comunidade do PC do B. Daí para o movimento do Araguaia, a viagem foi curta, mesmo porque via na oportunidade o meio de se redimir dos atos cometidos. Agora tudo havia se contaminado irreversivelmente. E de novo pela sua covardia. Atingira o fundo do poço. Um poço do qual não enxergava a saída. Subitamente tomou talvez a decisão mais determinada dos útimos anos. Talvez a única. Vagarosa mas resolutamente apanhou uma pequena mochila, e sem olhar para trás, embrenhou-se na mata, noite a dentro. Desaparecia outra vez. Fugindo de si mesmo. De seu passado abominável. Leopoldo Augusto dos Anjos, o homônimo do poeta. Destino amargo, nome infeliz. Por que é que todos os seus pacientes acima dos sessenta anos conheciam aqueles malditos Versos Íntimos? Com que prazer escatológico repetiam o último verso do mórbido poema – “escarra na boca que te beija! “. E sorriam placidamente sem se dar conta de quão repugnante lhe era sequer essa imagem. Durante anos a fio suportara essa situação repetidas vêzes. Toda a sua vida. Procurara esconder-se do mundo e de quem o conhecera por duas vees. A primeira fugindo da desdita da família e sua trágica herança. A segunda vez, humilhado pela impotência. Por sua indefinição sexual. Pela única oportunidade em que provaria o gosto da masculinidade absoluta. E não conseguiu. Mais que isto, outro tomara-lhe a frente. A paixão por ele despertada, o orgasmo embriagado de Glória fora o troféu conquistado por Sérgio. Todas essas emoções carregadas de dor e humilhação, serviram para desestimulá-lo a tentar qualquer outra aproximação com o sexo oposto, durante muitos anos. Vivera daí para frente solitário. Dedicado à profissão, tendo como alternativa a pintura. Desenvolvera uma técnica especial para pintar casarios. E até se tornara notável por isso. Também fora muito bem sucedido como médico. A oftalmologia em Campo Grande, cidade que se tornara sua terra há alguns anos, deixava muito a desejar. Tinha até muitos amigos, a maioria homens. Mas não achava normal o homossexualimo masculino. Vivia, portanto, um dualismo comportamental. Sem desejar as mulheres. Sem disposição, ou seria coragem, para aceitar os homens. Jamais também assumira qualquer posicionamento político. Vivendo como se não estivesse o país mergulhado nas trevas de uma ditadura militar. Lia as notícias, mas egoisticamente não as interpretava. Não se refletiam no espelho de seu pequeno e tranquilo mundo. Neste procurava apenas o lenitivo para uma vida ainda sem propósitos definidos. O futuro nào lhe trazia qualquer preocupação, ansiedade ou projeto a realizar. Parecia viver apenas para cicatrizar as feridas do passado. Sem perceber que estas nunca cicatrizam. Sempre o cerne continua vivo. Eventualmente adormecido. Mas sempre pronto a de uma hora para outra, sob situações imprevisíveis,a reabrir, dolorosa e criticamente. Notícias esparsas do passado até lhe chegavam. Sabia que Glória estava vivendo em Paris. Rodolfo se tornara um médico competente e bastante conceituado. Tiago assumira um cargo na universidade. Lívia desaparecera no tumulto da selva urbana do Rio de Janeiro. De Sérgio nunca mais ouvira falar. Nem queria. Não tinha o menor motivo para isso. E foi assim que o ano de 1974 encontrou Leo, para sacudir seu universo particular. Refúgio artificial. Para testá-lo mais uma vez. Como sempre a vida nos testa. Reabrindo velhas feridas, montando novos cenários, quase sempre nos oferecendo outras oportunidades. De resgate ou de persistência nos mesmos erros. A estação rodoviária de Campo Grande, acanhada e suja como a maioria delas, recebeu Lívia com um clima tórrido e ensolarado. Como que a aquecê-la, após uma viagem, sem conciliar o sono. Uma mulher nos seus trinta anos, ainda atraente, cabelos claros curtos, emoldurando olhos castanhos cansados, desceu do ônibus, dirigindo-se para a cabine telefônica mais próxima. Lentamente discou um número memorizado há anos, para ser utilizado apenas em ocasiões muito especiais. De urgência absoluta. Para o qual nunca esperou ligar antes. Uma voz abafada por um sonorizador solicitou-lhe uma senha. Tagarela. Nunca entendera o porque desse codinome ridículo. Talvez porque trabalhasse no setor de redação de textos e panfletgem do partido. Alguns minutos depois, outra voz atendeu e,após rápidas perguntas,lhe deu o endereço de uma pizzaria no centro da cidade, marcando um encontro para o final da tarde. Sem ter o que fazer, perambulou sem destino e entrou em um cinema. Era um filme da série James Bond. Aliás,o primeiro sem a participação do convincente Sean Connery. O ator escolhido, um inglês de fisionomia plastificada e quase histriônica, não emplacou a série, logo dando lugar depois para outro inglês, Roger Moore, que se manteve no mesmo papel por quase dez anos. Com sucesso. No final do filme a recém-casada senhora Bond morria metralhada. Curiosamente a dor e as perdas na tela do cinema são sempre amenizadas por uma aura de romantismo. Onde o sofrimento passa a ser quase uma medalha, convincentemente aceita com estoicismo e até orgulho. Lívia mais do que ninguém entendia que na vida real não é assim. O sofrimento e as perdas são reais, cruéis e de difícil aceitação. A dor e o sofrimento não são condecorações. Muito pelo contrário, arrasam, inicialmente conduzem à depressão, e somente muito tempo depois, em algumas pessoas privilegiadas, podem funcionar como estímulo para a volta à normalidade. Ou muito mais raramente como motivação para uma nova retomada de vida. Seja para um recomeo, seja para a desforra. Que geralmente não leva a nada. Lívia adormeceu, finalmente sucumbindo pelo sofrimento e o extremo cansaço das últimas horas. Acordou sacudida levemente pelo lanterninha do cinema, solicitando-lhe gentilmente que saísse. Após lavar o rosto e colocar um batom de cor suave, sem pressa, dirigiu-se ao encontro. Naquela hora o movimento já tinha aumentado no centro de Campo Grande, e boa parte dos moradores já começava a voltar para casa. Conforme o combinado procurou encontrar uma jovem usando jeans e camiseta amarela. Não foi difícil encontrá-la fumando um Minister e tomando um chope, em uma das mesas colocadas no canto da rua. Fingindo um cumprimento alegre e casual, a desconhecida pediu outro chope para Lívia, e sorridente, como se estivessem combinando o programa da noite, disse-lhe que a escolha de Campo Grande não fora assim tão feliz. A cidade pertencia à rota de entrada e também de fuga para os ativistas do Araguaia, sendo, portanto, rigidamente vigiada pela polícia militar. Mesmo assim o partido não abandonaria um companheiro em apuros. Passou-lhe o endereço e as chaves de uma quitinete para que Lívia se alojasse temporariamente. Combinaram outro encontro para dali a tres dias, durante os quais o partido procuraria investigar o quanto a polícia sabia em relação à fuga de Lívia. Após o que lhe pareceu uma eternidade Sérgio, dirigindo um jipe de seus trinta anos, após dias de estrada, quase sempre em períodos de baixo tráfego, atingiu a entrada de Campo Grande. Após deixar Palestina, havia perambulado a esmo durante algum tempo, sempre incógnito. Chegar a Campo Grande foi um acaso desejado. Após tanto tempo isolado em lugarejos perdidos na região do Araguaia, voltar a viver em uma cidade de maiores recursos parecia-lhe uma melhor maneira de recomeçar. Um desconhecido em uma cidade grande. E como tal reiniciou sua vida. Abandonando o jipe em uma das ruas próximas à estação rodoviária, procurou uma barbearia, cortando o cabelo e fazendo a barba crescida e ruiva. Luxo que há muito não se permitia. Mais por desleixo para com sua própria aparência. Não havia nos últimos meses nada que justificasse esse tipo de cuidado. Sentindo-se mais leve, mochila a tiracolo, procurou um hotel de baixa categoria nas imediações. Ante o olhar desconfiado do recepcionista, pagou dois dias antecipadamente. Não havia elevador. Uma escada de corrimão ensebado e linóleo marrom conduziu-o ao terceiro andar. Tirou os sapatos e deixou-se cair na cama pesadamente. O colchão rangeu e as cortinas esfiapadas deixavam entrar a luz da tarde. Não percebeu nada. Dormiu pesadamente. Acordou muito mais tarde com o uivo lancinante de uma sirene. O chuveiro com marcas de ferrugem e a cortina do box de plástico rasgada não diminuiu o prazer de um longo banho. A água morna, caindo, ainda que com um fluxo desprezível, acariciava-lhe a pele tisnada pelo sol. Como se lavando a densa camada de suor e poeira, estivesse também aliviando o peso das dores da alma. Enxugando-se com uma toalha, que em outros tempos já fora branca, procurou a garrafa de cachaça para um gole restaurador. Entretanto, algo não identificado o impediu. Jogando a garrafa no lixo, vestiu uma camisa quase limpa, e saiu batendo a porta. A noite quente o acolheu quase carinhosamente. Andou alguns minutos e sentou-se em uma pizaria. Impulsivamente pediu pizza de calabreza com guaraná. No íntimo sentiu-se fazendo um anúncio promocional da Antárctica, embora não estivesse bebendo cerveja. Ali ficou mais tempo do que pretendia. Saiu apenas quando percebeu a atitude quase hostil do garçom, empilhando ruidosamente as cadeiras. Voltou ao hotel e novamente deixou-se abandonar em um sono profundo e restaurador. Conforme o combinado, três dias depois, no mesmo local, Lívia encontrou-se com o seu contacto. A face morena da mulher, contrastava com a brancura de seu sorriso. Agora mais fácil. Trazia boas notícias. A polícia de São paulo e do Rio tinham perdido completamente a pista de Lívia. Acreditavam que de algum modo, à semelhança do marido e da filha, tivesse conseguido sair do país Estavam, entretanto, procurando o pai de Tiago. Que também, felizmente nada sabia do paradeiro de Lívia. Portanto, durante algum tempo estaria a salvo. Recebeu instruções para continuar na mesma quitinete. Recebeu também uma carta de apresentação para trabalhar como linotipista em uma pequena gráfica no centro da cidade. Estava delineado o começo de sua nova vida. Modesta e sem muitas perspectivas. Mas com segurança suficiente para esperar que sua pista desaparecesse e que a polícia perdesse seu interesse nela. Aí sim, poderia talvez deixar o país, quem sabe através do Paraguai, e procurar sua família. O que a angustiava, e muito, era a absoluta impossibilidade de lhes enviar qualquer notícia. Passou a assumir uma rotina enfadonha, mas útil para manter o seu disfarce. Continuava a pintar os cabelos e usá-los bem curtos. Roupas despojadas e sem qualquer luxo. Tentava parecer um tipo local, imitando o linguajar arrastado da cidade. Frequentava sempre a mesma pizzaria próxima à rodoviária, o mesmo cinema, e,de vez em quando um restaurante de peixe. Estabeleceu uma rotina de vida discreta e paciente. Esperando a melhor oportunidade para ir ao encontro da família. Parecia que tudo estava bem e que logo, muito em breve, alcançaria seu intento. Mas o destino é uma caixa de surpresas.Sempre foi. O homem planeja. A vida executa. Sérgio levantou-se inquieto. Já há algum tempo Chico não lhe aparecia em seus pesadelos, cobrando sua atitude covarde. Nessa noite voltou a assombrá-lo. Erguendo-se do lamaçal onde o tiro lhe derrubara, o vulto alto e esguio, olhava-o penetrantemente. Não mais de um modo inquisidor, mas com um olhar curioso, atento, como se esperasse alguma ação por parte do amigo. O dedo em riste, apontava para longe, em direção indefinida. Mas certamente um gesto de comando. Não definia qual. Apenas comandava. Já haviam se transcorrido seis meses desde que Sérgio chegara a Campo Grande. Após alguns dias de readaptação à vida urbana, reaprendendo a viver no burburinho e passar despercebido nele, aos poucos foi recuperando uma pequena parte de sua auto-estima. Conseguiu um emprego como auxiliar de motorista de ambulância. E novamente iniciou o reaprendizado de como lidar com a dor e o sofrimento. Agora, entretanto, de uma maneira mais humanitária e altruísta. Até não precisava de dinheiro. Ainda guardava consigo o dinheiro sujo, obtido de suas delações para o tenente Alberto. Detestava a fonte daquela vultosa soma. Mas a utilizava agora, nào apenas para sua sobrevivência, mas também para auxiliar aqueles a quem socorria em seu trabalho diário. Enganava-se a si mesmo, crendo após tanta baixeza, poder alcançar alguma indulgência, fazendo uso misericordioso daquele dinheiro sangrento. Mas não encontrou outra forma de usá-lo. Sua vida era modesta, agora dividindo um quarto e sala com o colega que dirigia a ambulância. Não tinha planos imediatos para a vida. Apenas queria durante muito tempo viver e deixar os outros viverem. Cada qual com seu passado. Com suas culpas. Tentando ou não resgatá-las. Queria muito, mais uma vez esquecer o passado. Se é que isto era possível. Mesmo assim, reconhecia que o presente não era fácil. Pois continuava ligado à violência e ato sofrimento. Violência urbana em uma cidade grande. Em um país ainda dominado pelo jugo da ditadura militar. Cada vez mais dura na repressão ao que restava da resistência armada. Os guerrilheiros do Araguaia eram exaustivamente caçados, como se tivessem alnda força suficiente para ameaçar o governo radicalmente. Para que não restasse sequer vestígio que pudesse lembrar um dia a existência de um movimento armado. Reinvidicador da reinstalação de um estado democrático. A lição deveria ser também radical. Sequer a lembrança deveria sobreviver. E com isso a caçada aos ativistas remanescentes continuava implacavelmente. Após um monótono dia de trabalho, compondo na gráfica uma encomenda de receituários e cartões médicos, Lívia dirigiu-se quase intuitivamente à pizzaria para deixar rolar um chope gelado e relaxar. Tinha sido um dia revisitado por lembranças e saudade daquilo que tão cedo não poderia ter. Bebericar sozinha era um hábito recém-adquirido. Dava-lhe uma sensação de indiferença e autosegurança. Nesses momentos planejava seu curso de vida, sem sentir-se totalmente solitária. Já iniciava a segunda tulipa, quando repentinamente o sangue gelou-lhe nas veias. O coração batendo rapidamente e as mãos subitamente úmidas. Diante de si, andando lentamente pela rua, perfeitamente visto de sua mesa no canto da calçada, um vulto carinhosamente pinçado de um passado distante, melhor dizendo um espectro de alguém muito próximo, voltava para assombrá-la. Envelhecido, mostrando muito mais idade que a real, Sérgio passava sem dela se aperceber. Obedecendo a um impulso inexplicável, levantou-se e seguiu o antigo companheiro, reparando de longe o quanto aqueles anos todos tinham pesado para ele. Acabou chegando a um acanhado prédio de apartamentos de paredes sujas e descascadas. A janela do segundo andar logo se abriu. Lívia, ainda desconcertada, seguiu em frente. Chegando em casa,deixou-se cair na velha poltrona de braços, revestida por tecido de gorgorão que um dia tinha sido cor de terra. Aturdida por um turbilhão de pensamentos incoordenados, perguntava-se como justificar tamanha coincidência. Depois de tanto tempo, uma fase alegre e descompromissada de seu passado retornava. Com que propósito? Tinham sido dias felizes e irreverentes, onde iniciara sua formação política, julgando ser possível mudar a sociedade e o mundo. Uma fase alegre onde o sexo sem compromisso era sempre o propósito ou a justificativa para duelos intelectuais onde ideologia e estratégias de intervenção social se mesclavam inconsequentemente. Lembrava-se que fora Sérgio quem a convidara, para, junto com Glória e os outros, invadir a festa do Jardim Botânico em 1968. Após ela e os amigos se separaram e nunca mais voltaram a ser os mesmos. Logo após graduar-se em engenharia, Sérgio inexplicavelmente abandonara o grupo e desaparecera. Agora, alquebrado, mal parecendo a sombra do que fora, reaparecia. Exatamente em uma fase de sua vida, quando o passado apenas lhe traria mágoas e nenhum benefício. Estava desesperadamente tentando viver e,até com rapidez,o presente, para conseguir tentar chegar a um futuro mais digno. Com paz, segurança e o amor do qual nunca tinha antes inteiramente desfrutado. Caía a tarde e a noite quente chegou com promessas inconfessáveis. Assim sempre ocorria na jovem Campo Grande. Como auxiliar paramédico, até mesmo por vezes conduzindo ambulâncias, pouco a pouco Sérgio se descobria. Vivo. Novamente. Executando uma função social modesta. Muito diferente daquela para a qual se preparara durante todo um curso universitário. Muito aquém de todos os seus sonhos de realização profissional. Mas a única que no momento lhe devolvia uma fração de dignidade. A única forma de continuar a viver, sem ser tão massacrantemente assediado pelos pesadelos e sombras do passado. Nem mesmo assim estava livre das visões e lembranças, principalmente as de Chico. Agora mais atenuadas e,repetidamente,a lhe indicar um caminho que não conseguia desvendar. Até não havia mais tanta mágoa no olhar que insistentemente lhe dirigia. Apenas a indicação de algo por fazer. Talvez algo que resgatasse toda a sua falta de companheirismo. Desenvolvia sempre a mesma rotina de vida. Chegava bem de manhã ao hospital. Verificava o equipamento da ambulância e aguardava pelo primeiro dos muitos chamados do dia. Desde simples remoções de incapacitados, até o atendimento a emergências médicas domiciliares, sempre acompanhando as dificuldades do médico de plantão que acompanhava sua unidade assistencial. Remotamente vinha-lhe em algumas situações,a lembrança de Glória. A médica. A mulher, essa nem ousava recordar. Sequer merecia isso. O encontro de Glória com Rodolfo também deveu-se exclusivamente a um capricho do destino. Domingo à tarde. Ensolarado. Em rápida visita a Paris, na escola de medicina da Sorbonne, sem nada ter o que fazer, Rodolfo caminhava pela Rue d’École de Medicine. Era outono e as árvores se apresentavam cobertas de folhas acastanhadas. Sem destino, dobrou à direita em direção ao l’Ódeon, apreciando os cartazes promocionais dos principais filmes em exposição. Paris além de ser uma cidade verdadeiramente cinematográfica em sua beleza, acaba sendo a meca do cinema europeu. Sentiu o odor de manteiga e alho a exalar das moules gratinadas servidas pelo Leon de Bruxelles, no Boulevard Saint Germain. Mais adiante, na praça parou para admirar a rústica fachada da Église de Saint Germain-de-Près. Aquele era um de seus trajetos preferidos para caminhar em Paris. O charme da vizinhança da Sorbonne rodeada por pequenos cafés e lojas de comércio, bem diferentes e mais simples que as de famosas grifes. Voltando-se dirigiu-se ao café Deux Magots, antigo reduto dos intelectuais da nouvelle vague, e depois disso sempre um ambiente refinado, com uma frequência acima da média. Dirigiu-se às fileiras de cadeiras revestidas por palhinhas guarnecendo pequenas mesas redondas de tampo de mármore. Decidido a gozar o cair da tarde, degustando um Bordeaux. Quando de súbito, estatelado, uma sequência de lembranças assoladoras tomou-o vertiginosamente. Em uma das pequenas mesas, absorta em pensamentos indecifráveis, a figura de Glória atingiu-o devastadoramente. Com a fôrça e peso de uma ausência jamais desejada. Não a Glória juvenil e sorridente. Mas a mulher em plena maturidade, que certamente havia conhecido a felicidade, e também os desenganos que sempre sobrevem a ela. De uma beleza plácida, madura e formal. Mas os olhos retendo ainda toda a fôrça de sedução da juventude. Olhos que o fitaram intensamente. De repente o grito incontido, expresso mais pelo murmúrio de lábios. Os mesmos que anos atrás beijara sofregamente. Glória estava curtindo um momento de rara tranquilidade. Tinha deixado Amelie na casa de uma colega de escola. Uma festa de aniversário em Montparnasse. E aguardava para apanhá-la após algumas horas. Tinha estacionado seu citroen em uma vaga encontrada na Rue de Rennes bem próximo à igreja, que eventualmente frequentava. Há igrejas nas quais se entra para observar as obras de arte. Outras, efetivamente,se entra para rezar. Aquela era uma destas. Passou bem uma meia hora fazendo uma reflexão de sua vida e das opções assumidas. Esse era o seu modo de rezar. Pedindo forças e discernimento para errar menos e acertar mais. Competência e sensibilidade para atender a seus pacientes. Paciência para ouvir e entender as dores da alma. Pedia também por Amelie. Cujo futuro incerto a preocupava acima de tudo. Sabia que algum dia a perderia. Mas até então tudo faria para que sua vida fosse a mais normal possível. Rezava também para encontrar lucidez,interpretar o universo de Gerard seu paciente mais próximo. Para si mesma, não pedira nada. Saindo da igreja, e tendo ainda que matar o tempo, dirigiu-se ao café em frente. O Deux Magots era o seu preferido. Pela história que emanava de suas paredes, pelas graciosas mesas, sempre alinhadas na calçada, com vista para o movimentado Boulevard Saint Germain. Gostava de ali sentar-se e ver a vida passar. Diferentes pessoas, a passar descontraidas. De diversas nacionalidades. Todas sem a menor pressa. Respirando a tarde parisiense. Imersa em seus pensamentos, praticamente não percebeu o passado que se aproximava. Instintivamente olhou o homem alto que se plantara diante dela. Não levou mais que alguns segundos para balbuciar o nome que há muito tinha deixado para trás, porém sem nunca tê-lo esquecido. Lançou-se timidamente em seus braços, que a abraçaram. De início desajeitadamente. E aos poucos terna e carinhosamente. Como se de seus braços fluissem o encanto e o desejo de todos aqueles últimos anos de separação. De todos os seus amigos, de todos os homens de sua juventude, ali estava Rodolfo. Justamente o que talvez tivesse sido o homem de sua vida. Mas esta os separara, fazendo com que tomassem caminhos diferentes e desconhecidos. Um longo silêncio sucedeu-se ao carinhoso abraço. Olhos fixos no olhar distante. Em minutos disseram muito mais que palavras há tempo não pronunciadas. As poucos as lembranças foram retomadas. Notícias de um Brasil varrido pelos ventos da ditadura. Pela truculência da repressão militar. Pelo sacrifício de jovens idealistas. Pelas desventuras vividas pelos antigos amigos da juventude. Assim Glória soube que todos os amigos de sua juventude, os mais próximos, todos percorreram caminhos turbulentos, amargos, quase sempre sem volta. Uma onda de arrependimento por não ter conseguido ser uma amiga presente em tantos momentos difíceis a acometeu. Somou-se a isso o reconhecimento de todos os desencontros de sua vida recente. Um pranto incontido sacudiu-lhe os ombros e o espírito. Rodolfo aconchegou-a em um abraço terno e silencioso.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 5) 1973 - SÉRGIO

Noite de quinta-feira. Como representante da comunidade, Sérgio novamente tinha sido convocado para viajar seis quilômetros e assistir à reunião das autoridades militares da região. Era obrigatório. Caso não fosse,teria que se explicar com a milícia anti-guerrilha. Quatro o cinco soldados, quase sempre muito jovens, chegariam para escoltá-lo. Nessa reunião invariavelmente seriam mostrado as fotografias dos guerrilheiros capturados. E também as de suspeitos e fugitivos. Tinham uma lista de mais de sessenta guerrilheiros. Essas fotos eram mostradas aos habitantes locais, para que fossem identificados e delatados. Havia também oficiais de informação, com a responsabilidade de interrogar os prisioneiros capturados. Estes eram lançados em buracos cavados na terra e coberto por uma rede de arame farpado. Era na cadeia de Xambioá, onde se concentravam as tropas policiais, as violências e as prisões. Estava lotada de suspeitos.Na base aérea da cidade, no aeroporto, os especialistas em interrogatório ordenaram que se cavassem buracos bem fundos, de aproximadamente dois metros. Os buracos eram cobertos de arame farpado e os presos ficavam ali, amarrados, além de algemados, alguns nas mãos e nos pés. Um cano fazia pingar metodicamente sobre suas cabeças água gelada. Essas práticas eram repetidas em localidades menores, onde estavam acantonadas as forças do governo. Naquela noite a reunião foi especial. Havia um destacamento de milicianos recém-chegados, trazendo como troféus cabeças e mãos decapitadas, expostas a todos os presentes. Contaram que naquela tarde haviam chegado numa lagoa, local onde a inteligência militar havia apontado como foco de guerrilheiros. Chegaram quase uma hora depois. Eram quase dez. Cansados e distraídos. Ao se debruçarem para tomar água, foram alvejados por uma barragem de fogo, pipocando entre as moitas. Os militares acoitados quase partirem em dois os corpos dos guerrilheiros. Ninguém escapou. Havia um estertorando. O sargento do pelotão aproximou-se, perguntando sobre a base de operações daquele grupo. Recebeu como resposta uma cusparada. Sacando de seu facão de mato, decapitou ainda vivo o guerrilheiro caído. As cabeças cortadas eram na época as provas que o exército era vitorioso sobre os guerrilheiros. Esta era uma macabra tradição das forças legalistas, anteriormente praticada no Brasil no massacre aos movimentos messiânicos, como a Guerra de Canudos e o combate ao cangaço. Na mesma reunião apresentaram um relatório detalhado sobre outras atividades do destacamento. Capturaram mateiros locais, todos em péssimas condições físicas. Foram colocados em helicópteros que após levantar vôo os lançavam ainda com vida no meio da selva. Sergio já não se importava mais com os relatos de atrocidades. Eram por demais frequentes. No início, ao chegar no Araguaia, recrutado pelo movimento revolucionário, fizera parte da comunidade, dedicando-se a ela integralmente. Em fins de 1973, após quase ter sido morto em uma emboscada, refugiou-se em Palestina, lugarejo onde conheceu Alberto, um jovem tenente da cavalaria, chefe do destacamento local. Paranóico e mau-caráter. Recentemente havia torturado um padre e uma freira, com ritos de insana crueldade, por terem auxiliado a população local. Nesta,o índice de mortalidade infantil era muito alto, e quase 20% das mães morriam no primeiro parto. Os religiosos foram julgados por se assemelharem fisicamente a líderes da guerrilha. Sérgio por sua cultura universitária, logo foi vítima da suspeita e intolerância do militar. Preso, foi submetido a repetidas sessões de tortura. Freqüentemente era pendurado de cabeça para baixo, - para pensar melhor nas respostas a dar, e insistentemente chutado por Alberto e seus asseclas. Após dias de muita dor, foi atirado em um quartinho de dois por três metros com outras quarenta pessoas. Sem água ou alimento. Depois disso, abandonou tudo. Passou a colaborar com as forças anti-revolucionárias. Sepultando o seu passado. Vivendo apenas dia após dia. Das lembranças, procurou sepultar as mais antigas, justamente as que mais lhe cobrariam a conduta atual, covarde e vergonhosa. Entretanto, nunca conseguira afastar Glória de seus pensamentos. Rotineiramente ela aparecia, como nos tempos da faculdade. Sorrindo despreocupadamente, como se a vida fosse uma ciranda de festas descompromissadas. E, quantas vezes, brincando, ela lhe rechaçava os assédios, dizendo ser os advogados bons mesmo só na conversa. Isto lhe deixava alucinadamente descontrolado. Ao que ela apenas ria inconsequentemente. Ao mesmo tempo que se revelava intensamente dedicada ao seu curso e aos pacientes que atendia. Toda essa intensidade de vida que reconhecia em Glória, faltava-lhe agora, tornando-o amargurado e infeliz. As lembranças recentes torturavam-lhe a alma, testemunhas de um presente sem cor. Destas, repetidas vêzes vinha-lhe a figura do Chico Alemão. Mineiro, seu contemporâneo na universidade, formado em filosofia, e desde cedo participante de movimentos estudantis. Acreditando lutar por um país melhor, foi um dos fundadores da União da Juventude Patriótica. Com a intensificação do movimento, e já procurado pela Polícia Política, refugiou-se no Araguaia. Ambos se reencontraram na região de Gameleira. Inicialmente Chico se surpreendera com a presença de Sérgio ali. Este nunca fora suficientemente ligado na luta democrática para aderir à guerrilha. Mas Chico acabou acatando o silêncio do amigo. Sérgio por sua vez reconhecia no companheiro alto e esguio, face longa e prognata, barba por fazer e bigode farto, tudo aquilo que gostaria de ter sido: resolvido, determinado e dedicado a uma causa na qual acreditava acima de tudo. Passaram a compartilhar as mesmas atividades e a conviver dentro de um clima de companheirismo. Participaram de atividades comunitárias, nas quais Sérgio aprendera mais sobre as raízes do movimento revolucionário, e muito sobre a precária qualidade de vida do povo da região. Entardecer de 28 de novembro. Chico, Sérgio e mais seis companheiros, participavam de uma ação no campo. Embrenharam-se na mata havia já dois dias, fazendo o reconhecimento do movimento de tropas legalistas na região. Havia muito já se tinham acostumado ao calor e às atividades de sobrevivência na mata. Montaram acampamento. Chico e Sérgio se afastaram para procurar caça ou algum jaboti desprevenido pela grota. Andavam despreocupadamente. Seu destacamento já havia acampado no mesmo lugar há algumas semanas atrás. O ar estava quente, e as primeiras estrelas apareciam no céu ainda claro. Subitamente tiros cortaram o silêncio da mata. Chico caiu, a camisa manchada de sangue que já fluia aos borbotões. Sérgio sentiu uma picada lancinante no ombro, e mais por susto que por cautela, caiu, arrastando-se inconscientemente para o oco de uma gameleira próxima. Outros tiros se ouviram. Ao cabo de alguns minutos, que pareceram horas, suor gelado, misturando-se ao sangue quente da ferida no ombro, Sérgio aterrorizado viu sairem de um capão de mato próximo dois vultos armados. Pareciam índios, geralmente contratados como batedores dos federais. Percebendo que Chico ainda vivia, arrastaram- no pelas pernas, indiferentes aos seus gemidos de dor. Sérgio, apavorado, via o amigo ser conduzido, certamente para a tortura, sem ter ânimo para levantar um só dedo em sua defesa, aterrorizado com a perspectiva da morte ou da tortura. Dando as costas para o amigo, continuou a arrastar-se até que, exausto, desfaleceu perdendo a consciência. Acordou algumas horas depois para desfalecer em seguida. Dia alto foi resgatado pelos sobreviventes da emboscada, atordoado pela perda de sangue e pela exaustão física. Os companheiros deixaram-no em um hospital rústico da região, onde foi tratado toscamente, mas com suficiente eficiência para se recuperar algumas semanas depois. Nunca mais teve notícias de qualquer um dos companheiros. O ferimento à bala tornou-o uma figura marcada e sob suspeita. Nunca mais ouviu falar de Chico. Dizia-se que havia sido preso e mantido sob tortura durante dois dias. Depois tinha sido deixado morto, insepulto, na mata para que seu corpo fosse devorado por animais carnívoros e aves de rapina. Seus restos mortais nunca foram encontrados. Também nunca mais conseguiu esquecê-lo. Os pesadelos eram frequentes. Todos cobrando sua covardia. Estava vivo, mas não ousara fazer um movimento sequer para tentar salvar o amigo. Que sempre reconhecera ser alguëm muito melhor que ele. Mas mesmo assim deixara que o levassem para a tortura e a morte certa. Morte indigna. Revoltante e desnecessária. Mais uma vez fugiu. Como fugira antes do Rio de Janeiro, incapaz que fora de enfrentar as consequências da festa de final de ano. Incapaz de declarar a Glória todos os seus sentimentos. De lhe dizer que o álcool e as drogas simplesmente fizeram despertar nele, ainda que violentamente, todo o fogo interno que o consumia. Envergonhava-se também pela humilhação imposta a Leo. Este nunca mais dela se recuperara. Os amigos dele se afastaram. O que permitiu a Sérgio a impunidade. De um ato impensado, que até poderia ter sido esclarecido e contornado. Mas outra vez, faltou-lhe coragem e determinação. Depois de vagar a esmo, fugindo dos mateiros e batedores do exército, reapareceu semanas depois em Palestina. Onde o pesadelo continuou, agora regido pela crueldade radical e frieza do tenente Alberto. Que passou a manipulá-lo, explorando toda a insegurança e tibieza de Sérgio. Agora atormentado pelo remorso de sequer ter tentado salvar o amigo. Exatamente aquele que possuía todas as virtudes, que ele, Sérgio, sempre pretendera ter.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 4) 1970: LIVIA TIAGO E RODOLFO

1970 - Lívia As ruidosas pancadas na porta do apartamento, despertaram Lívia de seu sono inquieto. Dormia só. Havia algum tempo que não compartilhava seu leito com homem nenhum.Atravessava uma fase de sua vida onde o sexo era irrelevante. Aliás, nunca fora muito feliz com seus parceiros. Sempre ficava uma sensação de prazer não realizado. Talvez culpa por ter se entregado sempre sem muita convicção. Como se simplesmente estivesse cumprindo uma agenda, sem planejamento estratégico, até sem emoção. Quase sem sobressaltos, vivera uma infância desprovida de dificuldades, criada por pais de bom nível social. O pai, empresário de sucesso no interior de São Paulo, do tipo sabe-tudo-sobre–todos-os temas, era o genro preferido de todos os pais. Após alguns anos, durante os quais espoliou sua empresa, deu um golpe na praça e abandonou à míngua mulher e três filhas, sem qualquer motivo aparente. Mudou-se para Los Angeles, onde por anos viveu misteriosamente. Com notícias as mais desencontradas, tais como viver com um amigo aidético, e, deste modo, dizendo não poder mandar recursos para a família, nem receber qualquer visita. E assim, anos a fio a família abandonada sobreviveu iludida, sempre com esperança. E o pai era apenas uma sombra distante. Cada vez mais apagada. Após treze anos chamou uma das filhas para auxilia-lo a abrir um restaurante. A filha do meio aceitou o convite. Exatamente a que menos se imaginava. Contudo, surpreendeu a todos, principalmente o pai. Que, de repente, de pai passou a avô. A gravidez, consumada na Brasil, somente foi revelada após quatro semanas de convívio com o pai. Este, inicialmente atônito, fez-se de avô, sorriso amarelo, como se nada houvesse. Inclusive encaminhou-a para ser atendida na mesma clínica que executara um aborto em uma de suas cozinheiras. O comportamento complacente da mãe e das irmãs irritaram profundamente Lívia, que praticamente passou a ignorá-las, afastando-se por completo. O cenário de sua vida estava mudando. Radicalmente. Para ela o pai já não existia há muito. Mesmo porque na situação deprimente que o pais atravessava, face à mão de ferro da ditadura, as questões familiares acabavam ficando menos importantes. A duras penas acabou terminando o curso de Direito. E graças ao relacionamento com Glória, sua prima, freqüentava o grupo da Medicina, mantendo com Tiago um relacionamento alegre e quase estável. Até a festa de fim-de-ano de 1968. Passara boa parte, dela conhecendo um pessoal que chegara à festa para transformá-la em palco de reivindicações sociais, e confrontos com os intelectuais presentes. Depois de alguns baseados, apagara completamente. Voltou à normalidade apenas na manhã seguinte após o banho de mar. Curiosamente, sem saber como, ocorrera um certo desmembramento daquele alegre grupo. Leo logo após a formatura acabara desaparecendo sem deixar notícias. Alguém recentemente comentara que tinha se dirigido para o interior do planalto central, após especializar-se em oftalmologia. Glória continuara no Rio durante algum tempo, e após alguns meses viajara para Paris. Sérgio desaparecera. Dizia-se que estava envolvido com o movimento clandestino armado. Tiago ainda permanecia no Rio. Assumira um cargo de docente na Universidade. E ainda se mantinha ligado aos ideais universitários de democracia social, liberdade, justiça e dignidade. Também continuava caído por ela. Mas já havia quase um ano que não se encontravam. As batidas na porta finalmente fizeram com que Lívia, ainda em roupas de dormir, lentamente atravessasse seu pequeno apartamento, cuja duvidosa organização fazia supor o descaso da moradora. Ainda sob o torpor de um sono não reparador, surpresa, defrontou-se com a assustada e pálida face de Lia. Irmã de Tiago, sua antiga colega de classe na faculdade de Direito. Após o espanto inicial, notou as olheiras e a expressão aflita da amiga. Descompassadamente,e já em prantos, contou a Lívia que Tiago, após uma série de conferências na Universidade havia sido preso pelos agentes do Departamento de Ordem Política e Social. Para um interrogatório de rotina, dizia-se. Só que estava desaparecido havia já uma semana. Sem saber o que fazer, procurara aquela que sempre esteve presente nos sonhos do irmão, Lívia. * O interrogatório. Um luz focada permanentemente no rosto. Quatro ou cinco interrogadores martelando o homem constantemente. Ele fica lá sentado. Já não sabia há quanto tempo estava lá.Horas ou dias. A rotina se repetia incansavelmente. Quando um interrogador cansava, logo era substituído por outro. No início tinha procurado responder às perguntas com tranquilidade. Mas logo no início uma série de bofetadas fê-lo sentir toda a arbitrariedade da situação. Também toda a sua impotência. Já o sangue tinha se coagulado em seu rosto. O supercílio cortado, a face inchada, com hematomas. Os interrogadores procuravam retirar dele, brutalmente, informações que não tinha. Não era um militante ativista. Havia se filiado clandestinamente ao PC do B. Mas não tinha nada a ver com as atividades armadas do partido. Apenas procurava transmitir aos alunos os conceitos de dignidade social, a serem aplicados mesmo às classes menos favorecidas. Estava agora nu. O corpo machucado, queimado por pontas de cigarro. Mantinha-se enfraquecido, sentado na cadeira tosca apenas porque se encontrava amarrado a ela, as mãos presas às costas. Lembrava-se vagamente de ter sido submetido ao pau-de arara, e recebido choques elétricos que quase acabaram com sua sanidade. Aos poucos as imagens se embaralharam e tudo se esvaiu em direção a um profundo vazio. Depois a cela úmida, o piso irregular e fétido. Fezes e urina de ratos. Misturados ao odor de seus próprios dejetos. O jato de água gelada na madrugada sempre o despertava abruptamente. Em seguida, a dor e a incerteza dos próximos momentos. DE longe em longe, vinham-lhe as lembranças da pequena Jarapatinga, onde nascera. Um lugarejo entre a orla da praia de águas escandalosamente verdes e o coqueiral. Um conjunto de casas térreas, quase sempre geminadas, na arquitetura porta-duas janelas, paredes claras, dando para a pracinha da matriz. Todas as manhãs o aroma penetrante do café forte, no coador de pano sobre o fogão-à-lenha, a manteiga cremosa e a presença sempre suave da mãe. Era o mais novo dos três irmãos. Há muitos anos não sabia mais deles. Desde que sua vida de adolescente desmoronou. O pai sempre distante, origem humilde, filho de lenheiro, soube, entretanto como se fazer na vida. Trabalhando como faz-tudo para os usineiros da região, com os anos conseguiu amealhar um patrimônio considerável para os padrões da cidade. Tornou-se agricultor. Extremamente machista,tinha a mulher para uso e os filhos como uma pedra nos sapatos. À medida em que a sorte mais o beneficiava, isolava-se cada vez mais, procurando curtir a vida em toda a sua plenitude, como se não tivesse família. Nessa sucessão de prazeres fáceis e sempe disponíveis, acabou se engajando em um extravagante caso de amor, tema predileto de todos os mexericos de Jarapatinga. Um dia a esposa foi descoberta morta, atirada ao poço de sua própria casa. As diligências nunca chegaram a descobrir o autor do crime. Contudo, era voz corrente que o assassino ou o mandante tinha sido o próprio marido. A familia da morta, indignada embora sem nada poder fazer, recolheu os filhos, tomando a si a responsabilidade de criá-los. Passou-se muito tempo antes que Tiago retornasse à pequena Jarapatinga. Quando o fez, já adulto, ainda se encantou com o verde do mar e a tranquilidade do lugarejo, agora já maior e mais próspero. A casa onde nascera dera lugar à agência local do Banco do Brasil. O pai se casara novamente já há vários anos, e tivera outros filhos. Chegou até a conhecê-los. Afinal eram inocentes. Decidiu refazer sua vida. E de novo o Rio de Janeiro acolheu mais um passado a ser sepultado. Uma nova vida. Com valores mais dignos e menos egoístas. De novo a porta se abre e ele é arrastado para outra cela. Sem qualquer mobilário. Atirado ao chão, percebe de novo a luz forte. Agora iluminando intensamente todo o cubículo. Uma gravação com voz de falsete entoa continuadamente uma ladainha de perguntas que se repetem indefinidamente. Mal consegue continuar a entender os sons. Palavras esparsas como Xambioá, Ângelo Arroyo, Bacabas, Caximbeiro se repetiam sem que para ele tivessem qualquer sentido. Horas ou dias, que para ele pareceram meses, a tortura pela falta de sono. A luz queimando-lhe os olhos. Por fim a inconsciência. Acordou. Parecia noite. Não tinha certeza. Sentia apenas solavancos do carro em uma estrada irregular, preso no porta-malas. O carro fez muitas curvas até parar. Foi puxado para fora e lançado ao chão. A cabeça estourando contra o piso de pedra.O cano frio de uma arma, torturando-lhe o ouvido. As palavras frias - Chegou sua hora! – O estalido do gatilho. E uma gargalhada. Percebeu após algum tempo, que lhe pareceu uma eternidade, que tudo não passava de uma cruel simulação.Tiago permaneceu estirado no chão. Trêmulo, as calças molhadas de urina. Sentindo-se menos que um verme. Mas apesar de todas as humilhações sentia-se vivo. Ouvia o barulho do motor do carro desaparecendo na noite. Fora sua primeira prisão. Jurara a si mesmo que nunca mais seria preso. Como nunca mais seria o mesmo outra vez. Perdera a ingenuidade da inocência. Perdera a confiança na justiça. Sua dignidade. A vontade de retornar à antiga rotina. Nunca mais as aulas para as jovens mentes. Amarradas pela censura e congeladas pelo comportamento estereotipado,determinado pelos limites impostos pela nova ordem social militarizada. Na realidade seus inquisidores sacrificaram o professor no altar da intolerância e truculência, para fazer despertar um novo homem, disposto a defender os princípios de justiça social, com o que ainda lhe restava de dignidade humana. Apenas uma imagem lhe transmitia um pouco de esperança – Lívia. Tudo o mais – apenas um futuro incerto. 1970 - RODOLFO Sua vida sempre fora normal. Sem grandes lances de emoção. Que não as da própria sobrevivência. Procedente do interior do estado de São Paulo, oriundo de família de médias posses, entretanto nunca lhe faltou nada. Família sólida, pais unidos até a morte, vivendo felizes a seu modo. Irmãs solidárias, fizeram de seus primeiros anos um cenário ideal para a construção de um caráter firme. Entretanto por vezes assediado pela ambição, medida, mas sempre presente. Desde que se entendeu como gente assumiu a vocação de médico. Não soube nunca desde quando ou porque. Simplesmente queria. E sempre lutou para isso. Sua infância e adolescência resumiram-se na rotina de se preparar para um futuro melhor. Eventualmente com dificuldades, mas sempre com obstinação. Sua maior arma. O destino lhe foi complacente e chegou a formar-se médico em uma das melhores escolas do país. Em uma época conturbada, onde o país desfalecia, sob o jugo da ditadura militar. Nunca se envolvera muito com a política. Mais tarde até se arrependeria muito disso. Ao contrário, procurou até se alienar de tudo o que ocorria, apenas no propósito de se tornar um bom médico. Mas mesmo assim deu sua colaboração ao movimento, tímida, mas concreta, participando de passeatas reivindicatórias de melhores condições de vida e liberdade democrática, quase sempre dissolvidas pela violência da polícia militar. Manteve-se, porém, sempre consciente da insegurança política e social, própria de sua época. Um de seus colegas de turma, exatamente um dos mais inflamados, na realidade mais tarde revelou-se um olheiro das autoridades legalistas. Conheceu Glória em uma das viagens que fez ao Rio de Janeiro, durante um curso de aperfeiçoamento, apresentada pelo primo Sérgio. E ficou fortemente impressionado pela personalidade forte e extrovertida da jovem. Sedutoramente confiante em si mesma. Saíam juntos com frequência, e logo conheceu os demais membros do grupo, afinando-se muito com Lívia e Tiago. Foram meses de alegre convívio, e grandes momentos. Até o final do ano. Invadiram como penetras a maior festa de final de ano do Rio de Janeiro. Muita política, arte e futilidades, temperadas a bebida, drogas e sexo. Ninguém saiu imune dessa experiência. Nem mesmo ele e seus amigos. O rescaldo de uma noite de fortes e incontidas emoções deixou marcas indeléveis em todos. E, na época, o afastou de Glória. Por sua ficha sem antecedentes no Departamento de Ordem Política e Social, o onipresente DOPS, Rodolfo atravessara incólume os ventos da ditadura militar. Ao contrário, seu prestígio como médico competente e acima de qualquer suspeita trazia-lhe livre passagem por entre os meandros da ordem instituída. Assim sendo, podia auxiliar os amigos, injustamente indiciados e, agindo taticamente, abrir-lhes as portas da prisão. Foi a ele que Lívia se dirigiu logo soube do desaparecimento de Tiago. Em meio à madrugada, Rodolfo ouviu consternado o ocorrido, imaginando a gravidade das acusações sobre Tiago. Nunca houve evidências de qualquer vínculo com a resistência armada. Entretanto as aulas e palestras tinham ficado cada vez mais críticas em relação ao regime militar e à autoridade constituída. Progressivamente Tiago tinha dado asas ao perigoso dom da eloquência, em uma fase onde este era uma arma importante, principalmente se alimentando mentes jovens e explosivas. Não foi fácil descobrir o paradeiro do amigo. Teve que peregrinar dias, acionando contactos, principalmente na Marinha. Estes acionaram o Ministério do Exército, e finalmente abriram os arquivos do DOPS. Tiago estava catalogado na categoria de suspeitos ativistas intelectuais, perigosos, mas ainda não definitivamente incluídos na lista dos caçados, acima de qualquer intervenção. Os ativistas mais perigosos eram sumariamente caçados, e desapareciam simplesmente. Uma pesquisa sistematica nos núcleos de investigação e interrogatório do DOPS, ao cabo de algumas semanas, trouxe a informação desejada. Com tato e até suborno, trazendo sob sua responsabilidade o comportamento futuro do amigo, Rodolfo, a duras penas, conseguiu a liberação de Tiago. Esta intervenção, porém, custou-lhe caro. Passou a ser estreitamente vigiado pelos agentes da ditadura. Até mesmo no exercício da Medicina. Eventualmente até entre pacientes havia agentes infiltrados, sempre ávidos por flagrar qualquer tipo de irregularidade. Acabou por aceitar o convite de uma universidade em Lyon, para um curso de pós-graduação de dois anos. Até quase nào havia necessidade disto, entretanto, os ares do Brasil estavam quase irrespiráveis. Foi assim que partiu para um exílio forçado. Também para um inesperado reencontro.

POR TRÁS DE GLÓRIA (PARTE 3) A RESISTÊNCIA ARMADA

O golpe militar de 1964 tinha reveladas as suas raízes e desdobramentos. Os interesses do empresariado brasileiro, amparado pelo capital externo, acostumado à fraqueza do mercado interno e ao paternalismo do Estado, procuraram a opção de um governo que garantisse investimentos externos e afastasse a desordem social, no caso a ameaça socialista, representada pelo Presidente Jango Goulart. A intervenção militar radical já era esperada. Pior que isso, segmentos da sociedade, inicialmente atônitos passaram a aplaudir a instalação do regime totalitário. As tradições democráticas foram banidas em nome da legitimidade num flagrante desrespeito. O golpe usava a violência da repressão com a desculpa de garantir a soberania da nação brasileira. Mas, na realidade, prestigiava apenas a elite política, beneficiada pela interferência externa. Claramente manifesta pelo apoio estratégico-militar dos EEUU na aplicação e desenvolvimento de um regime de força autoritária. A resistência não se fez esperar. Sempre presente durante os anos que se seguiram. Mas sempre contida pela arbitrariedade e pela violência do comando militar. A sociedade atemorizada pela atuação totalitária cada vez mais evidente e a repressão violenta aos focos de resistência fizeram surgir os núcleos de resistência armada e fomentar uma política alternativa de guerrilha urbana. Em represália, mais violência. Os desaparecidos e os desaparecimentos inexplicáveis. Muitos sem causa. O jogo político da sucessão presidencial ao longo de vinte anos, manteve a supremacia dos generais. A participação estudantil se renovara, e em 1968, permeada por pequenas agremiações partidárias de esquerda, que iam da linha trotskista à maoísta, passou a atuar na clandestinidade. A brutalidade da repressão policial fortalecia o conceito da resistência armada. Parte do Brasil se opunha ao Brasil anestesiado e militarizado. O Ato Institucional 05 finalizara por suspender indefinidamente a cidadania, ampliando indefinidamente os poderes de intervenção do poder executivo. Do regime militar. Surgia a obrigatoriedade nas escolas de uma nova disciplina, Educação Moral e Cívica, destinada a reconstruir a História do Brasil, entretanto sem muito compromisso com a verdade. Uma feição totalmente alienada e irreal. Logo a seguir o Ato Institucional 08 acabava com qualquer eleição ou direito eleitoral no país. Toda a forma de pensamento livre era considerado subversivo. E logo erradicado. Violentamente. Curiosamente a ajuda externa começou a rarear. Feitiço voltando contra o feiticeiro. A repressão absoluta à democracia no Brasil, incomodando os idéias democráticos americanos. Decretado pelos próprios militares o Ato Institucional 12 transferia todos os segmentos do poder constituído aos militares. O Ato Institucional 13 definindo a Lei de segurança nacional enquadrava os atentados contra a segurança intensificando a política do exílio compulsório. A seguir o Ato Institucional 14 legalizava a pena de morte para os culpados de guerra externa, psicológica ou revolucionária. O Ato Institucional 17 definiu a seguir a punição radical de qualquer indisciplina nos quadros militares. Os interrogatórios e sessões de tortura passaram a ser uma rotina tão absurda quanto natural para o regime de força - Os Anos de Chumbo. Os primeiros anos da década de 60 sediaram o início da resistência armada. A guerrilha do Araguaia se constituiu no mais organizado foco de combate ao governo desde o movimento messiânico de Antonio Conselheiro em Canudos. Dezenas de jovens intelectuais, comunistas e simpatizantes juntaram-se aos camponeses da região. Formaram grupos de trabalho que tentaram melhorar a estrutura social e de saúde daqueles que viviam miseravelmente.Em busca de um país mais justo. Mais digno. Essa dedicação explica o apoio da população local aos guerrilheiros durante o confronto armado com os militares. A Guerrilha do Araguaia foi organizada pelo Partido Comuista do Brasil (PCB), na ilegalidade, entre 1966 e 1974.Por meio de uma resistência popular armada prolongada os integrantes do PCB pretendiam implantar o comunismo no Brasil, iniciando o movimento pelo campo, à semelhança do que já ocorrera na China em 1949 e em Cuba dez anos depois. O palco de operações se deu onde os estados de Goiás, Pará e Maranhão faziam fronteira. O nome foi dado à operação por se localizar às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo e Marabá no Pará, e de Xambioá, no norte de Goiás. Esta região, ao norte do Estado de Tocantins, passou a ser chamada também de Bico do Papagaio. Aderiram ao movimento cerca de setenta a oitenta guerrilheiros, a maior parte por volta de 1970. Para combatê-los a ditadura militar mobilizou inicialmente cinco mil soldados brasileiros, além do auxílio de centenas de militares norte-americanos . Estes atuariam na elaboração de planos estratégicos de dominação e consolidação de território. A maioria dos soldados brasileiros que participaram das operações desconhecia a natureza de sua missão. Nos governos de Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel as operações militares foram executadas de maneira sigilosa. Era proibida a divulgação da existência de um movimento guerrilheiro no interior do país.Devido à censura rigorosa, nunca foi autorizada a publicação de detalhes sobre a guerrilha. A população brasileira sempre ficou alheia ao conhecimento dessa rebelião. A única menção feita por Geisel a respeito da existência de um movimento guerrilheiro no interior do Brasil se deu em 1975. Os guerrilheiros não usavam sua verdadeira identidade. Nomes e dados eram forjados. Muitos eram estudantes e profissionais liberais que haviam participado de manifestações e passeatas contra o regime na década de 1960. Os relatos dos sobreviventes documentam sempre a tortura como instrumento de coação. Os considerados mais perigosos eram sumariamente executados após a tortura. Em torno de 70% eram oriundos da classe média e tinham profissões liberais como médicos, dentistas, advogados e engenheiros. Ou ainda bancários e comerciários. Cerca de 10% eram operários. Menos de 20% eram camponeses. Recrutados na região do Araguaia. A idade predominante era em torno de trinta anos. Iam chegando aos lugarejos da região, adquirindo a confiança dos moradores, agindo como integrantes das comunidades e exercendo ocupações comuns no interior: agricultores, farmacêuticos, curandeiros, pequenos comerciantes, donos de bares ou pequenas vendas de beira de estrada. Não se comunicavam entre si , a não ser secretamente. E nunca moravam próximos uns dos outros.Participavam de todos os eventos da comunidade, sendo bem recebidos e integrados a elas. Não atuavam e não influiam na política local, nem se envolviam em discussãoes políticas para evitarsuspeitas. Praticavam o ensino do trabalho comunitário, voluntariado e assistencialismo. Práticas assistenciais médicas e odontológicas faziam parte do trabalho voluntário desenvolvido nas escolas e centros comunitários. Davam aulas e organizavam mutirões assistenciais. Com isso aos poucos ganharam o respeito e a admiração da população local. Após um ano de atuação, os grupos revolucionários do Araguaia já possuíam condições de articulação da população em curto período, com mobilização de estratégias de defesa, baseadas nas táticas utilizadas por vietnamitas sob a liderança de Ho Chi Min, ou nas atividades comunitárias desenvolvidas pelo governo de Fidel Castro em Cuba. Curiosamente as autoridades federais somente tomaram conhecimento do movimento, quando uma das guerrilheiras caiu enferma. Por falta de condições assistenciais na região, retornou à casa dos pais para tratamento. A família tinha estreitas relações com o exército e acabou por denunciar a existência do movimento, seus projetos e até alguns líderes. Somente após isso a ditadura militar se mobilizou. O chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI ) na época, o futuro presidente da república, general João Batista Figueiredo, cercou toda a região e articulou os primeiros movimentos militares. Presumia uma rápida campanha de erradicação, uma lição da truculenta eficiência do exército federal. Encontrou, porém, menos de uma centena de guerrilheiros, homens e mulheres, bem equipados e bem treinados taticamente. Foram necessárias três campanhas mobilizadas pelas fôrças armadas para que a fase atuante da guerrilha do Araguaia se desbaratasse. Durante mais de 14 meses os guerrilheiros barraram as manobras das tropas governamentais, esperando que sua resistência encontrasse eco nas demais regiões do país. Procuravam incentivar uma reação escalonada de oposição mais radical que nunca aconteceu. A imprensa nacional sobrevivia sob rígida censura. A internacional, ainda muito conservadora , mostrava-se reticente ao apoio de movimentos populares, considerando-os núcleos de ativistas políticos e de terroristas. Por falta de informação adequada o tão esperado apoio pupular, principalmente das classes operárias, nunca aconteceu. Os revoltosos ficaram entregues aos seus próprios esforços. As baixas do exército brasileiro nos combates da guerrilha do Araguaia foram muito pequenas, mais de ordem moral. A orientação da guerrilha seguia moldes trotkistas, ou seja - não matar o soldado que nos combate hoje, pois, amanhã esse será o aliado contra o opressor. Em 1973, o governo federal, contando com experiente consultoria européia, formou o primeiro batalhão de infantaria de selva, utilizando-se dos métodos disciplinares da Legião Estrangeira. “Marcha ou morre”. Isto é, um rígido código disciplinar associado a um preparo físico excepcional. Acima dos próprios limites. Em 1974, com ataques combinados, forca aérea, infantaria e pára-quedistas iniciaram a maior ofensiva governamental. A única bem sucedida. A manobra valeu-se de aproximadamente 18.000 soldados, da aeronáutica, exercito e policias militares estaduais. Era o fim da Guerrilha do Araguaia. Mas não o fim da resistência armada, nem do anseio de liberdade democrática, vento que fustigava incessantemente a face da ditadura no Brasil. Depois disto os guerrilheiros aprisionados passaram a ser sumariamente exterminados. A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Não deveria haver testemunhas daquele movimento. Até os corpos deveriam desaparecer E assim foi feito. A população também foi martirizada. Os camponeses eram forçados a servir de mateiros para o Exército. Vilarejos inteiros foram esvaziados. A maior parte da população de São Domingos do Araguaia foi presa. Estabeleceu-se o toque de recolher e todos os suspeitos de manter contatos com os guerrilheiros foram presos e submetidos a interrogatórios que envolviam torturas físicas e mentais. Não escaparam nem mesmo padres e freiras, participantes ou não da luta. Nesses tempos no Araguaia, qualquer sinal de simpatia por eles era visto como um perigoso ato de contestação ao regime, tão criminoso quanto pegar em armas. As forças de repressão que atuaram no Araguaia, que maltrataram a população civil, torturaram e executaram pessoas desarmadas e indefesas - muitas delas doentes e sem nenhuma capacidade de resistência. No final da década de 1970, e durante toda a década de 80 o sul do Pará tornou-se palco de uma sangrenta luta entre os posseiros pobres e os latifundiários. E até o direito a uma sepultura cristã, em local conhecido, foi negado aos que tombaram em prol de um país melhor. Em 1968 Sérgio fora recrutado pelo movimento clandestino. Idealista ou ingênuo, procurou pontuar um rumo para sua vida, cheia de incertezas e na época marcada por uma profunda decepção amorosa. O resgate da liberdade de expressão e a procura por melhores condições de vida, em um país regido pelos excessos da ditadura militar, passaram a ser seus objetivos mais próximos.